
Sim. Os meses mais frios do ano estão associados a um aumento da ocorrência de infartos e outros eventos cardiovasculares.¹⁻⁴ Entre os fatores que ajudam a explicar essa relação estão a contração dos vasos sanguíneos provocada pelas baixas temperaturas, alterações na pressão arterial, maior tendência à formação de coágulos e o aumento da circulação de vírus respiratórios.³⁻⁵
As doenças cardiovasculares, que incluem infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC), continuam sendo a principal causa de morte no mundo. Estima-se que sejam responsáveis por cerca de 17,9 milhões de mortes por ano, sendo que aproximadamente quatro em cada cinco desses óbitos decorrem de ataques cardíacos e derrames. Um terço ocorre prematuramente, antes dos 70 anos de idade.²
Durante o inverno, o organismo precisa realizar adaptações para preservar a temperatura corporal. O ar frio e seco pode provocar espasmos nos brônquios e dificultar a respiração, especialmente em pessoas com doenças respiratórias, como a asma.³
Ao mesmo tempo, fatores ambientais como temperaturas baixas, alterações na pressão atmosférica, baixa umidade e ventos intensos estimulam mecanismos neurológicos e hormonais que levam à contração dos vasos sanguíneos e ao aumento da viscosidade do sangue.³
Essa combinação favorece a ocorrência de eventos trombóticos. A trombose venosa profunda (TVP), por exemplo, apresenta maior incidência nesse período. Estudos mostram que uma redução de 10 milibares na pressão atmosférica pode estar associada a um aumento de 2,1% no risco relativo de TVP.⁴
Para indivíduos com doenças cardiovasculares pré-existentes, os efeitos podem ser ainda mais relevantes. A contração dos vasos sanguíneos eleva a pressão arterial e aumenta a carga de trabalho do coração, que precisa bombear mais sangue para manter a temperatura corporal adequada. Quando a proteção contra o frio é insuficiente, a perda excessiva de calor pode levar à hipotermia e comprometer o funcionamento cardíaco.³⁻⁴
Em pessoas com coração saudável e artérias sem obstruções, a exposição ao ar frio costuma gerar uma adaptação fisiológica eficiente. O aumento do fluxo sanguíneo ajuda a manter os órgãos vitais aquecidos. Já em pacientes com artérias coronárias comprometidas, a resposta pode ser diferente. A redução do fluxo sanguíneo nas coronárias pode limitar a irrigação do músculo cardíaco e aumentar o risco de lesões cardíacas.
Por que os infartos são mais frequentes no inverno
Existem diversos fatores que ajudam a explicar o aumento da incidência de infartos durante os meses frios.
Um deles é a ativação do sistema nervoso simpático, responsável pelas respostas do organismo diante de situações de estresse. A exposição ao frio aumenta a liberação de catecolaminas, como adrenalina, noradrenalina e dopamina, hormônios e neurotransmissores que elevam a pressão arterial e aumentam a demanda de trabalho do coração.⁴
Outro fator observado é a redução dos níveis de vitamina D durante o outono e o inverno. A deficiência dessa vitamina tem sido associada a um risco cardiovascular mais elevado.⁴
Aspectos comportamentais também desempenham papel importante. Durante o inverno, muitas pessoas tendem a consumir alimentos mais calóricos e reduzir a prática de atividades físicas. Esse padrão pode favorecer o aumento do colesterol, do peso corporal e de outros fatores de risco cardiovasculares.⁴
O organismo também passa a produzir maiores quantidades de substâncias relacionadas à coagulação sanguínea. Como consequência, o sangue pode se tornar mais propenso à formação de coágulos capazes de obstruir vasos sanguíneos e desencadear infartos ou AVCs.⁴
Outro elemento relevante é a poluição atmosférica. Em muitas regiões, a concentração de material particulado aumenta durante o inverno. A exposição a esses poluentes está associada ao desenvolvimento e à progressão da aterosclerose, processo caracterizado pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias.⁴
Como vírus respiratórios podem desencadear infartos e AVCs
Nos últimos anos, estudos têm demonstrado que infecções respiratórias podem atuar como gatilhos para eventos cardiovasculares, especialmente em pessoas que já apresentam fatores de risco ou doenças cardiovasculares estabelecidas.⁵
Uma meta-análise publicada na revista Cardiovascular Research avaliou mais de 11 mil estudos e identificou que a gripe e a Covid-19 estão entre os vírus mais frequentemente associados ao aumento do risco de infarto e AVC.⁵
A explicação mais provável está relacionada ao processo inflamatório desencadeado pela infecção. A inflamação pode favorecer a instabilidade das placas de gordura presentes nas artérias, aumentando a chance de formação de coágulos e obstruções vasculares. Quando isso ocorre, o fluxo sanguíneo para o coração ou para o cérebro pode ser interrompido, resultando em infarto ou AVC.⁵
Segundo a análise, a gripe aumenta em 5,4 vezes o risco de infarto e em 4,7 vezes o risco de AVC, especialmente nos primeiros dias e semanas após a infecção.⁵ A Covid-19 também apresenta associação semelhante, embora ainda sejam necessários mais dados para estimar com precisão a magnitude desse risco.⁵
Outros vírus respiratórios, como o vírus sincicial respiratório (VSR), enterovírus e citomegalovírus, também foram associados a eventos cardiovasculares, embora as evidências sejam menos consistentes.⁵
Como proteger o coração durante o inverno
Para pessoas que convivem com doenças cardiovasculares, manter-se adequadamente aquecido é uma medida simples e importante. Entretanto, a principal estratégia de prevenção continua sendo a adoção de hábitos saudáveis ao longo de todo o ano.
Entre os principais fatores de risco modificáveis para doenças cardiovasculares estão alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool.²⁻³ A exposição à poluição também deve ser considerada sempre que possível.
A vacinação merece destaque especial. Evidências científicas mostram que a imunização contra a gripe pode reduzir o risco de infarto e AVC, sobretudo entre pessoas que apresentam doenças cardíacas.⁵
Controlar adequadamente condições como hipertensão arterial, diabetes e colesterol elevado, manter acompanhamento médico regular e preservar um estilo de vida saudável são medidas fundamentais para proteger o coração em qualquer estação do ano, inclusive durante o inverno.
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- Brasil. Ministério da Saúde. Inverno aumenta risco de doenças respiratórias. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/27-5-inverno-aumenta-riscode-doencas-respiratorias. Acesso em 17 jun. 2026.
- World Health Organization (WHO). Cardiovascular diseases. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/cardiovascular-diseases#tab=tab_1. Acesso em 17 jun. 2026.
- Brown University Health Cardiovascular Institute. Chest Pain in Cold Weather vs. Winter Heart Attack. Disponível em: https://www.brownhealth.org/be-well/chest-pain-cold-weather-vs-winter-heart-attack. Acesso em 6 ago. 2025.
- Fares A. Winter cardiovascular diseases phenomenon. North American Journal of Medical Sciences. 2013 Apr;5(4):266-279.
- Nguyen TQ, Vlasenko D, Shetty AN, Zhao E, Reid CM, Clothier HJ, Buttery JP. Systematic review and meta-analysis of respiratory viral triggers for acute myocardial infarction and stroke. Cardiovascular Research. 2025 Aug 14;121(9):1330-1344.