
Quando se fala em sarampo, a imagem costuma ser bastante conhecida: febre alta e manchas vermelhas que começam no rosto e avançam pelo corpo. Algumas consequências da infecção, porém, são bem menos visíveis. A pneumonia, por exemplo, é a causa mais comum de morte por sarampo em crianças pequenas. Há ainda uma complicação neurológica rara e grave que pode aparecer anos depois da recuperação da fase aguda.¹
Os efeitos da doença podem ir bem além da pele. O sarampo é uma infecção sistêmica, ou seja, o vírus pode atingir diferentes partes do organismo. Depois de entrar no corpo, ele se multiplica e se dissemina. Pode afetar pulmões, ouvidos, sistema digestivo, sistema imunológico e até o cérebro.²
Principais complicações do sarampo
Otite, uma inflamação ou infecção do ouvido, e diarreia estão entre as complicações conhecidas. A pneumonia pode agravar o quadro, principalmente em crianças pequenas. Nesse grupo, é a causa mais comum de morte associada ao sarampo.¹
Há também o risco de encefalite, uma inflamação do cérebro. Embora rara, essa complicação pode provocar convulsões e deixar sequelas neurológicas.²
A idade e as condições de saúde fazem diferença. Segundo o CDC, as complicações são mais frequentes em crianças menores de cinco anos e adultos com mais de 20 anos. Gestantes e pessoas com o sistema imunológico enfraquecido também são mais vulneráveis.¹ Entre crianças com desnutrição, especialmente quando há deficiência de vitamina A, o risco de desenvolver formas graves da doença é maior.²
Na gravidez, a infecção exige atenção adicional. Um estudo publicado na revista científica Obstetrics & Gynecology analisou 58 casos de sarampo durante a gestação e encontrou complicações maternas e desfechos desfavoráveis, entre eles perdas gestacionais e partos prematuros.³
Amnésia imunológica: o efeito do sarampo sobre as defesas do corpo
Um dos efeitos menos conhecidos do sarampo ocorre justamente no sistema que nos protege de outras infecções.
Ao longo da vida, o organismo constrói uma espécie de arquivo de defesa. Depois do contato com vírus e bactérias, ou da vacinação, determinadas células e anticorpos guardam informações que ajudam o corpo a reagir com mais rapidez quando encontra esses agentes novamente. O sarampo pode apagar parte desse arquivo.
Em um estudo publicado na revista Science, pesquisadores acompanharam 77 crianças não vacinadas antes e depois de terem sarampo. Após a infecção, elas perderam entre 11% e 73% do repertório de anticorpos que possuíam anteriormente.⁴
Esse fenômeno tem nome: amnésia imunológica. Significa que o sistema imunológico perde parte da memória adquirida contra outras infecções.
Outro trabalho, publicado na Science Immunology, encontrou alterações nas células responsáveis por preservar parte dessa memória. Os resultados ajudam a entender por que os efeitos do sarampo sobre as defesas do organismo podem continuar mesmo depois que febre, manchas e outros sintomas já desapareceram.⁵
A complicação neurológica do sarampo que pode surgir anos depois
A panencefalite esclerosante subaguda é uma complicação tardia rara e muito grave. Trata-se de uma doença progressiva do cérebro associada à persistência do vírus do sarampo no sistema nervoso após a infecção inicial.⁶
Os primeiros sinais podem incluir mudanças de comportamento, dificuldades cognitivas e queda no desempenho escolar. Conforme a doença avança, podem surgir movimentos involuntários, convulsões e perda progressiva de funções neurológicas.⁶
Uma análise publicada no Clinical Infectious Diseases avaliou casos identificados na Califórnia entre 1998 e 2015. Entre os pacientes para os quais foi possível determinar quando o sarampo havia ocorrido, todos tinham adquirido a infecção antes dos 15 meses de idade. Nessa população, os pesquisadores também encontraram risco particularmente elevado entre crianças que tiveram sarampo ainda no primeiro ano de vida.⁶
O longo intervalo entre as duas doenças ajuda a explicar por que essa complicação é pouco conhecida. Uma criança pode ter sarampo, recuperar-se da fase aguda e passar anos sem manifestações relacionadas à infecção. Só depois pode surgir o problema neurológico.⁶
Vacinação contra o sarampo continua sendo a principal proteção
Não existe um medicamento antiviral específico contra o sarampo. O tratamento busca controlar os sintomas, manter a hidratação e cuidar das complicações quando elas surgem. Para casos suspeitos em crianças menores de cinco anos, a Organização Mundial da Saúde recomenda duas doses de vitamina A: a primeira imediatamente no diagnóstico e a segunda no dia seguinte, em dosagem adequada à idade e sob orientação profissional.²
A principal forma de prevenção continua sendo a vacinação. Segundo a Organização Mundial da Saúde, duas doses da vacina oferecem cerca de 97% de proteção contra o sarampo.⁷
Pulmões, cérebro e sistema imunológico podem ser afetados, algumas vezes com consequências que ultrapassam a fase aguda da doença. Uma complicação neurológica, embora rara, pode aparecer anos depois. A vacinação reduz o risco de sarampo e, consequentemente, das complicações associadas à doença.
¹ Centers for Disease Control and Prevention. Measles Symptoms and Complications. Atualizado em 29 de abril de 2026.
https://www.cdc.gov/measles/signs-symptoms/index.html
² World Health Organization. Measles. Fact sheet. Atualizado em 15 de julho de 2026.
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/measles
³ Eberhart-Phillips JE, Frederick PD, Baron RC, Mascola L. Measles in pregnancy: a descriptive study of 58 cases. Obstetrics & Gynecology. 1993;82(5):797-801.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8414327/
⁴ Mina MJ, Kula T, Leng Y, et al. Measles virus infection diminishes preexisting antibodies that offer protection from other pathogens. Science. 2019;366(6465):599-606. DOI: 10.1126/science.aay6485.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31672891/
⁵ Petrova VN, Sawatsky B, Han AX, et al. Incomplete genetic reconstitution of B cell pools contributes to prolonged immunosuppression after measles. Science Immunology. 2019;4(41):eaay6125. DOI: 10.1126/sciimmunol.aay6125.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31672862/
⁶ Wendorf KA, Winter K, Zipprich J, et al. Subacute Sclerosing Panencephalitis: The Devastating Measles Complication That Might Be More Common Than Previously Estimated. Clinical Infectious Diseases. 2017;65(2):226-232. DOI: 10.1093/cid/cix302.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28387784/
⁷ World Health Organization. What you need to know about measles. Questions and answers. 13 de agosto de 2024.
https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/what-you-need-to-know-about-measles