É verdade que chegou uma “superflu” mais perigosa no Brasil?

Quatro casos da variante do vírus influenza A (H3N2) foram confirmados no país, mas evidências científicas indicam que ela não é mais agressiva e que a vacina do SUS mantém proteção contra formas graves

Tempo de Leitura: 6 minutos

Dezembro de 2025 levou ao noticiário brasileiro uma sigla que rapidamente ganhou contornos alarmistas. Expressões como “gripe K”, “superflu” e “nova cepa” passaram a circular com força em títulos e redes sociais, sugerindo o surgimento de uma ameaça inédita. O cenário real é bem menos dramático. O que chegou ao Brasil foi uma variante genética do vírus influenza A (H3N2) — o mesmo responsável por epidemias sazonais de gripe há mais de cinco décadas.

A chamada gripe K é uma versão modificada do influenza A (H3N2) — tecnicamente chamada de subclado J.2.4.1 —, um subtipo do vírus da gripe que já circula regularmente em humanos. Até dezembro de 2025, quatro casos haviam sido confirmados no país — um no Pará, associado a viagem internacional, e três no Mato Grosso do Sul, ainda em investigação epidemiológica¹. A detecção ocorreu no âmbito do sistema nacional de vigilância genômica, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pelo Instituto Adolfo Lutz, responsáveis por acompanhar de forma contínua os vírus respiratórios em circulação no país¹.

Para entender o peso real desses registros, é preciso olhar o cenário mais amplo. Até a semana epidemiológica 50 de 2025, o Brasil acumulava mais de 224 mil casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), com mais de 13 mil óbitos notificados². Entre os casos de SRAG com identificação de vírus respiratórios, cerca de 23% tiveram como agente o influenza A². Diante desse volume, os quatro casos atribuídos à gripe K representam uma fração mínima do total e, segundo o Ministério da Saúde, não alteram o cenário epidemiológico nacional¹.

Para compreender por que essa variante ganhou destaque internacional, é necessário observar o que ocorreu em outros continentes.

Por que a gripe K chamou atenção fora do Brasil

A gripe K não é um vírus novo. Ela resulta de uma ramificação do H3N2 que acumulou mutações em uma proteína de superfície chamada hemaglutinina — responsável por permitir que o vírus se ligue às células humanas e principal alvo da proteção gerada pelas vacinas³. Mudanças desse tipo são esperadas nos vírus da gripe e ajudam a explicar por que a vacina contra a gripe precisa ser atualizada periodicamente.

O que despertou atenção das autoridades sanitárias internacionais foi o padrão de circulação dessa variante. Na Europa, o subclado K passou a predominar ao longo do segundo semestre de 2025, respondendo por uma parcela significativa das amostras analisadas entre maio e novembro³. No Reino Unido, a temporada de gripe começou mais cedo que o habitual, com essa variante concentrando a maioria dos casos registrados entre agosto e outubro⁴. Movimento semelhante foi observado em outros países do hemisfério norte⁵.

Do ponto de vista clínico, porém, não há evidências de maior gravidade. Estudos de vigilância e de efetividade vacinal realizados na Inglaterra — incluindo o trabalho publicado no Euro Surveillance — indicam que, apesar de o vírus apresentar diferenças em relação à cepa incluída na vacina do hemisfério norte 2025–2026, a proteção contra casos graves foi mantida⁴. No estudo conduzido na Inglaterra, a efetividade vacinal contra hospitalizações e atendimentos de emergência variou entre 72% e 75% em crianças e adolescentes e entre 32% e 39% em adultos⁴. Até o momento, não foram observados aumento de letalidade nem mudanças relevantes no perfil de sintomas associados a essa variante⁴,⁵.

Por que o cenário brasileiro é diferente

No Brasil, a circulação do vírus influenza segue uma lógica distinta da observada na Europa e na América do Norte. Em países de clima temperado, a gripe costuma se concentrar nos meses de inverno. Já em um país de dimensões continentais e clima predominantemente tropical e subtropical, como o Brasil, a sazonalidade varia conforme a região. A maior incidência ocorre entre abril e julho no Sul e Sudeste, enquanto no Norte e Nordeste a circulação é mais contínua ao longo do ano⁶.

Em 2025, o país apresentou um comportamento atípico do influenza A (H3N2), com aumento de casos no segundo semestre, especialmente no Centro-Oeste, antes mesmo da identificação da gripe K em território nacional¹,². Ainda assim, os dados mais recentes apontam tendência de estabilização ou queda na maioria das regiões ao final do ano². O Ministério da Saúde afirma que não há evidências de que o Brasil esteja reproduzindo o padrão observado no hemisfério norte¹. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) também aponta que, apesar da circulação global de novas variantes, não há indicação de aumento do risco de gravidade da gripe nas Américas⁵.

Vacina do SUS e tratamento seguem eficazes

A vacina do SUS contra a gripe é trivalente e protege contra dois subtipos de influenza A — H1N1 e H3N2 — além de um subtipo de influenza B⁸,⁹. A formulação utilizada na campanha de vacinação de 2025 foi definida antes do surgimento e da disseminação global do subclado K, o que explica por que a vacina não apresenta correspondência perfeita com essa variante, conforme observado em alguns estudos⁴.

Mesmo assim, as evidências disponíveis mostram que a vacina contra a gripe continua oferecendo proteção relevante contra formas graves da doença, hospitalizações e óbitos⁴,⁵. Esse é um padrão conhecido da imunização contra influenza: ainda que a correspondência entre vacina e vírus não seja perfeita, o benefício clínico se mantém, sobretudo para grupos de risco.

Na prática, apesar do ruído em torno da chamada “superflu”, não há indicação de mudança no risco individual nem na forma como a gripe vem sendo enfrentada no país. A recomendação segue sendo a vacinação anual e a atenção aos sinais de agravamento, especialmente entre idosos, gestantes, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas ou imunossupressão¹. O tratamento antiviral com oseltamivir continua disponível gratuitamente no SUS e apresenta maior benefício quando iniciado nas primeiras 48 horas após o início dos sintomas, embora possa ser indicado mesmo depois desse período em pessoas com maior risco de complicações¹⁰.

Os quatro casos confirmados de gripe K no Brasil representam uma parcela insignificante diante do total de infecções respiratórias graves registradas em 2025. Os dados científicos atuais não indicam que o país esteja diante de uma “superflu” mais perigosa. O que existe é mais uma variante de um vírus amplamente conhecido, detectada por um sistema de vigilância robusto e enfrentada com estratégias já consolidadas. A mensagem central é de contexto e proporção: a gripe segue sendo um desafio relevante de saúde pública, mas não é um fenômeno novo nem está fora de controle. Informar-se com senso crítico, sem alarmismo, faz toda a diferença.

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  1. Brasil. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde intensifica vigilância de casos de gripe e reforça importância da vacinação [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2025 dez 18 [citado 2025 dez 30]. Disponível em:
    https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/dezembro/ministerio-da-saude-intensifica-vigilancia-de-casos-de-gripe-e-reforca-importancia-da-vacinacao
  2. Fundação Oswaldo Cruz. InfoGripe: Influenza A eleva casos de SRAG no Brasil [Internet]. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2025 dez 18 [citado 2025 dez 30]. Disponível em:
    https://fiocruz.br/noticia/2025/12/infogripe-influenza-eleva-casos-de-srag-no-norte
  3. European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC). Assessing the risk of influenza for the EU/EEA in the context of increasing circulation of A(H3N2) subclade K [Internet]. Stockholm: ECDC; 2025 nov 20 [citado 2025 dez 30]. Disponível em:
    https://www.ecdc.europa.eu/en/publications-data/threat-assessment-brief-assessing-risk-influenza-november-2025
  4. Kirsebom FCM, Thompson C, Talts T, et al. Early influenza virus characterisation and vaccine effectiveness in England in autumn 2025 dominated by influenza A(H3N2) subclade K. Euro Surveill. 2025;30(48):pii=2400804. doi:10.2807/1560-7917.ES.2025.30.48.2400804. PMID:39688296; PMCID:PMC12639273.
  5. Organización Panamericana de la Salud (OPAS/OMS). Influenza A(H3N2) subclado K (J.2.4.1): consideraciones para la Región de las Américas [Internet]. Washington, D.C.: OPAS; 2025 dic 11 [citado 2025 dez 30]. Disponível em:
    https://www.paho.org/sites/default/files/2025-12/2025-dic-11-phe-notaepi-h3n2-esfinal_0.pdf
  6. Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 3ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2019. Disponível em:
    https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_saude_3ed.pdf
  7. Brasil. Ministério da Saúde. Instrução Normativa nº 330, de 17 de outubro de 2024. Dispõe sobre as diretrizes para a vigilância sentinela de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) hospitalizada no Brasil. Diário Oficial da União [Internet]. 2024 out 18; Seção 1:48. Disponível em:
    https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/instrucao-normativa-n-330-de-17-de-outubro-de-2024-589794076
  8. World Health Organization (WHO). Recommended composition of influenza virus vaccines for use in the 2026 southern hemisphere influenza season [Internet]. Geneva: WHO; 2025 set 27 [citado 2025 dez 30]. Disponível em:
    https://www.who.int/news/item/27-09-2025-recommendations-announced-for-influenza-vaccine-composition-for-the-2026-southern-hemisphere-influenza-season
  9. Brasil. Ministério da Saúde. Vigilância da Influenza [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2025 [citado 2025 dez 30]. Disponível em:
    https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/i/influenza
  10. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de tratamento de Influenza [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2017 [citado 2025 dez 30]. Disponível em:
    https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_tratamento_influenza_2017.pdf

Deborah LIma

Jornalista do Saúde a Sério

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