AVC também acontece em jovens e reconhecer os sinais pode salvar vidas

Embora seja mais frequente após os 60 anos, o acidente vascular cerebral também atinge adultos jovens. Conhecer os sintomas e agir rapidamente pode reduzir o risco de sequelas

Tempo de Leitura: 5 minutos

Uma pessoa de 30 ou 40 anos, ativa, trabalhando, estudando e levando a vida normalmente, dificilmente imagina que possa sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). A doença costuma ser associada ao envelhecimento, à pressão alta e a outros problemas de saúde. Mas a idade, sozinha, não oferece proteção.

Dados do Global Burden of Disease, um amplo estudo internacional que acompanha o impacto das doenças na população, mostram que o AVC permanece entre as principais causas de morte e incapacidade no mundo. Em 2023, foram registrados aproximadamente 13,2 milhões de novos casos. Desse total, cerca de 1,9 milhão ocorreram entre pessoas de 15 a 49 anos, o equivalente a aproximadamente 15% dos episódios mundiais.¹

No Brasil, a doença provocou 89.490 mortes em 2025, segundo dados do Registro Civil divulgados pela Sociedade Brasileira de Acidente Vascular Cerebral (SBAVC).²

Por que o AVC também acontece em pessoas jovens?

O acidente vascular cerebral ocorre quando o fluxo de sangue para uma região do cérebro é interrompido, no AVC isquêmico, ou quando um vaso sanguíneo se rompe, provocando um AVC hemorrágico.³

A hipertensão arterial está entre os principais fatores de risco, mas não é o único problema associado à doença. Diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e uso de drogas ilícitas, como a cocaína, também aumentam a probabilidade de um AVC.³

Essas condições podem se desenvolver silenciosamente. Uma pessoa pode conviver com pressão alta ou alterações metabólicas durante anos sem perceber, especialmente quando não apresenta sintomas.

Uma pesquisa brasileira realizada em Joinville, Santa Catarina, identificou aumento de 66% na incidência de AVC isquêmico entre pessoas com menos de 45 anos. A comparação considerou os períodos de 2005 a 2006 e de 2014 a 2015. Publicado em 2017 na revista científica Stroke, o estudo analisou registros de 2.483 pacientes e mostrou que o crescimento ocorreu principalmente nos casos provocados pela obstrução de vasos sanguíneos. Os resultados refletem a realidade de Joinville no período analisado e não podem ser generalizados para todo o Brasil.⁴

Além dos fatores de risco conhecidos, determinadas alterações vasculares e cardíacas aparecem com maior frequência entre os pacientes mais jovens. Uma pesquisa publicada em 2025 no European Stroke Journal analisou dados de 3.995 pessoas de 18 a 55 anos atendidas em centros especializados da Suíça. Entre as causas identificadas, destacaram-se a dissecção de artérias cervicais, uma lesão na parede de vasos sanguíneos do pescoço, e o forame oval patente. Essa pequena comunicação entre as cavidades superiores do coração pode permitir a passagem de coágulos para a circulação cerebral.⁵

A Sociedade Brasileira de AVC recomenda considerar, na investigação, alterações vasculares e doenças que favorecem a formação de coágulos.⁶

A gestação e o período após o parto exigem atenção, especialmente diante de complicações hipertensivas. Entre as mulheres que utilizam anticoncepcionais hormonais combinados, o tabagismo, a hipertensão e a enxaqueca com aura são fatores que precisam ser considerados na avaliação do risco vascular.⁷ ⁸

Quais são os sinais de AVC que não devem ser ignorados?

Uma das principais características do AVC é o aparecimento súbito dos sintomas. A pessoa pode estar conversando, caminhando ou realizando uma atividade habitual quando começa a apresentar uma alteração neurológica.

A boca pode ficar torta, um braço perder força ou a fala se tornar enrolada. Em alguns casos, a pessoa tem dificuldade para compreender o que os outros dizem. Também podem ocorrer perda repentina da visão, desequilíbrio, dificuldade para caminhar ou uma dor de cabeça muito intensa, que surge de forma inesperada e sem causa aparente.³

Esses sinais não precisam aparecer juntos. Uma única alteração súbita já é motivo para suspeitar de AVC e procurar atendimento de emergência.

Para reconhecer alguns dos sintomas, peça à pessoa que sorria, levante os dois braços e repita uma frase simples. Observe se há assimetria no rosto, perda de força ou dificuldade na fala. Mesmo que a pessoa consiga realizar essas ações, outros sintomas súbitos também exigem atenção.³

O Ministério da Saúde recomenda acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo número 192, diante da suspeita de AVC. Também é necessário informar o horário em que os sintomas começaram ou quando a pessoa foi vista bem pela última vez. Essa informação ajuda a equipe médica a definir o tratamento.³

Por que cada minuto faz diferença no atendimento do AVC?

O cérebro precisa receber sangue e oxigênio continuamente para funcionar. Quando essa circulação é interrompida, as células da região afetada começam a sofrer danos.

No AVC isquêmico, existem tratamentos capazes de restabelecer o fluxo sanguíneo em determinados pacientes. Entre eles estão a trombólise, que utiliza medicamentos para dissolver o coágulo, e a trombectomia mecânica, procedimento que retira a obstrução por meio de um cateter.⁹

Segundo o protocolo do Ministério da Saúde, a trombólise pode ser indicada quando o tratamento é iniciado em até 4 horas e 30 minutos após o começo dos sintomas. Já a trombectomia mecânica pode beneficiar pacientes selecionados em uma janela de até 24 horas. A indicação depende da localização da obstrução, dos exames e de outros critérios clínicos.⁹

Esses tratamentos não são indicados para todos os pacientes. No AVC hemorrágico, a abordagem é diferente e depende das características do sangramento. Os exames de imagem permitem identificar o tipo de AVC e orientar a conduta médica.³

Mesmo quando os sintomas desaparecem espontaneamente, é necessário buscar atendimento urgente. Alterações neurológicas transitórias podem indicar um ataque isquêmico transitório (AIT). Esse episódio é provocado por uma interrupção temporária da circulação cerebral e pode anteceder um AVC.¹⁰

Esperar para ver se a pessoa melhora pode significar perder uma oportunidade de tratamento.

É possível prevenir um AVC antes dos 50 anos?

As diretrizes de 2024 da Associação Americana do Coração (American Heart Association) e da Associação Americana de AVC (American Stroke Association) recomendam identificar e controlar fatores de risco ao longo da vida. As duas entidades científicas são referências na prevenção e no tratamento de doenças cardiovasculares e cerebrovasculares.

As recomendações incluem acompanhar a pressão arterial, avaliar alterações de colesterol e glicose quando indicado, praticar atividade física regularmente, evitar o tabagismo e manter hábitos alimentares saudáveis.⁷

O histórico familiar e a presença de problemas cardíacos podem exigir acompanhamento individualizado.⁷

Diante de uma alteração súbita na fala, na força muscular, na visão ou no equilíbrio, a possibilidade de AVC deve ser considerada. O atendimento imediato amplia as oportunidades de tratamento e pode reduzir o risco de sequelas.

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Deborah Caramico

Jornalista do Saúde a Sério

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