Alterações na circulação e na saúde vascular também afetam mulheres jovens e exigem atenção precoce

De anticoncepcionais à menopausa, hormônios, hábitos de vida e mudanças fisiológicas influenciam a saúde vascular feminina — e sinais aparentemente simples podem ser os primeiros alertas do organismo

Tempo de Leitura: 5 minutos

Leia o resumo da notícia

• Problemas de circulação não são exclusivos da idade avançada. Alterações na saúde vascular podem aparecer já na juventude e merecem atenção desde cedo.

• Sensação de peso nas pernas, inchaço ao final do dia e surgimento de veias dilatadas podem ser sinais iniciais de insuficiência venosa, condição comum que afeta o retorno do sangue das pernas para o coração.

• O uso de anticoncepcionais hormonais, especialmente aqueles com estrogênio, pode aumentar o risco de trombose venosa em algumas mulheres — principalmente quando existem fatores como tabagismo, obesidade ou histórico familiar.

• Durante a gestação, o organismo entra em um estado natural de maior coagulação do sangue, o que ajuda a prevenir hemorragias no parto, mas também aumenta o risco de formação de coágulos.

• A menopausa marca uma fase em que a queda do estrogênio reduz a proteção cardiovascular, favorecendo o desenvolvimento de aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

• Sintomas como inchaço persistente em uma perna, dor intensa na panturrilha, calor local ou falta de ar súbita podem indicar trombose venosa profunda e exigem avaliação médica imediata.

• Medidas simples ajudam a proteger a circulação sanguínea: manter-se ativo, evitar longos períodos sentado ou em pé, controlar o peso, hidratar-se bem e acompanhar pressão arterial, glicemia e colesterol.

• Cuidar da saúde vascular ao longo da vida — observando sinais precoces e mantendo hábitos saudáveis — é uma das estratégias mais eficazes para preservar autonomia, mobilidade e qualidade de vida.


Problemas de circulação costumam ser associados ao envelhecimento, mas alterações na saúde vascular podem surgir muito antes. Em mulheres jovens, fatores hormonais, hábitos de vida e mudanças fisiológicas ao longo da vida podem influenciar diretamente o funcionamento do fluxo sanguíneo.

O sistema vascular responde às oscilações hormonais, às mudanças metabólicas e a eventos fisiológicos como gravidez e menopausa. Em outras palavras, os vasos sanguíneos não são estruturas rígidas e imutáveis. Eles se adaptam continuamente às demandas do corpo. Por isso, a saúde vascular feminina não segue um único padrão ao longo da vida. Ela se transforma conforme o organismo atravessa diferentes etapas biológicas — e, justamente por isso, merece atenção desde cedo.

Sinais precoces de problemas de circulação nas pernas podem surgir ainda na juventude

Nas primeiras décadas da vida, alguns sinais podem indicar que o sistema vascular já está sob pressão. Sensação de peso nas pernas, inchaço ao final do dia e o surgimento de veias dilatadas estão entre as queixas mais comuns nos consultórios de angiologia e cirurgia vascular. Muitas vezes esses sintomas são tratados como um simples cansaço da rotina, mas podem estar relacionados à insuficiência venosa, condição em que o retorno do sangue das pernas para o coração acontece de forma menos eficiente¹. Estimativas internacionais indicam que a doença venosa crônica pode afetar uma parcela significativa das mulheres adultas¹. É como se o sistema de “válvulas” das veias — responsável por impedir que o sangue volte para baixo — começasse a perder parte da sua eficiência.

Outro ponto que merece atenção nessa fase é o uso de anticoncepcionais hormonais, particularmente aqueles que contêm estrogênio. Esses medicamentos são amplamente utilizados e considerados seguros para a maioria das mulheres, mas estudos epidemiológicos mostram que podem aumentar o risco de trombose venosa em determinadas circunstâncias². Esse aumento de risco varia bastante conforme o perfil individual e costuma ser baixo em mulheres saudáveis sem outros fatores predisponentes. O problema tende a surgir quando entram na equação condições como obesidade, tabagismo, sedentarismo ou histórico familiar de eventos trombóticos. Por isso, a escolha do método contraceptivo ideal deve sempre considerar as características clínicas de cada paciente.

As mudanças hormonais, no entanto, não se limitam ao uso de contraceptivos e continuam influenciando o organismo em outras fases importantes da vida feminina.

Gravidez e menopausa: como as mudanças hormonais influenciam a circulação

Durante a gestação, o sistema vascular passa por adaptações ainda mais intensas. O volume de sangue aumenta, as veias da pelve e das pernas sofrem maior compressão e o corpo entra em um estado conhecido como hipercoagulabilidade — um ajuste fisiológico que ajuda o organismo a reduzir o risco de hemorragias no parto³. Em termos simples, o sangue passa a ter maior tendência à coagulação. O efeito colateral desse mecanismo de proteção é que ele também pode se tornar mais propenso à formação de coágulos. Por isso, varizes e episódios trombóticos tornam-se mais frequentes nesse período, exigindo acompanhamento cuidadoso no pré-natal.

As transformações continuam ao longo da vida. Na menopausa, a redução dos níveis de estrogênio leva à perda de um efeito protetor que esse hormônio exerce sobre o sistema cardiovascular. Evidências mostram que, após essa transição hormonal, aumenta a predisposição ao desenvolvimento de aterosclerose — processo em que placas de gordura se acumulam nas paredes das artérias e podem levar a eventos como infarto e **acidente vascular cerebral (AVC)**⁴.

Sintomas de trombose e cuidados para preservar a saúde vascular

Observar os sinais do corpo é fundamental para evitar complicações. Inchaço persistente em apenas uma perna, dor intensa na panturrilha, aumento da temperatura local ou falta de ar súbita são sintomas que exigem avaliação médica imediata. Esses quadros podem indicar trombose venosa profunda, condição em que um coágulo se forma nas veias profundas das pernas e que, em algumas situações, pode evoluir para embolia pulmonar⁵.

Quando o assunto é prevenção, pequenas atitudes cotidianas fazem diferença. Em determinadas situações, o uso de meias de compressão graduada é indicado para melhorar o retorno venoso e reduzir o desconforto nas pernas, especialmente em casos de varizes sintomáticas ou edema mais intenso. Diretrizes internacionais sobre doença venosa crônica indicam que a compressão elástica pode aliviar sintomas e melhorar o funcionamento do sistema venoso nos membros inferiores⁶.

Mas talvez a estratégia mais poderosa continue sendo a mais simples — e também uma das mais negligenciadas: movimento. Caminhar, evitar longos períodos sentado ou em pé, manter alimentação equilibrada, hidratação adequada e controle do peso corporal são medidas que ajudam a preservar o funcionamento da circulação sanguínea.

Consultas médicas periódicas também desempenham papel importante nesse processo. Elas permitem acompanhar indicadores como pressão arterial, glicemia e níveis de colesterol, além de considerar o histórico familiar e outros fatores de risco individuais.

No fim das contas, cuidar da circulação e da saúde vascular é um exercício contínuo de atenção ao próprio corpo. Muitas alterações vasculares evoluem de forma silenciosa por anos antes de se manifestarem de maneira mais evidente. Reconhecer sinais precoces, investigar sintomas persistentes e adotar hábitos saudáveis ao longo da vida continua sendo uma das estratégias mais eficazes para preservar autonomia, qualidade de vida e um envelhecimento mais saudável.

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  1. Lidegaard Ø et al. Hormonal contraception and risk of venous thromboembolism. BMJ. 2012.
    https://www.bmj.com/content/344/bmj.e2990
  2. James AH. Pregnancy-associated thrombosis. Circulation. 2009.
    https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIRCULATIONAHA.109.192454
  3. Eberhardt RT, Raffetto JD. Chronic venous insufficiency. Circulation. 2014.
    https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIRCULATIONAHA.113.006898
  4. El Khoudary SR et al. Menopause transition and cardiovascular disease risk. Circulation. 2020.
    https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIR.0000000000000912
  5. Konstantinides SV et al. 2019 ESC Guidelines for the diagnosis and management of acute pulmonary embolism. European Heart Journal.
    https://academic.oup.com/eurheartj/article/41/4/543/5556136
  6. Wittens C et al. Management of chronic venous disease: Clinical Practice Guidelines of the European Society for Vascular Surgery. European Journal of Vascular and Endovascular Surgery.
    https://www.ejves.com/article/S1078-5884(21)00979-5/fulltext

Dra. Inez Ohashi Torres

Cirurgiã vascular Vice-secretária da Diretoria Executiva da SBACV-SP (biênio 2026–2027)

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