
Um caroço no pescoço que não desaparece. Suores intensos durante a noite, cansaço persistente ou uma perda de peso sem explicação. São sintomas relativamente comuns, muitas vezes associados a problemas menos graves. Mas também podem ser os primeiros sinais de um linfoma não Hodgkin, grupo de cânceres que afetam células do sistema imunológico.¹
Sim, o linfoma não Hodgkin pode ter cura. A possibilidade depende principalmente do subtipo, da extensão da doença e da resposta ao tratamento. Alguns linfomas crescem rapidamente, mas apresentam boas chances de cura. Outros evoluem devagar, podem permanecer controlados durante muitos anos e têm maior tendência a retornar após períodos de remissão.²
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 12.560 novos casos de linfoma não Hodgkin por ano entre 2026 e 2028. Essa estimativa reúne diferentes subtipos da doença, cuja identificação depende da avaliação das características das células tumorais.¹ ²
O linfoma não Hodgkin se desenvolve nos linfócitos, células do sistema imunológico que participam do reconhecimento e do combate a agentes infecciosos. Elas circulam pelo sangue e pelo sistema linfático, uma rede de vasos, linfonodos e órgãos distribuídos pelo corpo. Quando sofrem alterações e passam a se multiplicar de maneira descontrolada, podem dar origem ao câncer.¹
A doença costuma atingir os linfonodos, popularmente conhecidos como gânglios ou ínguas, mas também pode surgir em órgãos como estômago, intestino e baço. O local afetado e as características das células tumorais influenciam os sintomas, a evolução e as possibilidades de tratamento.²
Quais são os sintomas do linfoma não Hodgkin?
O aumento dos linfonodos costuma ser um dos primeiros sinais. Geralmente, são caroços indolores percebidos no pescoço, nas axilas ou na virilha. Como também podem aumentar durante infecções, sua presença isolada não permite distinguir uma condição benigna de um câncer.
Outros sintomas incluem febre sem causa aparente, suor noturno intenso, perda involuntária de peso, coceira na pele e fadiga persistente. Quando há comprometimento da região do tórax, podem surgir tosse e falta de ar. Se a doença afeta o abdômen, são possíveis desconforto, aumento do volume abdominal e alterações digestivas.¹ ²
Na avaliação dos linfomas, três manifestações recebem uma classificação específica: febre inexplicada, sudorese noturna intensa e perda involuntária superior a 10% do peso corporal em seis meses. São os chamados sintomas B, que podem ocorrer isoladamente ou em combinação e ajudam a caracterizar o quadro clínico.²
Nenhum desses sintomas confirma o diagnóstico. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) recomenda investigar manifestações suspeitas, principalmente quando não melhoram em poucos dias, e informa que o diagnóstico precoce pode proporcionar melhores resultados no tratamento.¹
Diante de um caroço persistente ou de sintomas sem explicação, é importante procurar atendimento médico. Um clínico geral pode realizar a primeira avaliação e, quando necessário, encaminhar o paciente a um hematologista, especialista em doenças do sangue e do sistema linfático.
A confirmação do linfoma geralmente exige uma biópsia, procedimento que permite retirar e analisar uma amostra do tecido comprometido. Exames laboratoriais e de imagem ajudam a avaliar a extensão da doença. A análise das células é indispensável para identificar o subtipo e orientar a escolha terapêutica.²
Por que o tipo de linfoma muda as chances de cura?
Os linfomas não Hodgkin são classificados, de maneira simplificada, em indolentes e agressivos. Essa diferença está relacionada ao comportamento biológico das células tumorais, incluindo sua velocidade de multiplicação. Os indolentes costumam crescer lentamente. Os agressivos avançam mais rápido e, em geral, exigem tratamento imediato.² ³
O linfoma difuso de grandes células B é um exemplo de subtipo agressivo. Apesar da velocidade de crescimento, pode ser curado em muitos pacientes com tratamentos que combinam quimioterapia e imunoterapia. Já o linfoma folicular costuma ter evolução mais lenta, e a maioria dos pacientes recebe o diagnóstico quando a doença já está disseminada. Nesse cenário, os tratamentos disponíveis podem mantê-la controlada durante anos, mas geralmente não alcançam a cura. Nos estágios iniciais, quando o linfoma está localizado, o tratamento pode ter intenção curativa, inclusive com radioterapia.³ ⁴
Os dados ajudam a dimensionar essas diferenças. Segundo o programa Surveillance, Epidemiology, and End Results (SEER), do National Cancer Institute, a sobrevida relativa em cinco anos foi de 64,8% para o linfoma difuso de grandes células B e de 88,9% para o linfoma folicular, considerando pacientes diagnosticados nos Estados Unidos entre 2016 e 2022.⁵ ⁶
A sobrevida relativa compara a sobrevivência dos pacientes com a esperada entre pessoas da população geral com características semelhantes de idade, sexo e outros fatores demográficos. O indicador considera cinco anos após o diagnóstico e procura descontar o efeito de outras causas de morte. Esses números representam a realidade de uma população estudada nos Estados Unidos e não devem ser interpretados como estimativas brasileiras. Também não correspondem a taxas de cura.⁵ ⁶
No linfoma difuso de grandes células B, por exemplo, a sobrevida relativa em cinco anos foi de 79,9% entre os pacientes diagnosticados no estágio I, quando a doença estava restrita a uma região. Entre os diagnosticados antes dos 55 anos, chegou a 80,3%. Os recortes mostram como idade e extensão da doença podem modificar as perspectivas de recuperação.⁵
Há ainda uma diferença importante entre sobreviver por determinado período e alcançar a cura. No linfoma folicular, a sobrevida relativamente elevada convive com a possibilidade de recidivas ao longo dos anos. No linfoma difuso de grandes células B, a eliminação duradoura do câncer é um objetivo possível do tratamento. Segundo o NCI, a maioria dos pacientes com doença localizada pode ser curada com quimioterapia combinada, com ou sem radioterapia. Entre aqueles com doença avançada, aproximadamente metade alcança a cura com os esquemas de quimioterapia e imunoterapia descritos pelo instituto. Esses resultados não se aplicam indistintamente a todos os perfis de pacientes.³ ⁴
Além do subtipo, o prognóstico depende do estadiamento, que identifica as regiões comprometidas, das condições clínicas, das características biológicas do tumor e da resposta ao tratamento. Por isso, estatísticas populacionais ajudam a compreender a doença, mas não permitem prever exatamente a evolução individual.² ⁵ ⁶
Como é feito o tratamento?
A quimioterapia permanece entre as principais estratégias terapêuticas e pode ser combinada à imunoterapia, dependendo do subtipo. Também existem indicações para radioterapia e medicamentos direcionados a características específicas das células cancerígenas. A escolha considera o diagnóstico, a extensão da doença, as condições clínicas e os benefícios e riscos de cada opção.¹ ²
Entre os avanços estão os anticorpos monoclonais, medicamentos capazes de reconhecer proteínas presentes na superfície de determinadas células tumorais e facilitar a ação do sistema imunológico. Outras terapias atuam sobre mecanismos envolvidos no crescimento do câncer. Nem todos os pacientes, porém, são candidatos aos mesmos tratamentos, que também podem provocar efeitos adversos.³ ⁴
Nos linfomas indolentes, tratar imediatamente nem sempre é a melhor decisão. Em determinados casos sem sintomas ou outras alterações que justifiquem intervenção, a equipe médica pode recomendar observação ativa. O paciente continua realizando consultas e exames regulares, enquanto se acompanha o comportamento da doença. Três ensaios clínicos randomizados analisados pelo National Cancer Institute não encontraram diferença de sobrevida entre a observação inicial e a quimioterapia imediata em grupos selecionados de pacientes.³
Quando o linfoma reaparece ou não responde adequadamente à primeira terapia, a conduta precisa ser reavaliada. Dependendo do subtipo, dos tratamentos anteriores e do estado de saúde do paciente, podem existir outras alternativas, incluindo medicamentos específicos, terapias celulares e, em determinadas situações, transplante de células-tronco.³ ⁴
Remissão, recidiva e cura são a mesma coisa?
Remissão é a redução ou o desaparecimento dos sinais da doença após o tratamento. Quando a remissão é completa, os exames utilizados na avaliação deixam de identificar evidências detectáveis do câncer.³ ⁴
Isso representa uma resposta favorável, mas não garante que a doença jamais retornará. Quando o linfoma reaparece após um período de remissão, ocorre uma recidiva. O risco varia conforme o subtipo, as características do tumor e os tratamentos realizados.³ ⁴
A cura significa que não se espera mais o retorno da doença, embora não exista um exame capaz de garantir, isoladamente, que isso jamais acontecerá. Nos linfomas agressivos, a maioria das recidivas ocorre nos dois primeiros anos após o tratamento. No linfoma difuso de grandes células B, pacientes que permanecem dois anos sem eventos relacionados à doença, como progressão ou recidiva, passam a apresentar sobrevida global semelhante à da população geral da mesma idade e sexo. É um marco prognóstico favorável, embora o acompanhamento continue necessário.⁴
No linfoma folicular avançado, o comportamento é diferente. Mesmo após uma resposta completa, o risco de recidiva permanece ao longo dos anos. Por isso, o controle prolongado da doença e o acompanhamento médico continuam importantes mesmo quando os exames deixam de mostrar sinais do câncer.³
- ¹ Instituto Nacional de Câncer (INCA). Linfoma não Hodgkin: versão para população [Internet]. Rio de Janeiro: INCA. [citado 13 out. 2026]. Disponível em:
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/tipos/linfoma-nao-hodgkin/versao-para-populacao - ² Instituto Nacional de Câncer (INCA). Linfoma não Hodgkin: versão para profissionais de saúde [Internet]. Rio de Janeiro: INCA. [citado 13 out. 2026]. Disponível em:
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/tipos/linfoma-nao-hodgkin/versao-para-profissionais-de-saude - ³ National Cancer Institute (NCI). Indolent B-Cell Non-Hodgkin Lymphoma Treatment (PDQ): Health Professional Version [Internet]. Bethesda: NCI. [citado 13 out. 2026]. Disponível em:
https://www.cancer.gov/types/lymphoma/hp/indolent-b-cell-lymphoma-treatment-pdq - ⁴ National Cancer Institute (NCI). Aggressive B-Cell Non-Hodgkin Lymphoma Treatment (PDQ): Health Professional Version [Internet]. Bethesda: NCI. [citado 13 out. 2026]. Disponível em:
https://www.cancer.gov/types/lymphoma/hp/aggressive-b-cell-lymphoma-treatment-pdq - ⁵ National Cancer Institute (NCI). Surveillance, Epidemiology, and End Results Program (SEER). Cancer Stat Facts: Diffuse Large B-Cell Lymphoma [Internet]. Dados de sobrevida relativa referentes a diagnósticos de 2016 a 2022. [citado 13 out. 2026]. Disponível em:
https://seer.cancer.gov/statfacts/html/dlbcl.html - ⁶ National Cancer Institute (NCI). Surveillance, Epidemiology, and End Results Program (SEER). Cancer Stat Facts: Follicular Lymphoma [Internet]. Dados de sobrevida relativa referentes a diagnósticos de 2016 a 2022. [citado 13 out. 2026]. Disponível em:
https://seer.cancer.gov/statfacts/html/follicular.html