Mounjaro além do emagrecimento: o que a ciência está descobrindo

Estudos apontam efeitos em diferentes órgãos, com resultados que vão de evidências consistentes a achados ainda iniciais

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Poucos medicamentos mudaram tão rapidamente a conversa sobre obesidade quanto a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. No Brasil, o uso é aprovado para controle da glicose em adultos com diabetes tipo 2 e também para controle crônico do peso em pessoas com obesidade ou sobrepeso associado a condições como hipertensão, dislipidemia ou apneia do sono.¹ Nos últimos anos, o interesse científico se expandiu. Pesquisadores passaram a investigar possíveis efeitos além do metabolismo, envolvendo fígado, sono, coração e outros sistemas.

Uma das principais questões em investigação é separar o que é efeito direto da medicação do que acontece como consequência da perda de peso.

Avanços no tratamento do fígado gorduroso

Uma das frentes mais estudadas envolve a esteato-hepatite associada à disfunção metabólica, uma forma inflamatória e mais grave do fígado gorduroso. Esse quadro ocorre quando o acúmulo de gordura no fígado passa a causar inflamação e lesão das células, podendo evoluir ao longo do tempo para fibrose, que é a formação de cicatrizes no tecido hepático.

Em estudo publicado em 2024 no New England Journal of Medicine, houve melhora da inflamação hepática sem piora dessas cicatrizes em 44% a 62% dos pacientes tratados com tirzepatida, contra cerca de 10% no grupo placebo.² Isso indica reversão parcial da doença em parte dos casos. Ainda não está claro, porém, se essa melhora reduz o risco de evolução para estágios mais avançados, como cirrose ou necessidade de transplante, desfechos que exigem acompanhamento por mais tempo.

Impacto na apneia do sono

A apneia obstrutiva do sono também entrou no campo de investigação. Estudos clínicos publicados em 2024 no New England Journal of Medicine, um dos principais periódicos médicos internacionais, mostraram redução do número de pausas respiratórias durante o sono.³ Esse dado é medido por um índice que contabiliza quantas vezes por hora a respiração diminui ou para completamente.

Na prática, a redução desse índice indica melhora da qualidade do sono e menor sobrecarga para o organismo, com impacto potencial em fadiga, pressão arterial e risco cardiovascular. Parte do benefício pode ser explicada pela perda de peso, já que a obesidade é um dos principais fatores de risco para apneia, mas ainda há investigação sobre possíveis efeitos adicionais da medicação.

Resultados em doenças cardiovasculares

Na área cardiovascular, estudo publicado em 2025 no New England Journal of Medicine avaliou pacientes com obesidade e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada.⁴ Trata-se de uma condição em que o coração consegue bombear o sangue, mas apresenta dificuldade de relaxar e se encher entre os batimentos, o que leva a sintomas como cansaço e falta de ar.

Os pacientes tratados apresentaram redução de cerca de 38% no risco combinado de morte por causas cardiovasculares ou piora do quadro de insuficiência cardíaca, como necessidade de internação. Esse resultado provavelmente reflete uma combinação de fatores, incluindo perda de peso, melhora do metabolismo e possível redução de inflamação sistêmica. O benefício foi observado nesse grupo específico de pacientes, com características bem definidas, e não pode ser automaticamente aplicado a outras doenças cardíacas.

O que os estudos sugerem sobre os rins

O interesse pelos rins surge da relação entre obesidade, diabetes e perda progressiva da função renal. Em estudo publicado em 2022 no The Lancet Diabetes & Endocrinology, pacientes tratados com tirzepatida apresentaram redução mais lenta dessa perda ao longo do tempo.⁵

Esse tipo de achado sugere um possível efeito de proteção renal. Na prática, isso pode significar atraso na progressão para estágios mais avançados de doença renal, que podem exigir diálise ou transplante. Ainda não está claro, porém, se esse benefício decorre de ação direta da medicação ou da melhora geral de fatores como glicemia, peso e pressão arterial.

Cérebro e comportamento ainda estão em fase inicial

No campo neurológico, as pesquisas ainda estão em estágio inicial. Um estudo experimental publicado em 2026 mostrou que animais tratados com tirzepatida reduziram o consumo excessivo de álcool e apresentaram menor comportamento de recaída, com alterações em áreas do cérebro ligadas à recompensa.⁶ Esses dados ajudam a entender possíveis mecanismos, mas não permitem aplicação direta em humanos.

Outra análise, publicada em 2025 no JAMA Network Open, periódico científico dos Estados Unidos, avaliou pacientes em uso de tirzepatida e também de semaglutida, medicamento da mesma classe indicado para diabetes e obesidade.⁷ Os pesquisadores observaram menor ocorrência de eventos como acidente vascular cerebral, conhecido como AVC, quando há interrupção do fluxo de sangue no cérebro, e de doenças neurodegenerativas, que são aquelas que levam à perda progressiva de funções cognitivas e motoras.

Esse tipo de estudo acompanha grandes grupos de pacientes ao longo do tempo, sem intervenção direta. Por isso, não é possível afirmar que o medicamento seja o responsável pelos resultados. Outros fatores, como melhora do controle da glicose, redução do peso e mudanças no estilo de vida, podem influenciar esses desfechos. Até o momento, não há evidência de que esses medicamentos previnam ou tratem doenças como Alzheimer ou Parkinson.

A ampliação das pesquisas mostra um cenário em rápida evolução. Parte dos resultados já aponta benefícios consistentes em áreas específicas, enquanto outros permanecem em fase inicial e dependem de confirmação. A distinção entre efeito direto da medicação e impacto da perda de peso continua sendo o principal desafio para interpretar esses achados e definir o papel da tirzepatida em diferentes áreas da saúde.

Referências

¹ Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mounjaro® (tirzepatida): nova indicação. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/mounjaro-r-tirzepatida-nova-indicacao

² Loomba R, Hartman ML, Lawitz EJ, et al. Tirzepatide for Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis with Liver Fibrosis. New England Journal of Medicine. 2024. DOI: 10.1056/NEJMoa2401943.

³ Malhotra A, Grunstein RR, Fietze I, et al. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity. New England Journal of Medicine. 2024. DOI: 10.1056/NEJMoa2404881.

⁴ Packer M, Zile MR, Kramer CM, et al. Tirzepatide for Heart Failure with Preserved Ejection Fraction and Obesity. New England Journal of Medicine. 2025. DOI: 10.1056/NEJMoa2410027.

⁵ Heerspink HJL, Sattar N, Pavo I, et al. Effects of Tirzepatide Versus Insulin Glargine on Kidney Outcomes in Type 2 Diabetes in the SURPASS-4 Trial. The Lancet Diabetes & Endocrinology. 2022. DOI: 10.1016/S2213-8587(22)00243-1.

⁶ Edvardsson CE, et al. Tirzepatide Reduces Alcohol Drinking and Relapse-like Drinking by Modulating the Mesolimbic Dopamine System in Rodents. eBioMedicine. 2026. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.105920.

⁷ Lin HT, et al. Neurodegeneration and Stroke After Semaglutide and Tirzepatide in Patients With Diabetes and Obesity. JAMA Network Open. 2025. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2025.20082.

Deborah Lima

Jornalista do Saúde a Sério

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