
Apesar de quase duas décadas de uso e milhões de pessoas vacinadas em todo o mundo, a vacina contra o papilomavírus humano (HPV) ainda é alvo de desinformação. Entre os boatos mais persistentes estão falsas alegações de que o imunizante poderia causar câncer, conter substâncias tóxicas ou provocar efeitos graves. As evidências científicas mostram justamente o contrário: a vacina é segura e já reduziu infecções, lesões precursoras e casos de câncer relacionados ao HPV em países com alta cobertura vacinal¹²³.
Boatos como esse se espalham porque exploram o medo. Vídeos, prints e relatos sem comprovação costumam ganhar mais atenção do que as evidências científicas. Depois de quase vinte anos de monitoramento em dezenas de países, nenhuma pesquisa encontrou relação entre a vacina contra o HPV e o aumento do risco de câncer¹².
Existem mais de 200 tipos de HPV, e cerca de 40 podem infectar a região genital, anal e a boca⁵. Na maioria das pessoas, o próprio organismo elimina o vírus. Quando a infecção persiste por vários anos, porém, aumenta o risco de alterações celulares que podem evoluir para câncer⁵.
Praticamente todos os casos de câncer do colo do útero estão associados ao HPV. O vírus também participa do desenvolvimento de parte dos cânceres de ânus, vagina, vulva, pênis e orofaringe⁵. No Brasil, o câncer do colo do útero é o terceiro mais frequente entre as mulheres, segundo as estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para 2026 a 2028⁹.
Até hoje, nenhuma evidência científica demonstrou que a vacina contra o HPV aumenta o risco de desenvolver câncer¹². O que os estudos mostram é justamente o contrário. Países que adotaram programas amplos de vacinação registraram queda nas infecções pelo HPV, nas lesões que podem evoluir para câncer e, mais recentemente, na incidência de tumores relacionados ao vírus³⁴.
Na Inglaterra, um estudo publicado na revista The Lancet encontrou redução de até 87% nos casos de câncer do colo do útero entre mulheres vacinadas entre 12 e 13 anos³. Outros estudos internacionais também mostram redução das infecções pelos principais tipos do HPV, das verrugas genitais e das lesões precursoras do câncer⁴.
Por que alguns adolescentes desmaiam após a vacina
Um dos receios mais comuns entre pais e adolescentes é o desmaio logo após a aplicação da vacina. A explicação é conhecida e não tem relação com os componentes do imunizante.
Trata-se de uma reação vasovagal, o mesmo tipo de resposta que pode ocorrer durante uma coleta de sangue, um piercing ou simplesmente ao ver uma agulha. A pressão arterial cai de forma passageira, provocando tontura e, em alguns casos, perda rápida da consciência. Esse fenômeno é mais frequente entre adolescentes e também acontece com outras vacinas do calendário.
Por esse motivo, a recomendação é permanecer sentado por cerca de 15 minutos após a vacinação. Os sistemas de farmacovigilância acompanham esse tipo de evento desde que a vacina foi introduzida e mostram que se trata de uma reação conhecida, transitória e sem relação com o desenvolvimento de câncer¹².
De onde surgiu esse boato
Grande parte da desinformação sobre vacinas nasce da confusão entre coincidência e causa. Quando alguém desenvolve um problema de saúde após receber uma vacina, isso não significa que uma coisa provocou a outra.
É justamente para investigar essas situações que existem os sistemas de farmacovigilância, no Brasil e em outros países. Eles registram e analisam todos os eventos de saúde relatados após a vacinação para verificar se existe relação de causa e efeito. Desde 2006, quando a vacina contra o HPV começou a ser monitorada, nenhuma associação entre o imunizante e o câncer foi demonstrada¹².
Quem deve se vacinar
Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina é oferecida gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos, em dose única⁶⁷. Jovens de 15 a 19 anos que ainda não foram vacinados também podem receber a dose durante a estratégia de resgate vacinal, válida até 31 de dezembro de 2026⁷. Pessoas imunocomprometidas, vítimas de violência sexual, com papilomatose respiratória recorrente ou em uso de PrEP seguem esquemas específicos⁶.
A vacinação antes do início da vida sexual oferece a maior proteção, pois evita o primeiro contato com o vírus¹⁶.
Mesmo com a vacina disponível gratuitamente, o Brasil ainda não atingiu a cobertura de 90% recomendada pela Organização Mundial da Saúde para eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública. Em 2025, a cobertura foi de 86,22% entre meninas e 74,55% entre meninos¹⁰.
Na rede privada, a Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda, preferencialmente, a vacina HPV9, que protege contra nove tipos do vírus. Adultos que nunca foram vacinados podem receber três doses, conforme avaliação médica⁸.
A vacina protege contra os principais tipos de HPV relacionados ao câncer, mas não substitui o exame preventivo. Mulheres vacinadas devem manter o rastreamento do câncer do colo do útero conforme orientação médica⁵.
Depois de quase vinte anos de monitoramento e milhões de pessoas vacinadas em todo o mundo, a vacina contra o HPV permanece como uma das principais estratégias para prevenir cânceres relacionados a um vírus. As evidências acumuladas mostram um perfil consistente de segurança e benefícios que superam amplamente os riscos conhecidos.
alimentação saudável Anvisa atividade física AVC bem-estar cardiologia Ciência e Saúde Câncer de Mama demência dengue desinformação em saúde diabetes tipo 2 diagnóstico precoce doença de Alzheimer doenças cardiovasculares doenças infecciosas envelhecimento saudável FEBRASGO ginecologia imunização Infarto medicina baseada em evidências menopausa Ministério da Saúde obesidade OMS pediatria prevenção cardiovascular Prevenção em saúde Qualidade de Vida Reposição Hormonal Saúde a Sério saúde da mulher saúde da pele saúde do coração saúde infantil Saúde masculina saúde materna saúde mental saúde metabólica saúde pública Terapia Hormonal trombose venosa profunda vacinação infantil vigilância epidemiológica
Você pediu os links. Aqui estão os links corretos das fontes primárias que sustentam a matéria.
- OMS – Human papillomavirus (HPV) and cancer
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/human-papilloma-virus-and-cancer - OMS – Global Advisory Committee on Vaccine Safety (GACVS): Safety of HPV vaccines
https://www.who.int/groups/global-advisory-committee-on-vaccine-safety/topics/human-papillomavirus-vaccines/safety - Falcaro M, et al. The Lancet (2021) – The effects of the national HPV vaccination programme in England on cervical cancer and grade 3 cervical intraepithelial neoplasia incidence
https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)02178-4 - Drolet M, et al. The Lancet (2019) – Population-level impact and herd effects following the introduction of HPV vaccination programmes
https://doi.org/10.1016/S0140-6736(19)30298-3 - IARC/WHO – Human papillomavirus and cancer
https://www.iarc.who.int/news-events/human-papillomavirus-hpv-and-cancer/ - Ministério da Saúde – Calendário Nacional de Vacinação
https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/calendario - Ministério da Saúde – Estratégia de resgate da vacinação contra o HPV (15 a 19 anos)
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/07/ministerio-da-saude-amplia-vacinacao-contra-o-hpv-para-adolescentes-de-15-a-19-anos - SBIm – Calendários de Vacinação
https://sbim.org.br/calendarios-de-vacinacao - INCA – Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa - Painel de Coberturas Vacinais (PNI)
https://imunizacao.saude.gov.br/painel-vacinacao
- 1. World Health Organization (WHO). Human papillomavirus (HPV) and cervical cancer. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/human-papillomavirus-(hpv)-and-cervical-cancer. Acesso em: 27 jul. 2026.
- 2. World Health Organization (WHO). Global Advisory Committee on Vaccine Safety (GACVS): Human papillomavirus vaccines (HPV): safety. Disponível em: https://www.who.int/groups/global-advisory-committee-on-vaccine-safety/topics/human-papillomavirus-vaccines. Acesso em: 27 jul. 2026.
- 3. FALCARO, M.; CASTAÑON, A.; NDLELA, B.; et al. The effects of the national HPV vaccination programme in England, UK, on cervical cancer and grade 3 cervical intraepithelial neoplasia incidence: a register-based observational study. The Lancet, v. 398, n. 10316, p. 2084-2092, 2021. DOI: 10.1016/S0140-6736(21)02178-4. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)02178-4. Acesso em: 27 jul. 2026.
- 4. DROLET, M.; BÉNARD, É.; PÉREZ, N.; et al. Population-level impact and herd effects following the introduction of human papillomavirus vaccination programmes: updated systematic review and meta-analysis. The Lancet, v. 394, n. 10197, p. 497-509, 2019. DOI: 10.1016/S0140-6736(19)30298-3. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(19)30298-3. Acesso em: 27 jul. 2026.
- 5. International Agency for Research on Cancer (IARC). Human papillomavirus (HPV). Disponível em: https://www.iarc.who.int/cancer-type/human-papillomavirus-hpv/. Acesso em: 27 jul. 2026.
- 6. BRASIL. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/calendario. Acesso em: 27 jul. 2026.
- 7. BRASIL. Ministério da Saúde. Estratégia de resgate da vacinação contra o HPV para adolescentes e jovens. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202512/ministerio-da-saude-resgate-vacinal-hpv-jovens-15-a-19-anos-ate-2026. Acesso em: 27 jul. 2026.
- 8. Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Calendários de vacinação. Disponível em: https://sbim.org.br/calendarios-de-vacinacao. Acesso em: 27 jul. 2026.
- 9. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa. Acesso em: 27 jul. 2026.
- 10. BRASIL. Ministério da Saúde. Painel de Coberturas Vacinais. Disponível em: https://imunizacao.saude.gov.br/painel-vacinacao. Acesso em: 27 jul. 2026.