
Durante um almoço de domingo, uma mulher conversa com amigos quando, de repente, um lado do rosto começa a pesar. Ela tenta sorrir, mas apenas metade da boca se move. O braço esquerdo não responde, e as palavras saem confusas. É um dos cenários mais típicos de um acidente vascular cerebral (AVC) — e cada segundo sem atendimento reduz as chances de recuperação completa.
O AVC ocorre quando o fluxo de sangue que leva oxigênio e nutrientes ao cérebro é interrompido. Isso pode acontecer por um bloqueio, quando um coágulo impede a passagem do sangue, caracterizando o AVC isquêmico, ou pelo rompimento de um vaso, que causa o AVC hemorrágico.
Segundo a World Stroke Organization — organização científica internacional dedicada ao estudo e prevenção da doença cerebrovascular — o tipo isquêmico representa cerca de 80% dos casos¹.
O Global Stroke Fact Sheet 2025, da mesma instituição, mostra que o AVC permanece entre as principais causas de morte e incapacidade no mundo, com aproximadamente 12 milhões de novos casos e mais de 6 milhões de mortes todos os anos¹.
No Brasil, a Sociedade Brasileira de AVC estima que ocorram cerca de 400 mil casos anuais, muitos deles resultando em algum grau de incapacidade permanente³.
Como reconhecer os sintomas de um AVC
Campanhas internacionais criaram formas simples de ajudar o público a identificar rapidamente um AVC. O método FAST — sigla em inglês para Face, Arms, Speech, Time (rosto, braços, fala e tempo) — orienta a observar se há assimetria facial, fraqueza em um dos braços e fala arrastada; diante de qualquer sinal, o tempo é decisivo⁵.
No Brasil, o conceito foi adaptado para materiais educativos do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – 192), que usam a mesma lógica de reconhecimento rápido dos sintomas.
Em linguagem simples: peça que a pessoa sorria; se o rosto entortar, é sinal de alerta. Peça que levante os dois braços; se um cair, pode haver fraqueza. Peça que fale ou cante algo curto; se a fala sair enrolada ou confusa, há suspeita de AVC⁵.
Em qualquer caso, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou leve a pessoa ao serviço de emergência mais próximo⁶.
Outros sintomas de AVC incluem fraqueza súbita em um lado do corpo, perda de visão, confusão mental, tontura, convulsões ou dor de cabeça repentina e intensa sem causa aparente².
Em neurologia de emergência, o princípio é claro: “tempo é cérebro” — quanto mais rápido o atendimento, maiores as chances de recuperação⁷.
Tratamento do AVC: porque agir rápido
A agilidade no atendimento define o desfecho. Diretrizes da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC) recomendam que o tratamento com trombólise intravenosa — medicamento capaz de dissolver o coágulo e restabelecer o fluxo sanguíneo — seja iniciado idealmente dentro de 4,5 horas após o início dos sintomas⁷.
Em centros especializados, exames de imagem, como tomografia computadorizada e ressonância magnética com perfusão, permitem identificar o tecido cerebral ainda viável e ampliar a janela terapêutica para até 9 horas em casos selecionados⁹.
A tomografia de crânio é fundamental nas primeiras etapas do atendimento para diferenciar isquemia de hemorragia e guiar a conduta².
Prevenção e fatores de risco do AVC
A maioria dos casos de AVC está relacionada a fatores de risco modificáveis, como hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade e sedentarismo¹⁰.
Controlar a pressão arterial, praticar atividade física e manter uma alimentação equilibrada — como a dieta mediterrânea ou a DASH — reduz de forma comprovada o risco de eventos cerebrovasculares¹⁰.
O relatório global da World Stroke Organization também alerta para a influência crescente de fatores ambientais, como poluição do ar e ondas de calor, especialmente em países de renda média.
Sem avanços significativos em prevenção, o custo global do AVC, hoje estimado em US$ 890 bilhões por ano, pode dobrar até 2050¹.
Reabilitação após o AVC: recuperar-se é possível
Mesmo com atendimento rápido, o AVC pode deixar sequelas motoras, cognitivas e de linguagem.
Estudos apontam que iniciar a reabilitação precoce — com fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e acompanhamento neurológico — melhora significativamente a recuperação funcional e favorece o retorno à autonomia¹⁴.
Reconhecer os sinais, agir rápido e manter hábitos saudáveis são atitudes simples que salvam vidas e preservam cérebros.
Para Levar a Sério
- O AVC é uma emergência médica: cada minuto conta.
- Rosto torto, fraqueza em um braço e fala arrastada são sinais de alerta.
- Acione o SAMU (192) ou procure atendimento de emergência.
- Pressão alta, diabetes e tabagismo estão entre os principais fatores de risco.
- Reabilitação precoce reduz sequelas e melhora a qualidade de vida.
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- Feigin VL, Norrving B, Lindsay MP, et al. World Stroke Organization Global Stroke Fact Sheet 2025. Int J Stroke. 2025;20(2):132–144. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11786524/ — Acesso em: 27 out 2025.
- Ministério da Saúde. AVC — Saúde de A a Z. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/avc — Acesso em: 27 out 2025.
- Sociedade Brasileira de AVC. Números do AVC no Brasil. Disponível em: https://avc.org.br/numeros-do-avc/ — Acesso em: 27 out 2025.
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- Governo de Santa Catarina. SAMU 192 – sinais e sintomas de AVC (material educativo). Disponível em: https://samu.saude.sc.gov.br/ — Acesso em: 27 out 2025.
- CONITEC – Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do AVC Isquêmico Agudo. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/consultas/relatorios/2021/20211230_relatorio_recomendacao_avci_agudo_cp110.pdf — Acesso em: 27 out 2025.
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- Ministério da Saúde. Diretrizes de atenção à reabilitação da pessoa com AVC. Biblioteca Virtual em Saúde. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_atencao_reabilitacao_acidente_vascular_cerebral.pdf — Acesso em: 27 out 2025.