Colesterol alto pode estar no seu DNA

Alterações genéticas podem estar por trás do colesterol alto e do risco cardiovascular precoce

Tempo de Leitura: 5 minutos

Quando um exame mostra colesterol alto, a primeira reação costuma ser buscar uma explicação nos hábitos. Alimentação, peso, sedentarismo. Esses fatores influenciam, mas não explicam tudo.

Nem sempre o problema começa no estilo de vida. Quando o colesterol LDL está muito elevado, especialmente em pessoas jovens ou com histórico familiar de doença cardiovascular precoce, vale olhar além. Nesses casos, investigar a causa do colesterol alto, incluindo fatores genéticos, torna-se necessário.¹

Em algumas famílias, esse padrão se repete ao longo das gerações. Pais, filhos, irmãos e avós convivem com exames alterados ou enfrentam infartos precoces. Nem sempre fica evidente que existe uma origem hereditária por trás disso.

É nesse contexto que aparece a hipercolesterolemia familiar, uma das principais causas de colesterol alto hereditário. O organismo tem dificuldade para remover o colesterol LDL da circulação. Essa alteração está presente desde o nascimento. O corpo permanece exposto a níveis elevados por muitos anos. Isso favorece o acúmulo de placas nas artérias e aumenta o risco cardiovascular ao longo da vida.¹

Hipercolesterolemia familiar: uma causa comum de colesterol alto hereditário

Durante muito tempo, a hipercolesterolemia familiar foi considerada rara. Estudos mais recentes mostram que essa percepção não se sustenta.

Uma revisão sistemática publicada em 2020 na Circulation, uma das principais revistas científicas de cardiologia dos Estados Unidos, analisou mais de 11 milhões de pessoas. A estimativa foi de um caso para cada 311 indivíduos.²

Outra análise internacional, publicada no Journal of the American College of Cardiology (JACC), também referência mundial na área, encontrou números muito próximos: cerca de um caso para cada 313 pessoas.³

Na prática, trata-se de uma das doenças genéticas mais frequentes no mundo.²,³

Os dados mostram um padrão relevante. Em comparação com a população geral, a condição aparece com muito mais frequência em pessoas com doença cardíaca. Pode ser cerca de dez vezes mais comum. Chega a até vinte vezes mais quando os eventos ocorrem precocemente.³

Mesmo assim, o diagnóstico ainda falha. A Diretriz Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar aponta que muitos casos não são identificados nem tratados, apesar do risco elevado de doença coronariana precoce

O colesterol alto costuma ser silencioso. Na maioria dos casos, não há sintomas antes das complicações. A suspeita surge a partir de exames e do histórico familiar.¹

O que acontece no organismo com o colesterol LDL

O colesterol é essencial para o corpo. Participa da estrutura das células e da produção de hormônios. Para circular no sangue, depende de transportadores chamados lipoproteínas.

Uma dessas partículas é o colesterol LDL, conhecido como “colesterol ruim”. Quando está elevado, parte do colesterol que ele transporta se deposita na parede das artérias. Com o tempo, esse acúmulo favorece a formação de placas. O risco de infarto e de AVC aumenta.⁴

O fígado tem papel central nesse equilíbrio. Ele usa receptores específicos para reconhecer e retirar o colesterol LDL da circulação. Na hipercolesterolemia familiar, alterações genéticas reduzem a quantidade ou a eficiência desses receptores. Como consequência, menos colesterol é removido. Mais permanece circulando no sangue.¹

Na maioria dos casos, essas alterações envolvem o gene LDLR. Outros genes, como APOB e PCSK9, também podem interferir nesse mecanismo em diferentes etapas.¹

Quando a alteração vem de um dos pais, a condição já pode se manifestar. Isso ajuda a explicar por que o quadro se repete dentro da mesma família.¹

Quando suspeitar: histórico familiar e colesterol alto em jovens

Hábitos inadequados não excluem uma causa genética. Muitas vezes, as duas coisas coexistem. O risco se soma.

Alguns sinais chamam atenção. Infarto, doença coronariana ou morte cardiovascular antes dos 55 anos em homens e antes dos 65 anos em mulheres são considerados precoces. Merecem investigação.¹

Valores muito elevados de colesterol LDL também levantam suspeita. Diretrizes brasileiras recomendam investigar a condição em adultos com LDL a partir de 190 mg/dL. Em crianças, níveis persistentemente elevados também exigem atenção, especialmente quando há histórico familiar compatível.⁴

Mesmo sem histórico conhecido, níveis muito altos em pessoas mais jovens já justificam uma avaliação mais detalhada. Podem indicar causas genéticas do colesterol alto.

Como é feito o diagnóstico da hipercolesterolemia familiar

Apesar de ter origem genética, o diagnóstico nem sempre depende de um teste molecular.

Nem todas as alterações responsáveis pela doença são identificadas pelos exames disponíveis. Por isso, a avaliação clínica continua sendo essencial. O médico considera níveis de colesterol LDL, histórico familiar e ocorrência de doença cardiovascular precoce.¹,⁴

Na prática, o diagnóstico pode ser feito quando há níveis persistentemente elevados associados a um padrão familiar compatível. Isso pode ocorrer mesmo sem confirmação genética.

Quando o teste genético é positivo, ele ajuda a confirmar o diagnóstico e facilita a investigação de outros familiares. Quando negativo, não exclui completamente a possibilidade da doença.

Alguns sinais físicos também podem aparecer. Os xantomas tendíneos são pequenos nódulos formados por acúmulo de colesterol. Costumam surgir em regiões como o tendão de Aquiles, mãos ou cotovelos.¹

Outro achado possível é um anel esbranquiçado ao redor da córnea, a parte transparente na frente do olho. Pode surgir com o envelhecimento. Quando aparece em pessoas mais jovens, pode indicar níveis elevados de colesterol.¹

Por que o risco cardiovascular começa cedo

Na hipercolesterolemia familiar, o risco não depende só do nível de colesterol. O tempo de exposição também pesa.

Como o colesterol LDL pode estar elevado desde o nascimento, o organismo acumula anos de exposição. Isso acontece antes mesmo do aparecimento de sintomas.¹

Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo, acompanhou pacientes por 20 anos. O resultado foi claro: iniciar o tratamento ainda na infância reduz a progressão da doença arterial e o risco de eventos cardiovasculares no futuro.⁶

Esse dado reforça o valor do diagnóstico precoce.

Tratamento e controle do colesterol alto hereditário

Ter uma causa genética não elimina a importância do estilo de vida.

Alimentação equilibrada, atividade física, controle do peso e parar de fumar continuam sendo fundamentais para reduzir o risco cardiovascular.¹,⁴

Ainda assim, na hipercolesterolemia familiar essas medidas raramente são suficientes sozinhas. O tratamento costuma incluir medicamentos que reduzem os níveis de colesterol LDL. O objetivo é diminuir o risco de complicações.¹,⁴

Dependendo da resposta e do nível de risco, pode ser necessário combinar diferentes classes de medicamentos para atingir as metas recomendadas.

O acesso a essas opções varia conforme o sistema de saúde e o perfil do paciente. O acompanhamento médico individualizado faz diferença.

Os avanços terapêuticos melhoraram o controle do colesterol alto, mas não eliminam a necessidade de cuidado contínuo. A condição não tem cura. O controle depende da adesão ao tratamento ao longo da vida.¹,⁴,⁶

Quando um exame muda mais do que um diagnóstico

Nem todo colesterol alto tem a mesma origem. Em alguns casos, ele reflete uma condição presente desde o nascimento.

Quando níveis elevados aparecem cedo ou vêm acompanhados de histórico familiar, investigar faz diferença. O diagnóstico pode chegar a tempo de evitar complicações. Também pode revelar outros casos dentro da mesma família.

Identificar a hipercolesterolemia familiar permite agir antes do surgimento de eventos cardiovasculares. Permite orientar o tratamento e ampliar o cuidado para além do indivíduo, alcançando outros membros da família.

¹ Izar MCO, Giraldez VZR, Bertolami A, et al. Atualização da Diretriz Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar – 2021. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2021;117(4):782-844. DOI: 10.36660/abc.20210788.
https://abccardiol.org/article/atualizacao-da-diretriz-brasileira-de-hipercolesterolemia-familiar-2021/

² Hu P, Dharmayat KI, Stevens CAT, et al. Prevalence of Familial Hypercholesterolemia Among the General Population and Patients With Atherosclerotic Cardiovascular Disease: A Systematic Review and Meta-Analysis. Circulation. 2020;141(22):1742-1759. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.119.044795.
https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIRCULATIONAHA.119.044795

³ Beheshti SO, Madsen CM, Varbo A, Nordestgaard BG. Worldwide Prevalence of Familial Hypercholesterolemia: Meta-Analyses of 11 Million Subjects. Journal of the American College of Cardiology. 2020;75(20):2553-2566. DOI: 10.1016/j.jacc.2020.03.057.
https://www.jacc.org/doi/10.1016/j.jacc.2020.03.057

⁴ Rached FH, Miname MH, Rocha VZ, et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2025;122(9):e20250640. DOI: 10.36660/abc.20250640.
https://abccardiol.org/article/diretriz-brasileira-de-dislipidemias-e-prevencao-da-aterosclerose-2025/

⁶ Luirink IK, Wiegman A, Kusters DM, et al. 20-Year Follow-up of Statins in Children with Familial Hypercholesterolemia. The New England Journal of Medicine. 2019;381(16):1547-1556. DOI: 10.1056/NEJMoa1816454.
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1816454

Deborah Lima

Jornalista do Saúde a Sério

Veja também

Receba nossa Newsletter

Cadastro realizado com sucesso!

Aproveite e visite nossas redes sociais!