O que a medicina do esporte ensina sobre longevidade e qualidade de vida

Avanços desenvolvidos para atletas de alto rendimento ajudam a melhorar tratamentos e prevenir lesões, mas especialista destaca que viver mais e viver melhor são objetivos diferentes

Tempo de Leitura: 6 minutos

Quando um atleta cruza a linha de chegada em tempo recorde, retorna aos gramados poucos meses após uma lesão grave ou consegue prolongar a carreira além do que parecia possível, a sensação é de que a medicina esportiva encontrou maneiras de desafiar os limites do corpo humano.

Parte dessa percepção é verdadeira. Nas últimas décadas, o conhecimento produzido dentro do esporte ajudou a transformar tratamentos, acelerar reabilitações e ampliar a compreensão sobre prevenção de lesões¹. Ao mesmo tempo, a experiência acumulada com profissionais de alto rendimento revelou uma constatação menos intuitiva: alcançar o máximo desempenho físico nem sempre significa preservar a saúde no longo prazo.

Poucos profissionais acompanharam essa evolução tão de perto quanto Moisés Cohen. Professor titular de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), fundador do Centro de Traumatologia do Esporte (CETE), centro de excelência da Federação Internacional de Futebol (FIFA) na instituição, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Internacional de Artroscopia, Cirurgia do Joelho e Medicina Esportiva (ISAKOS), uma das principais entidades mundiais da especialidade, Cohen ajudou a desenvolver e difundir técnicas que hoje beneficiam esportistas e pacientes em diferentes partes do mundo.

Para Cohen, um dos erros mais comuns é confundir performance com longevidade: “O indivíduo que é o melhor jogador do time não quer dizer que ele vai viver melhor o resto da vida. Performance é diferente de viver bem, de durabilidade, de longevidade. São duas coisas muito diferentes”.

Ao longo de décadas acompanhando competidores profissionais, ele viu de perto tanto os benefícios quanto os custos da busca pelo desempenho máximo. Em sua avaliação, o esporte de alto rendimento funciona como um grande observatório da capacidade humana: “O atleta de alto rendimento me permite entender qual é o limite que o ser humano pode chegar. A cada Olimpíada os recordes são batidos e os limites vão subindo. Mas isso tem um preço. A conta chega”.

Mais do que viver, viver bem

Viver mais deixou de ser exceção. O avanço da medicina, das vacinas, dos tratamentos e das condições de vida fez a expectativa de vida aumentar de forma consistente em grande parte do mundo². O desafio agora é garantir que esses anos extras sejam vividos com autonomia, mobilidade e bem-estar.

A discussão ganhou relevância porque longevidade e envelhecimento saudável nem sempre caminham juntos. Como resume Cohen: “Existe um intervalo entre viver mais e viver bem. O que queremos é que a tecnologia e a medicina do esporte permitam viver mais, mas viver bem”.

Essa reflexão traduz uma mudança importante na especialidade. Se durante muito tempo o foco esteve concentrado em devolver o atleta o mais rapidamente possível às competições, hoje cresce a preocupação com os impactos que lesões, cirurgias e sobrecargas podem causar ao longo da vida. O próprio médico resume essa visão em uma frase recorrente em suas apresentações: “Não é só dar anos à vida, mas dar vida aos anos”.

O que os atletas ensinaram à medicina

Quem acompanha grandes competições costuma enxergar apenas o resultado final: a medalha, o recorde ou a volta aos gramados. Nos bastidores, porém, cada recuperação carrega aprendizados que acabam chegando aos consultórios anos depois.

Parte das estratégias utilizadas atualmente para tratar lesões ortopédicas foi aperfeiçoada a partir da experiência adquirida com atletas profissionais³. Cirurgias menos invasivas, protocolos de reabilitação mais eficientes e medidas preventivas hoje presentes na prática clínica nasceram, em grande parte, da necessidade de devolver esses competidores às suas atividades com segurança⁴.

Segundo Cohen, acompanhar esse grupo permitiu compreender melhor como o organismo responde a diferentes tipos de sobrecarga e recuperação: “Com atleta a gente aprende muito. Grande parte das lesões que a gente tem hoje no consultório são lesões por sobrecarga”.

Ao longo da carreira, ele acompanhou diversos casos que ajudaram a ampliar esse conhecimento. Um deles foi o da ex-atleta Maurren Maggi, cuja recuperação exigiu anos de acompanhamento até o retorno às competições. Para o ortopedista, experiências como essa ensinam muito mais do que aspectos técnicos: “São momentos que a gente não esquece. A gente aprende não só medicina. Aprende convivência, aprende a valorizar o sofrimento que um atleta enfrenta durante uma recuperação”.

Quando o excesso vira problema

A mesma lógica observada no esporte profissional também aparece entre pessoas que praticam atividade física apenas por lazer.

Nos últimos anos, a adesão crescente a diferentes modalidades esportivas trouxe benefícios importantes para a saúde da população⁵. Em contrapartida, também aumentou o número de lesões relacionadas ao excesso de carga, à falta de preparo físico e ao desrespeito às características individuais⁶.

Na visão de Cohen, o problema raramente está na atividade física em si, mas na incapacidade de reconhecer até onde o corpo consegue se adaptar ao esforço: “À medida que você vai para o excesso, é aí que as lesões aparecem”.

A recomendação não é abandonar a prática esportiva, mas buscar orientação adequada, realizar avaliações periódicas e entender que cada organismo responde de forma diferente aos estímulos. Como destaca o especialista: “O correto é fazer o check-up, verificar se está tudo bem e também conhecer os próprios limites”.

A preocupação vale tanto para esportistas profissionais quanto para quem joga futebol aos fins de semana, pratica corrida ou aderiu recentemente a modalidades que exigem mudanças bruscas de direção, aceleração e desaceleração.

Força muscular e envelhecimento

Se existe um fator que ganha importância à medida que a idade avança, esse fator é a força muscular.

A preservação da massa muscular tem impacto direto sobre a independência funcional, a mobilidade e a autonomia das pessoas²,⁷. O tema ganha relevância em uma sociedade que envelhece rapidamente e busca manter a capacidade de realizar atividades cotidianas por mais tempo.

Na prática, o objetivo vai muito além da estética. Como explica Cohen: “Muito mais do que ter um músculo hipertrofiado, é ter força. Dependendo da faixa etária, é força para levantar de uma cadeira. É força para descer uma escada. Você precisa de músculo para isso”.

O médico também demonstra preocupação com o crescimento do uso inadequado de hormônios e anabolizantes entre adolescentes e jovens praticantes de atividade física. Segundo a literatura científica, essas substâncias podem estar associadas a alterações musculoesqueléticas, lesões tendíneas e outros desfechos adversos à saúde⁸.

Tecnologia amplia possibilidades, mas não substitui a biologia

A área vive uma nova transformação impulsionada por recursos digitais, inteligência artificial e sistemas avançados de monitoramento.

Pesquisas recentes já utilizam inteligência artificial associada a exames de imagem para identificar características anatômicas que podem aumentar o risco de determinadas lesões ligamentares⁹. A expectativa é desenvolver estratégias preventivas cada vez mais individualizadas.

Os resultados são promissores, mas ainda não representam uma solução definitiva. Essas ferramentas podem auxiliar na identificação de padrões e na avaliação de riscos, porém continuam dependendo da interpretação médica e de validação contínua em estudos clínicos.

Mesmo diante desses avanços, Cohen lembra que existe um fator que permanece imutável: o tempo biológico necessário para que o organismo se recupere. Nas palavras do especialista: “A tecnologia não consegue acelerar aquilo que a biologia impõe como tempo mínimo necessário para que as coisas aconteçam”.

A principal lição deixada por esse campo da medicina talvez seja justamente essa. O corpo humano pode ser treinado, fortalecido e recuperado de formas cada vez mais sofisticadas. Ainda assim, continua dependendo de adaptação, recuperação adequada e tempo. Compreender essa dinâmica é parte fundamental de uma vida mais longa e com mais autonomia.

Veja o episódio do Podcast Saúde a Sério sobre o tema

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¹ Khan KM, Thompson AM, Blair SN, Sallis JF, Powell KE, Bull FC, Bauman AE. Sport and exercise as contributors to the health of nations. Lancet. 2012;380(9836):59-64.
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(12)60865-4/fulltext

² World Health Organization. Guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: WHO; 2020.
https://www.who.int/publications/i/item/9789240015128

³ Diermeier T, Rothrauff BB, Engebretsen L, Lynch A, Svantesson E, Hamrin Senorski E, et al. Treatment after ACL injury: Panther Symposium ACL Treatment Consensus Group. British Journal of Sports Medicine. 2021;55(1):14-22.
https://bjsm.bmj.com/content/55/1/14

⁴ Beaufils P, Becker R, Kopf S, Englund M, Verdonk R, Ollivier M, Seil R. Surgical management of degenerative meniscus lesions. Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy. 2017;25(2):335-346.
https://link.springer.com/article/10.1007/s00167-016-4407-4

⁵ World Health Organization. Global status report on physical activity 2022.
https://www.who.int/publications/i/item/9789240059153

⁶ Kreher JB, Schwartz JB. Overtraining syndrome: a practical guide. Sports Health. 2012;4(2):128-138.
https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1941738111434406

⁷ Cruz-Jentoft AJ, Bahat G, Bauer J, Boirie Y, Bruyère O, Cederholm T, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing. 2019;48(1):16-31.
https://academic.oup.com/ageing/article/48/1/16/5126243

⁸ Kanayama G, DeLuca J, Meehan WP, Hudson JI, Isaacs S, Baggish A, Weiner RB, Micheli L, Pope HG Jr. Ruptured Tendons in Anabolic-Androgenic Steroid Users: A Cross-Sectional Cohort Study. The American Journal of Sports Medicine. 2015;43(11):2638-2644.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26362436/

⁹ Musahl V, Karlsson J, Krutsch W, Mandelbaum BR, Espregueira-Mendes J, d’Hooghe P, et al. Artificial intelligence and machine learning in sports medicine. Journal of Experimental Orthopaedics. 2024;11:22.
https://jeo-esska.springeropen.com/articles/10.1186/s40634-024-00763-8

Deborah Lima

Jornalista do Saúde a Sério

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