
Poucos temas geram tanta concordância espontânea quanto este. Basta reunir amigos de diferentes idades para ouvir relatos parecidos: conversas que desaparecem sem explicação, relacionamentos que parecem promissores e terminam rapidamente, encontros que não chegam a se transformar em vínculo.
A sensação de que construir uma conexão profunda ficou mais difícil tem aparecido com frequência nas conversas sobre relacionamentos. Mas o que acontece quando essa impressão é colocada sob o olhar da ciência?
Os estudos disponíveis ainda não permitem uma resposta definitiva. O que a literatura científica mostra é que a forma de conhecer, escolher e se relacionar mudou profundamente nas últimas décadas. Um estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences mostrou que, nos Estados Unidos, conhecer parceiros pela internet se tornou uma das principais formas de formação de casais heterossexuais, superando os encontros mediados por amigos nos anos mais recentes analisados pelo estudo.¹
Essa transformação ampliou oportunidades. Nunca foi tão fácil entrar em contato com pessoas que compartilham interesses, estilos de vida ou objetivos semelhantes. Ao mesmo tempo, surgiram novas dinâmicas que passaram a chamar a atenção dos pesquisadores.
Excesso de escolhas nos relacionamentos modernos
Uma delas envolve o chamado excesso de escolhas. Em um estudo publicado na Social Psychological and Personality Science, pesquisadores observaram que o acesso contínuo a muitos perfis em plataformas digitais pode favorecer uma “mentalidade de rejeição”. Ao longo de três estudos, os participantes passaram a rejeitar mais opções conforme avançavam na avaliação de potenciais parceiros. A chance de aceitar um perfil caiu ao longo da sequência de escolhas, indicando uma tendência crescente à rejeição conforme novas opções eram apresentadas.²
A dinâmica lembra situações bastante comuns do cotidiano. Quando existem poucas alternativas, escolher costuma ser mais simples. Quando as opções parecem praticamente infinitas, cresce a sensação de que talvez exista algo melhor logo adiante. Alguns pesquisadores acreditam que algo semelhante pode acontecer nos relacionamentos mediados por aplicativos.²
Isso não significa que as plataformas estejam tornando as pessoas incapazes de construir vínculos duradouros. A ciência não sustenta essa conclusão. O que os dados sugerem é que o excesso de possibilidades pode influenciar a forma como potenciais parceiros são avaliados e comparados.
Também chama atenção a velocidade com que as primeiras impressões são construídas. Em poucos segundos, uma pessoa decide se quer ou não continuar uma interação baseada em fotos, idade, localização e breves descrições. Um estudo publicado na Telematics and Informatics identificou que os usuários recorrem aos aplicativos por motivos diversos, incluindo busca por relacionamentos amorosos, sexo casual, facilidade de comunicação, validação da autoestima e curiosidade.³
O dado ajuda a desmontar uma visão simplista segundo a qual todos estariam procurando apenas relações passageiras. As motivações são múltiplas e variam entre indivíduos e momentos da vida.
Ainda assim, existe uma diferença importante entre conexão e intimidade. Características como confiança, empatia, capacidade de diálogo e compatibilidade de valores raramente aparecem em uma fotografia ou em uma troca rápida de mensagens. Elas costumam surgir aos poucos, à medida que a convivência avança.
Ghosting e o fim silencioso dos relacionamentos
Outro comportamento que ganhou destaque nos estudos recentes é o ghosting, termo utilizado para descrever o desaparecimento repentino de uma pessoa sem explicações claras para encerrar uma interação ou relacionamento. Em pesquisa publicada na Imagination, Cognition and Personality, a maioria dos jovens adultos participantes relatou já ter vivenciado a situação em algum papel, seja como quem desapareceu, seja como quem ficou sem resposta.⁴
O fenômeno se tornou particularmente relevante porque as tecnologias digitais simplificaram o ato de interromper contatos. Encerrar uma conversa pode exigir apenas deixar de responder mensagens, silenciar notificações ou bloquear um perfil.
O desaparecimento pode ter ficado mais fácil. O impacto emocional, porém, continua existindo. Um estudo publicado na Collabra: Psychology observou que o ghosting pode estar associado a experiências negativas para quem recebe esse tipo de ruptura, incluindo sentimentos de rejeição e dificuldade de compreender o encerramento da relação.⁵ O cérebro humano continua processando insegurança, dúvida e frustração de forma muito semelhante à que processava antes da era dos smartphones.
Os pesquisadores também passaram a observar sinais de desgaste associados ao uso prolongado dessas plataformas. Um estudo qualitativo publicado em 2025 na SN Social Sciences descreveu a chamada fadiga dos aplicativos de relacionamento, caracterizada por frustração, repetição de experiências semelhantes, desconfiança e cansaço emocional.⁶
Isso não significa que conhecer alguém online esteja associado a relacionamentos de menor qualidade. Diversas pesquisas apontam justamente o contrário. Um estudo publicado na Communication Research, que analisou pessoas em relacionamentos duradouros iniciados pela internet, mostrou que muitos desses vínculos evoluíram para projetos de vida compartilhados e relações estáveis ao longo do tempo.⁷
O que os estudos mostram sobre os relacionamentos atuais
É importante considerar que a maior parte das pesquisas disponíveis foi realizada em países da Europa e da América do Norte. Embora os resultados ajudem a compreender tendências comportamentais amplas, eles não permitem afirmar que todos os usuários de aplicativos ou todos os relacionamentos contemporâneos seguem os mesmos padrões. Além disso, grande parte dos estudos avalia grupos específicos de usuários e comportamentos particulares, o que exige cautela na interpretação dos resultados.
Diante desse cenário, a pergunta pode ser outra. A literatura científica ainda está longe de decretar que os relacionamentos se tornaram superficiais. O que ela sugere é que o ambiente social mudou. As ferramentas para encontrar pessoas se multiplicaram, as interações ficaram mais rápidas e as expectativas em relação aos parceiros se tornaram mais complexas. Em muitos casos, espera-se que uma única relação ofereça apoio emocional, afinidade intelectual, atração física, compatibilidade de valores e projetos de vida compartilhados.
O ponto central parece ir além da tecnologia. Aplicativos podem aproximar pessoas que jamais se encontrariam de outra forma e abrir oportunidades para relações significativas. O desafio parece estar em algo mais humano: fazer com que um primeiro contato se desenvolva em uma relação capaz de atravessar o tempo, as diferenças e as inevitáveis frustrações da convivência.
A discussão vai além do comportamento digital. Estudos têm sugerido associação entre relações afetivas satisfatórias, bem-estar emocional, suporte social e sensação de pertencimento, fatores reconhecidos como importantes para a saúde mental e a qualidade de vida. Nesse contexto, compreender como os relacionamentos estão mudando ajuda também a entender transformações mais amplas na forma como as pessoas lidam com afeto, solidão e conexão humana.
Ainda há muitas perguntas em aberto sobre o impacto dessas transformações no comportamento, na saúde mental e na qualidade das relações. Algumas respostas ainda devem levar tempo para aparecer. Uma constatação, porém, permanece praticamente inalterada pelas últimas décadas. Intimidade, confiança e construção de afeto continuam exigindo tempo. Em um cenário marcado pela velocidade e pela abundância de escolhas, talvez esse seja justamente o aspecto dos relacionamentos que menos mudou.
¹ Rosenfeld MJ, Thomas RJ, Hausen S. Disintermediating your friends: How online dating in the United States displaces other ways of meeting. Proceedings of the National Academy of Sciences. 2019;116(36):17753-17758. Disponível em: https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1908630116
² Pronk TM, Denissen JJA. A Rejection Mind-Set: Choice Overload in Online Dating. Social Psychological and Personality Science. 2020;11(3):388-396. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1948550619866189
³ Sumter SR, Vandenbosch L, Ligtenberg L. Love me Tinder: Untangling emerging adults’ motivations for using the dating application Tinder. Telematics and Informatics. 2017;34(1):67-78. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.tele.2016.04.009
⁴ LeFebvre LE, Allen M, Rasner RD, Garstad S, Wilms A, Parrish C. Ghosting in Emerging Adults’ Romantic Relationships: The Digital Dissolution Disappearance Strategy. Imagination, Cognition and Personality. 2019;39(2):125-150. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0276236618820519
⁵ Koessler RB, Kohut T, Campbell L. When Your Boo Becomes a Ghost: The Association Between Breakup Strategy and Breakup Role in Experiences of Relationship Dissolution. Collabra: Psychology. 2019;5(1):29. DOI: 10.1525/collabra.230. Disponível em: https://online.ucpress.edu/collabra/article/5/1/29/113028/When-Your-Boo-Becomes-a-Ghost-The-Association
⁶ Degen JL, Kleeberg-Niepage A. Coping with mobile-online-dating fatigue and the negative self-fulfilling prophecy of digital dating. SN Social Sciences. 2025;5:12. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s43545-024-01042-0
⁷ Sharabi LL. The Enduring Effect of Internet Dating: Meeting Online and the Road to Marriage. Communication Research. 2024;51(3):259-284. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/00936502221127498