
O infarto nem sempre chega com o sinal que todo mundo espera. Nas mulheres, a dor no peito continua sendo o sintoma mais frequente, mas pode vir acompanhada de náusea, falta de ar, palpitações, cansaço incomum e dor nas costas, no pescoço ou na mandíbula.¹˒²˒³ Quando vários desses sinais aparecem ao mesmo tempo, nem sempre é fácil perceber de imediato que o problema pode ser cardíaco.
Em 2019, uma pesquisa realizada na Escócia mostrou que a dor no peito estava presente em cerca de 93% das mulheres e dos homens com infarto espontâneo do tipo 1.¹ Entre as pessoas avaliadas por suspeita de síndrome coronariana aguda, porém, as mulheres relataram com mais frequência náusea, palpitações e dor irradiada para as costas, o pescoço ou a mandíbula.¹ Dados publicados em 2020 nos Estados Unidos, entre pessoas que tiveram infarto aos 50 anos ou menos, apontaram mais falta de ar e fadiga entre elas.³ Em parte dos casos, o infarto pode ocorrer sem dor torácica.³
A Sociedade Europeia de Cardiologia recomenda, em sua diretriz de 2023, evitar a expressão sintomas atípicos. O documento reconhece que sinais além da dor no peito também podem fazer parte de uma síndrome coronariana aguda, nome dado aos quadros em que o músculo cardíaco passa a receber menos sangue de forma súbita.²
Por que o diagnóstico pode demorar
Parte da demora acontece antes mesmo da chegada ao hospital. Em uma pesquisa com pacientes de 18 a 55 anos dos Estados Unidos e da Espanha, cerca de 45% das mulheres chegaram ao atendimento mais de seis horas após o início dos sintomas, ante 36% dos homens.⁴
O dado chama atenção também para as mulheres jovens, faixa em que a percepção do risco cardíaco pode ser menor e os sintomas podem acabar atribuídos a outras causas.⁴˒⁵
Essa dificuldade aparece ainda na avaliação inicial. Os profissionais suspeitaram de causa cardíaca com menos frequência nas mulheres.⁴ Em outra análise, cerca de 21% delas atribuíram inicialmente os sintomas a estresse ou ansiedade, contra 12% dos homens.⁵
A diretriz norte-americana de 2025 reconhece que mulheres com síndrome coronariana aguda têm menor probabilidade de receber inicialmente o diagnóstico correto e que esse atraso pode postergar o tratamento.⁶
Um primeiro exame normal pode não excluir o infarto
A investigação leva em conta os sintomas, o histórico clínico, o eletrocardiograma e a troponina. O eletrocardiograma deve ser feito em até dez minutos do primeiro contato médico diante da suspeita e pode precisar ser repetido caso o resultado inicial não esclareça o quadro.⁶
A troponina é uma proteína liberada no sangue quando há lesão do músculo cardíaco. Com testes de alta sensibilidade, uma nova dosagem pode ser feita uma a duas horas após a primeira coleta se o resultado inicial não for conclusivo.⁶ Um exame isolado funciona como uma fotografia daquele momento.
Em 2026, a quinta definição universal de infarto passou a usar limites de referência da troponina específicos por sexo para definir lesão do músculo cardíaco.⁷ Uma pesquisa anterior já havia mostrado que o uso de troponina de alta sensibilidade com limites específicos para mulheres e homens aumentava a identificação de lesão em 42% entre elas e 6% entre eles. A estratégia, porém, não reduziu reinfarto ou morte cardiovascular em um ano.⁸
A investigação pode ficar mais complexa porque nem todos os casos envolvem uma artéria importante bloqueada. Nas mulheres, podem ocorrer alterações nos pequenos vasos do coração, espasmos das artérias coronárias, separação das camadas da parede de uma dessas artérias ou infarto sem obstrução importante nas coronárias.⁹
Fatores de risco cardiovascular nas mulheres
Hipertensão, diabetes, alterações do colesterol, tabagismo, excesso de peso e sedentarismo aumentam o risco cardiovascular.¹⁰ Nas mulheres, fases da vida e condições ligadas à saúde reprodutiva também entram nessa avaliação.
Perto da menopausa, colesterol total e LDL podem aumentar de forma mais acentuada.¹¹ A pré-eclâmpsia e outros quadros de pressão alta durante a gravidez estão associados a maior risco de doença isquêmica do coração nas décadas seguintes.¹² Mulheres com síndrome dos ovários policísticos também apresentaram maior incidência de eventos cardiovasculares e infarto.¹³
Quando procurar atendimento
Pressão, aperto, peso, queimação ou desconforto no peito merecem atenção quando surgem de forma nova, persistente ou intensa. Falta de ar, suor, vômito, tontura, palpitações, cansaço incomum ou dor que se espalha para braços, costas, pescoço ou mandíbula também podem indicar um problema cardíaco.¹˒²˒³
A Sociedade Europeia de Cardiologia considera dor torácica por mais de 15 minutos ou episódios recorrentes dentro de uma hora sinais de alerta para atendimento urgente.² No Brasil, diante de suspeita de infarto, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência pode ser acionado pelo número 192.¹⁴
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https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8372630/ - ¹⁴ Ministério da Saúde. SAMU 192. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.
https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/samu-192