Vacina contra o HPV: de câncer a desmaios – só boatos

Estudos realizados ao longo de quase duas décadas mostram que o imunizante é seguro e ajuda a prevenir diversos tipos de câncer relacionados ao HPV

Tempo de Leitura: 5 minutos

Apesar de quase duas décadas de uso e milhões de pessoas vacinadas em todo o mundo, a vacina contra o papilomavírus humano (HPV) ainda é alvo de desinformação. Entre os boatos mais persistentes estão falsas alegações de que o imunizante poderia causar câncer, conter substâncias tóxicas ou provocar efeitos graves. As evidências científicas mostram justamente o contrário: a vacina é segura e já reduziu infecções, lesões precursoras e casos de câncer relacionados ao HPV em países com alta cobertura vacinal¹²³.

Boatos como esse se espalham porque exploram o medo. Vídeos, prints e relatos sem comprovação costumam ganhar mais atenção do que as evidências científicas. Depois de quase vinte anos de monitoramento em dezenas de países, nenhuma pesquisa encontrou relação entre a vacina contra o HPV e o aumento do risco de câncer¹².

Existem mais de 200 tipos de HPV, e cerca de 40 podem infectar a região genital, anal e a boca⁵. Na maioria das pessoas, o próprio organismo elimina o vírus. Quando a infecção persiste por vários anos, porém, aumenta o risco de alterações celulares que podem evoluir para câncer⁵.

Praticamente todos os casos de câncer do colo do útero estão associados ao HPV. O vírus também participa do desenvolvimento de parte dos cânceres de ânus, vagina, vulva, pênis e orofaringe⁵. No Brasil, o câncer do colo do útero é o terceiro mais frequente entre as mulheres, segundo as estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para 2026 a 2028⁹.

Até hoje, nenhuma evidência científica demonstrou que a vacina contra o HPV aumenta o risco de desenvolver câncer¹². O que os estudos mostram é justamente o contrário. Países que adotaram programas amplos de vacinação registraram queda nas infecções pelo HPV, nas lesões que podem evoluir para câncer e, mais recentemente, na incidência de tumores relacionados ao vírus³⁴.

Na Inglaterra, um estudo publicado na revista The Lancet encontrou redução de até 87% nos casos de câncer do colo do útero entre mulheres vacinadas entre 12 e 13 anos³. Outros estudos internacionais também mostram redução das infecções pelos principais tipos do HPV, das verrugas genitais e das lesões precursoras do câncer⁴.

Por que alguns adolescentes desmaiam após a vacina

Um dos receios mais comuns entre pais e adolescentes é o desmaio logo após a aplicação da vacina. A explicação é conhecida e não tem relação com os componentes do imunizante.

Trata-se de uma reação vasovagal, o mesmo tipo de resposta que pode ocorrer durante uma coleta de sangue, um piercing ou simplesmente ao ver uma agulha. A pressão arterial cai de forma passageira, provocando tontura e, em alguns casos, perda rápida da consciência. Esse fenômeno é mais frequente entre adolescentes e também acontece com outras vacinas do calendário.

Por esse motivo, a recomendação é permanecer sentado por cerca de 15 minutos após a vacinação. Os sistemas de farmacovigilância acompanham esse tipo de evento desde que a vacina foi introduzida e mostram que se trata de uma reação conhecida, transitória e sem relação com o desenvolvimento de câncer¹².

De onde surgiu esse boato

Grande parte da desinformação sobre vacinas nasce da confusão entre coincidência e causa. Quando alguém desenvolve um problema de saúde após receber uma vacina, isso não significa que uma coisa provocou a outra.

É justamente para investigar essas situações que existem os sistemas de farmacovigilância, no Brasil e em outros países. Eles registram e analisam todos os eventos de saúde relatados após a vacinação para verificar se existe relação de causa e efeito. Desde 2006, quando a vacina contra o HPV começou a ser monitorada, nenhuma associação entre o imunizante e o câncer foi demonstrada¹².

Quem deve se vacinar

Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina é oferecida gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos, em dose única⁶⁷. Jovens de 15 a 19 anos que ainda não foram vacinados também podem receber a dose durante a estratégia de resgate vacinal, válida até 31 de dezembro de 2026⁷. Pessoas imunocomprometidas, vítimas de violência sexual, com papilomatose respiratória recorrente ou em uso de PrEP seguem esquemas específicos⁶.

A vacinação antes do início da vida sexual oferece a maior proteção, pois evita o primeiro contato com o vírus¹⁶.

Mesmo com a vacina disponível gratuitamente, o Brasil ainda não atingiu a cobertura de 90% recomendada pela Organização Mundial da Saúde para eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública. Em 2025, a cobertura foi de 86,22% entre meninas e 74,55% entre meninos¹⁰.

Na rede privada, a Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda, preferencialmente, a vacina HPV9, que protege contra nove tipos do vírus. Adultos que nunca foram vacinados podem receber três doses, conforme avaliação médica⁸.

A vacina protege contra os principais tipos de HPV relacionados ao câncer, mas não substitui o exame preventivo. Mulheres vacinadas devem manter o rastreamento do câncer do colo do útero conforme orientação médica⁵.

Depois de quase vinte anos de monitoramento e milhões de pessoas vacinadas em todo o mundo, a vacina contra o HPV permanece como uma das principais estratégias para prevenir cânceres relacionados a um vírus. As evidências acumuladas mostram um perfil consistente de segurança e benefícios que superam amplamente os riscos conhecidos.

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Você pediu os links. Aqui estão os links corretos das fontes primárias que sustentam a matéria.

  1. OMS – Human papillomavirus (HPV) and cancer
    https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/human-papilloma-virus-and-cancer
  2. OMS – Global Advisory Committee on Vaccine Safety (GACVS): Safety of HPV vaccines
    https://www.who.int/groups/global-advisory-committee-on-vaccine-safety/topics/human-papillomavirus-vaccines/safety
  3. Falcaro M, et al. The Lancet (2021)The effects of the national HPV vaccination programme in England on cervical cancer and grade 3 cervical intraepithelial neoplasia incidence
    https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)02178-4
  4. Drolet M, et al. The Lancet (2019)Population-level impact and herd effects following the introduction of HPV vaccination programmes
    https://doi.org/10.1016/S0140-6736(19)30298-3
  5. IARC/WHO – Human papillomavirus and cancer
    https://www.iarc.who.int/news-events/human-papillomavirus-hpv-and-cancer/
  6. Ministério da Saúde – Calendário Nacional de Vacinação
    https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/calendario
  7. Ministério da Saúde – Estratégia de resgate da vacinação contra o HPV (15 a 19 anos)
    https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/07/ministerio-da-saude-amplia-vacinacao-contra-o-hpv-para-adolescentes-de-15-a-19-anos
  8. SBIm – Calendários de Vacinação
    https://sbim.org.br/calendarios-de-vacinacao
  9. INCA – Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil
    https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa
  10. Painel de Coberturas Vacinais (PNI)
    https://imunizacao.saude.gov.br/painel-vacinacao

Equipe Saúde a Sério

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