
Falar sobre autismo nunca foi tão comum. O tema saiu dos consultórios, ganhou as redes sociais, entrou nas conversas de família e passou a ocupar espaço constante na mídia. Esse movimento tem um mérito inegável: ampliou o acesso à informação e ajudou a reduzir o estigma em torno da saúde mental. Também contribuiu para que mais pessoas fossem avaliadas e acompanhadas precocemente — um avanço importante no diagnóstico de autismo. Mas, como costuma acontecer quando um assunto se populariza rapidamente, também surgem distorções.
De forma geral, o transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento, com início na infância, caracterizada por dificuldades na comunicação e na interação social, além de padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos, que podem impactar o funcionamento no dia a dia. A forma como esses sinais se manifestam varia bastante de pessoa para pessoa — daí o uso do termo “espectro”.
Nesse cenário, a ciência precisa voltar ao centro da conversa — não para frear o debate, mas para dar mais precisão a ele.
O aumento dos diagnósticos de autismo em debate
Para o psiquiatra José Alberto Del Porto, professor titular da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), o momento atual exige um olhar cuidadoso. Segundo ele, o que se observa hoje não é necessariamente um aumento real do autismo, mas uma ampliação significativa daquilo que passou a ser entendido como autismo: “Hoje nós assistimos a uma verdadeira epidemia, não do autismo, mas daquilo que as pessoas entendem por autismo.”
A afirmação chama atenção, especialmente quando colocada ao lado dos dados mais recentes. Estimativas indicam que o transtorno do espectro autista pode afetar cerca de 1 a cada 31 crianças nos Estados Unidos¹. Esse número contrasta com as primeiras descrições clínicas do transtorno. Em 1943, Leo Kanner descreveu o autismo infantil precoce como uma condição rara, com prevalência estimada entre um e dois casos a cada 10 mil crianças².
A diferença é expressiva. É como observar o mesmo fenômeno por lentes distintas ao longo do tempo. A pergunta, então, muda de lugar: estamos enxergando melhor ou apenas mais amplo?
Parte da literatura científica sugere que os dois movimentos acontecem ao mesmo tempo. O aumento dos diagnósticos de autismo também está associado a maior conscientização, ampliação do acesso aos serviços de saúde e melhor identificação de casos antes subdiagnosticados, incluindo meninas e perfis mais sutis do espectro¹.
Um espectro amplo — e cada vez mais difuso no transtorno do espectro autista
Na avaliação de Del Porto, esse crescimento não pode ser explicado apenas por maior acesso ao diagnóstico ou avanço da medicina. Ele aponta para a ampliação dos critérios diagnósticos adotados em classificações contemporâneas como o DSM-5 e a CID-11³⁴.
Na prática, esses sistemas passaram a reunir sob o mesmo rótulo um conjunto bastante diverso de manifestações clínicas dentro do transtorno do espectro autista. O resultado é um diagnóstico que pode abranger desde indivíduos com deficiência intelectual profunda, ausência de linguagem e dependência total até pessoas com inteligência acima da média, comunicação preservada e vida completamente independente.
“Você pode ter, de um lado, deficiência intelectual profunda com ausência de linguagem. E, do outro, pessoas com QI elevado, que se comunicam bem e são totalmente autônomas.”
Essa amplitude ajuda a explicar o termo “espectro”, mas também revela seus limites. Quando praticamente tudo cabe dentro de uma mesma categoria, há o risco de perder nitidez.
“A partir do momento em que você reúne quadros tão diferentes sob o mesmo nome, você tem que falar em autismos, no plural.”
A literatura científica reconhece essa heterogeneidade. O transtorno do espectro autista envolve grande variabilidade clínica, com diferentes perfis cognitivos, comportamentais e trajetórias de desenvolvimento⁵⁶.
Mais recentemente, estudos genéticos em larga escala começaram a investigar possíveis subgrupos biológicos dentro do espectro. Esses trabalhos sugerem que diferentes combinações de fatores podem estar associadas a perfis distintos de desenvolvimento, embora essa linha de pesquisa ainda esteja em evolução e não tenha impacto direto no diagnóstico de autismo na prática clínica⁷.
Quando os diagnósticos de autismo se sobrepõem
A diversidade é real e faz parte do próprio conceito. O problema, segundo Del Porto, surge quando deixa de ser apenas uma característica a ser compreendida e passa a diluir o próprio diagnóstico: “Como é que nós vamos fazer pesquisas bioquímicas, genéticas ou terapêuticas com um quadro tão heterogêneo?”
A questão não é trivial. Quanto mais amplo o grupo, mais difícil identificar padrões consistentes. Isso impacta diretamente o avanço da ciência — da genética às possibilidades terapêuticas. Estudos indicam que entre 60% e 85% do risco para o autismo está associado a fatores genéticos, enquanto o restante envolve influências ambientais e interações complexas ao longo do desenvolvimento⁸.
Outro ponto importante é a sobreposição com outras condições psiquiátricas. Pesquisas publicadas no JAMA Psychiatry mostram que o autismo frequentemente coexiste com transtornos como ansiedade, depressão, TDAH e transtorno obsessivo-compulsivo — as chamadas comorbidades, isto é, quando mais de um transtorno ocorre ao mesmo tempo — com taxas que podem ultrapassar 70%⁹.
“Não há praticamente diagnóstico diferencial. O que há são comorbidades.”
Na prática clínica, isso se traduz em um desafio adicional: separar o que pertence a cada quadro. Muitas vezes, esses elementos já aparecem misturados desde o início.
O impacto do discurso público e da neurodiversidade no autismo
Para além da clínica, há também um componente social relevante: “Hoje nós vemos figuras públicas, profissionais altamente funcionais, que se autodeclaram autistas, ” questina Del Porto quanto a coerência desses enquadramentos à luz da definição clássica do transtorno, que envolve prejuízo significativo na interação social e na comunicação afetiva.
“Como é que uma pessoa cuja atividade depende de comunicação intensa e empatia pode ser classificada dentro desse conceito?”
Esse debate se conecta a um movimento contemporâneo importante: a ideia de neurodiversidade, que propõe entender variações neurológicas como parte da diversidade humana, e não necessariamente como doença¹⁰. Essa perspectiva contribuiu para reduzir o estigma, mas, quando aplicada sem critérios claros, pode ampliar ainda mais as fronteiras diagnósticas.
Outro aspecto delicado envolve o peso social dos diagnósticos: “Muitas vezes, quando se trata de uma criança com deficiência intelectual, os pais preferem o diagnóstico de autismo”, diz.
No Brasil, assim como em outros países, a maior visibilidade do autismo também impulsiona a busca por diagnóstico e por serviços especializados. Ainda assim, há desafios relevantes. Estudos indicam que, em média, as primeiras preocupações familiares surgem por volta dos 23 meses, enquanto o diagnóstico de autismo pode ocorrer apenas aos 60 meses de idade¹¹.
De onde vem o conceito de autismo
Historicamente, o termo “autismo” surgiu em outro contexto. Foi utilizado inicialmente por Eugen Bleuler, psiquiatra suíço, para descrever um aspecto da esquizofrenia relacionado ao predomínio da vida interna¹². Mais tarde, com Leo Kanner, passou a designar um quadro específico do desenvolvimento infantil².
Com o tempo, novas categorias foram sendo incorporadas, como a síndrome de Asperger — posteriormente absorvida pelo espectro nas classificações atuais³. Esse processo ampliou o alcance do diagnóstico, mas também trouxe mais complexidade.
Os limites do diagnóstico de autismo na prática
Outro desafio importante permanece: a ausência de marcadores biológicos objetivos. Não há exame de sangue ou imagem que, isoladamente, confirme o diagnóstico de autismo⁵.
“Como é que você vai pesquisar marcadores biológicos para uma síndrome tão ampla?”
Na prática, o diagnóstico continua sendo clínico, baseado na observação do comportamento e no histórico do desenvolvimento. No caso de adultos, a complexidade é ainda maior.
“O diagnóstico no adulto é mais complicado e muitas vezes excessivo.”
Diante desse cenário, a psiquiatria vive um momento de revisão. Estudos discutem se o aumento observado nos diagnósticos de autismo representa uma mudança real ou uma expansão conceitual do transtorno¹³.
Ao mesmo tempo, há um ponto de maior consenso: a importância da intervenção precoce no autismo. Evidências mostram que abordagens terapêuticas podem melhorar significativamente habilidades cognitivas e adaptativas quando iniciadas cedo¹⁴.
No fundo, a questão é menos sobre números e mais sobre significado: “Quando o conceito se torna amplo demais, ele deixa de ser útil”, resume José Alberto Del Porto.
A ampliação do debate sobre saúde mental é necessária e bem-vinda. Mas precisa caminhar ao lado do rigor científico. Em saúde, dar nome às coisas também significa definir caminhos de cuidado — e garantir que quem precisa de diagnóstico de autismo, intervenção precoce e acompanhamento adequado realmente receba.
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- https://doi.org/10.15585/mmwr.ss7402a1
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3757918/
- https://www.psychiatry.org/psychiatrists/practice/dsm
- https://icd.who.int/
- https://www.nature.com/articles/nrdp201420
- https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(20)30146-2/fulltext
- https://doi.org/10.1038/s41588-025-02108-6
- https://doi.org/10.1172/JCI201157
- https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/2737582
- https://www.nature.com/articles/s41591-020-0799-3
- https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fneur.2021.598073/full
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3757918/
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30808492/
- https://doi.org/10.7759/cureus.400356