
Tem sido cada vez mais comum ouvir, entre pessoas na casa dos 45 ou 50 anos, um comentário parecido: “outro amigo recebeu diagnóstico de câncer”. A sensação de que essa geração está adoecendo mais cedo do que os pais adoeceram não é apenas impressão. Em 2024, estudos com dados de milhões de pessoas tentaram responder justamente a essa pergunta. E a resposta, como costuma acontecer em epidemiologia, é mais complexa do que um simples sim ou não.
A Geração X reúne quem nasceu entre 1965 e 1980, hoje entre meados dos 40 e início dos 60 anos. Em junho de 2024, pesquisadores do National Cancer Institute (NCI), nos Estados Unidos, publicaram na revista científica JAMA Network Open um estudo que analisou 3,8 milhões de casos de câncer registrados em 13 bases de dados oncológicas americanas¹. A conclusão chamou atenção até dos próprios autores: proporcionalmente à população, a Geração X apresenta o maior aumento acumulado relativo da incidência de câncer entre as diferentes coortes de nascimento analisadas no estudo¹.
Mesmo com quedas importantes em alguns tipos de câncer, como os de pulmão e de colo do útero, associadas à redução do tabagismo e à vacinação contra o HPV, o quadro geral continua apontando para mais diagnósticos¹. Os avanços obtidos na prevenção de alguns tumores ainda não foram suficientes para compensar o aumento observado em outros.
Um segundo estudo, publicado em julho de 2024 na revista The Lancet Public Health por pesquisadores da American Cancer Society, amplia essa discussão. A equipe analisou 23,6 milhões de diagnósticos de 34 tipos de câncer e 7,4 milhões de mortes por 25 tipos da doença em pessoas acompanhadas entre 2000 e 2019².
O principal achado foi que, em 17 dos 34 tipos de câncer estudados, a incidência aumenta progressivamente a cada geração mais jovem quando comparada à anterior². Entre eles estão os cânceres colorretal, de pâncreas, estômago, mama, rim, fígado, útero, vesícula biliar e testículo². Muitos desses tumores sempre foram associados ao envelhecimento e costumavam aparecer com mais frequência em idades mais avançadas.
Por que a incidência de câncer está aumentando?
Uma expressão que aparece com frequência nesses estudos é “coorte de nascimento”. Trata-se de um grupo de pessoas nascidas em um mesmo período e que compartilham experiências e exposições semelhantes ao longo da vida.
Cada geração acumula características próprias. Alimentação, nível de atividade física, exposição à poluição, consumo de álcool, tabagismo e até hábitos relacionados ao sono podem variar ao longo das décadas e influenciar a saúde de maneiras diferentes.
Quando os pesquisadores observam que o risco de determinados cânceres cresce sucessivamente em cada coorte mais recente, o sinal é de que mudanças ocorridas ao longo da vida dessas gerações podem estar influenciando esse comportamento. O fenômeno não parece ser explicado apenas pelo envelhecimento da população ou pelo aumento da realização de exames.
Os próprios autores evitam apontar uma causa única. Entre as hipóteses mais discutidas estão o aumento da obesidade, do sedentarismo e das alterações metabólicas observadas nas últimas décadas¹. Também entram nessa lista mudanças nos padrões alimentares e exposições ambientais acumuladas ao longo da vida².
Há ainda a discussão sobre o impacto da ampliação do acesso a exames e da maior capacidade de diagnóstico. Esse fator provavelmente contribui para parte dos números, mas não parece explicar sozinho a magnitude das mudanças observadas.
A explicação provavelmente envolve vários fatores atuando ao mesmo tempo.
Incidência de câncer é diferente de mortalidade
Também ajuda separar dois conceitos que costumam ser confundidos. Incidência representa o número de novos diagnósticos. Mortalidade corresponde ao número de mortes causadas pela doença.
Por isso, um aumento nos diagnósticos não significa automaticamente que mais pessoas estejam morrendo de câncer. No estudo da American Cancer Society, o crescimento da mortalidade acompanhou o aumento da incidência apenas em alguns tipos específicos, como os cânceres de fígado em mulheres, de útero, de vesícula biliar, de testículo e o câncer colorretal².
Nos demais casos, os avanços em diagnóstico precoce, cirurgia, radioterapia, terapias-alvo e imunoterapia têm contribuído para melhorar os resultados do tratamento e ampliar as chances de sobrevivência².
Câncer colorretal e o cenário brasileiro
O Brasil também acompanha parte dessa discussão, especialmente no câncer colorretal, um dos tumores que mais chamaram atenção nos estudos internacionais e um dos exemplos mais consistentes de aumento da incidência em gerações mais recentes.
Os levantamentos citados foram realizados nos Estados Unidos e ajudam a identificar tendências importantes, mas não substituem análises nacionais. No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa para o triênio 2023-2025 é de 45.630 novos casos de câncer colorretal por ano³. Com esse volume, o tumor ocupa a terceira posição entre os mais frequentes no país, excluindo o câncer de pele não melanoma³.
O crescimento dos casos tem levado especialistas a discutir estratégias de prevenção, conscientização e diagnóstico precoce, especialmente entre pessoas que ainda não chegaram às faixas etárias tradicionalmente consideradas de maior risco.
A resposta está longe do pânico, mas também não recomenda passividade. Realizar exames de rastreamento na idade indicada continua sendo uma das formas mais eficazes de identificar alterações antes do aparecimento de sintomas. Essa recomendação varia conforme o tipo de câncer, a idade, o histórico familiar, a presença de sintomas e as diretrizes adotadas em cada país.
Da mesma forma, manter um peso adequado, praticar atividade física regularmente, limitar o consumo de álcool e evitar o tabagismo seguem entre as medidas mais bem estabelecidas para reduzir o risco de diversos tipos de câncer.
Nenhuma dessas estratégias oferece proteção absoluta. Ainda assim, são as medidas que acumulam as evidências científicas mais sólidas até o momento.
Os resultados desses estudos merecem atenção. Os dados apontam com mais clareza para um aumento da incidência de alguns tipos de câncer do que para um crescimento generalizado da mortalidade. Ainda assim, quando determinados tumores passam a ser mais frequentes em gerações mais recentes, as consequências vão além das estatísticas.
Durante muito tempo, o câncer foi visto principalmente como uma doença associada à velhice. Os dados mais recentes sugerem um cenário mais complexo. Quando diagnósticos aparecem em pessoas de 40 e poucos anos, a discussão passa a envolver trabalho, renda, planejamento familiar, qualidade de vida e a capacidade dos sistemas de saúde de responder a um perfil diferente de paciente.
A ciência ainda busca entender quais mudanças no estilo de vida, no ambiente e nos padrões de saúde das últimas décadas podem estar contribuindo para esse fenômeno. Talvez não exista uma única explicação. O mais provável é que vários fatores estejam se somando ao longo do tempo e alterando o risco de adoecimento de uma geração inteira.
Esperar o surgimento de sintomas para prestar atenção à própria saúde tem se mostrado uma estratégia cada vez menos segura. Os dados indicam que alguns tipos de câncer estão se tornando mais frequentes em gerações mais recentes, o que reforça a importância da prevenção, do rastreamento quando indicado e do diagnóstico precoce. Enquanto as causas desse fenômeno continuam sendo investigadas, identificar alterações em fases iniciais da doença segue como uma das formas mais eficazes de reduzir seus impactos.
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- Rosenberg PS, Miranda-Filho A. Cancer Incidence Trends in Successive Social Generations in the US. JAMA Netw Open. 2024;7(6):e2415731.
- Sung H, Jiang C, Bandi P, Minihan A, Fidler-Benaoudia M, Islami F, Siegel RL, Jemal A. Differences in cancer rates among adults born between 1920 and 1990 in the USA: an analysis of population-based cancer registry data. Lancet Public Health. 2024;9(9):e583-e593.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2023: Incidência de Câncer no Brasil.