
Cerca de 200 milhões de pessoas convivem com osteoporose no mundo. No Brasil, a estimativa passa de 10 milhões de casos, segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), com base na International Osteoporosis Foundation (IOF)¹. A condição se torna mais frequente depois dos 50 anos: uma em cada três mulheres nessa faixa etária terá ao menos uma fratura por fragilidade ao longo da vida¹. De acordo com a SBEM¹, a osteoporose é uma doença silenciosa e progressiva, marcada pela perda de densidade mineral óssea e pela queda da qualidade do tecido, o que eleva o risco de fraturas. Como descreve a literatura clínica², o problema surge quando o balanço entre destruição e reconstrução do osso sai do prumo, deixando o esqueleto suscetível até a pequenas quedas.
A osteoporose pode evoluir sem dar sinais por anos. Os ossos, porém, estão em constante obra: o organismo remove parte do material antigo e repõe tecido novo, num ciclo contínuo de reabsorção e formação. Células especializadas fazem esse serviço — umas “limpam” o osso antigo, outras constroem o novo².
Quando esse relógio interno funciona bem, mantemos ossos fortes. Na osteoporose, a balança pende para a perda, e o esqueleto vai afinando por dentro: a malha de sustentação fica mais rala e frágil³. A camada externa, normalmente compacta, também se torna mais porosa e vulnerável⁴.
Daí o paradoxo: por fora o osso pode parecer inteiro; por dentro, está fragilizado. Resultado: fraturas osteoporóticas podem ocorrer com impactos mínimos — tropeçar ou erguer um peso leve, por exemplo. Quadril, vértebras e punho concentram boa parte desses episódios¹. Em idosos, as fraturas se associam a dor crônica, perda de autonomia e maior mortalidade, o que coloca a prevenção entre as prioridades de saúde pública⁵.
Fatores que aumentam o risco de osteoporose
Hormônios e nutrição pesam muito na saúde óssea. Após a menopausa, a queda do estrogênio acelera a perda de massa, porque o hormônio freia a degradação e estimula a reconstrução do tecido². Baixa ingestão de cálcio e vitamina D também piora o quadro: sem esses nutrientes, os minerais não se incorporam direito à matriz óssea⁶. Com o envelhecimento, o corpo produz menos tecido novo, o que reduz ainda mais a densidade e a resistência⁷.
Os hábitos completam esse cenário. Sedentarismo diminui o estímulo natural para formar osso; tabagismo e álcool atrapalham a absorção de cálcio e vitamina D; corticoides de longo prazo aceleram a perda de massa; e dietas pobres em cálcio e proteínas enfraquecem a estrutura do osso⁸.
Algumas doenças endócrinas também entram na conta. No hipertireoidismo, o metabolismo acelera e favorece a reabsorção óssea; na síndrome de Cushing, o excesso de corticoides no organismo corrói aos poucos a qualidade do tecido². Em ambos os casos, o desarranjo hormonal mexe no metabolismo do cálcio e da vitamina D e, com o tempo, fragiliza os ossos.
Diagnóstico e tratamento da osteoporose
O diagnóstico é feito por densitometria óssea (DEXA), exame que mede a densidade mineral. O laudo traz o T-score, índice que compara a densidade do paciente à de um adulto jovem saudável — quanto mais baixo, maior o risco de ossos fracos e fraturas. Mulheres pós-menopausa, homens a partir de 70 anos e pessoas com histórico familiar de fraturas merecem avaliação periódica, sobretudo se usam corticoides por longos períodos⁵.
O tratamento da osteoporose combina medicamentos e mudanças de estilo de vida. Entre as opções farmacológicas estão bifosfonatos, moduladores hormonais e, quando indicado, cálcio e vitamina D. A meta é recolocar o remodelamento nos trilhos — reduzindo a reabsorção ou estimulando a formação de osso. Na rotina, pesam alimentação rica em cálcio, suplementação de vitamina D quando necessária e exercícios regulares, sempre com orientação médica. São recomendações alinhadas ao que se pratica internacionalmente e adotadas pelas sociedades brasileiras, como SBEM e ABRASSO⁵.
Por que entender e prevenir a osteoporose é essencial
A osteoporose é uma das doenças mais prevalentes do envelhecimento e uma das principais causas de fraturas e perda de autonomia. Além de comprometer a qualidade de vida, ela representa um desafio crescente para os sistemas de saúde, já que o envelhecimento populacional tende a aumentar a incidência de casos nas próximas décadas. Diagnóstico precoce, acompanhamento médico regular e mudanças sustentadas no estilo de vida são as estratégias mais eficazes para reduzir o impacto da doença. Cuidar dos ossos, portanto, é também cuidar da capacidade de se mover, de trabalhar e de viver com independência. Quanto antes a prevenção começa, menores as chances de fraturas e maiores as chances de envelhecer com vitalidade.
Mitos e verdades sobre a osteoporose
“Refrigerante causa osteoporose.”
Não diretamente. Estudos ligam o consumo excessivo de bebidas tipo cola à menor densidade mineral em mulheres, mas o efeito se explica, em boa parte, pela troca do leite e de outras fontes de cálcio por refrigerantes e por hábitos alimentares ruins⁹.
“Só idoso tem osteoporose.”
É mais comum com a idade, mas adultos mais jovens também podem ter a doença, especialmente com uso prolongado de corticoides, distúrbios hormonais, doenças inflamatórias ou carências nutricionais².
“Homens não têm osteoporose.”
Têm, sim. O risco cresce após os 70 anos, com influência de medicamentos e alcoolismo¹⁰. Em alguns países, até um em cada cinco homens acima dos 50 sofrerá fratura osteoporótica ao longo da vida¹.
“Café enfraquece os ossos.”
Consumo moderado (até três xícaras/dia) não prejudica quem tem dieta equilibrada. Excesso de cafeína pode reduzir discretamente a absorção de cálcio, efeito compensado por alimentação adequada⁶,¹¹.
“Alimentos ácidos ‘roubam’ cálcio dos ossos.”
A hipótese não se sustenta. O corpo mantém o pH do sangue estável e não usa osso para neutralizar ácidos da dieta¹². Proteínas, aliás, podem favorecer a saúde óssea quando há cálcio suficiente no prato.
“Genética e sexo importam.”
Importam. A queda do estrogênio na menopausa eleva o risco, e a genética responde por até 80% da densidade mineral de cada pessoa¹³.
“Exercício fortalece os ossos.”
Atividades de impacto moderado — caminhada, corrida leve, musculação — estimulam a formação de osso e melhoram o equilíbrio, reduzindo quedas e fraturas⁸.
Anvisa carcinoma basocelular carcinoma espinocelular Ciência e Saúde Câncer de Mama câncer de pele demência frontotemporal desinformação em saúde diabetes tipo 2 diagnóstico precoce Estilo de vida saudável evidências científicas Infarto medicina baseada em evidências menopausa OMS Oncologia prevenção cardiovascular Prevenção em saúde Qualidade de Vida Reposição Hormonal Saúde a Sério Saúde com responsabilidade saúde da mulher saúde da pele saúde do coração Saúde masculina saúde mental saúde pública Terapia Hormonal
- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Osteoporose.
- Raisz LG. Pathogenesis of osteoporosis: concepts, conflicts, and prospects. J Clin Invest. 2005;115(12):3318–3325. DOI: 10.1172/JCI27071
- Rachner TD, Khosla S, Hofbauer LC. Osteoporosis: now and the future. Lancet. 2011;377(9773):1276–1287. DOI: 10.1016/S0140-6736(10)62349-5
- NIH Osteoporosis and Related Bone Diseases Resource Center. What Is Osteoporosis? 2021.
- Cosman F, et al. Clinician’s Guide to Prevention and Treatment of Osteoporosis. Osteoporosis International. 2022;33(10):2049–2102. DOI: 10.1007/s00198-022-06587-y
- Holick MF. Vitamin D deficiency. N Engl J Med. 2007;357(3):266–281. DOI: 10.1056/NEJMra070553
- Seeman E. Pathogenesis of bone fragility in women and men. Lancet. 2002;359(9320):1841–1850. DOI: 10.1016/S0140-6736(02)08706-8
- Kanis JA et al. European guidance for the diagnosis and management of osteoporosis in postmenopausal women. Osteoporos Int. 2019;30(1):3–44. DOI: 10.1007/s00198-018-4704-5
- Tucker KL et al. Colas, but not other carbonated beverages, are associated with low bone mineral density in older women. Am J Clin Nutr. 2006;84(4):936–942. DOI: 10.1093/ajcn/84.4.936
- NIH Osteoporosis and Related Bone Diseases Resource Center. Osteoporosis in Men. 2020.
- Rapuri PB et al. Caffeine intake increases the rate of bone loss in elderly women and interacts with vitamin D receptor genotypes. Am J Clin Nutr. 2001;74(5):694–700. DOI: 10.1093/ajcn/74.5.694
- Fenton TR, Lyon AW, Eliasziw M, Tough SC, Hanley DA. Meta-analysis of the effect of the acid-ash hypothesis of osteoporosis. J Bone Miner Res. 2009;24(11):1835–1840. DOI: 10.1359/jbmr.090515
- Ralston SH, Uitterlinden AG. Genetics of osteoporosis. Endocr Rev. 2010;31(5):629–662. DOI: 10.1210/er.2010-0006