
Nos últimos meses, debates sobre a segurança das vacinas contra a covid-19 voltaram a circular nas redes e reacenderam dúvidas sobre desinformação em saúde. Entre as alegações ressurgiu a chamada “síndrome pós-spike”, apresentada por alguns profissionais como possível consequência dos imunizantes. O tema ganhou visibilidade em 2025 após reportagens mostrarem que médicos envolvidos na difusão da teoria ofereciam cursos e atendimentos vinculados a ela. Embora tenha atraído atenção novamente, a ideia não é nova: começou a circular em 2024 e foi analisada — e rejeitada — por instituições científicas brasileiras e internacionais¹².
A hipótese sugere que vacinas baseadas em RNA mensageiro (mRNA) levariam o organismo a produzir por tempo indeterminado a proteína spike, que fica na superfície do SARS-CoV-2 e permite a entrada do vírus nas células humanas. Segundo essa interpretação, essa produção prolongada desencadearia sintomas persistentes, como fadiga intensa, alterações cognitivas e problemas neurológicos ou cardiovasculares. Apesar da aparência técnica, a explicação não encontra respaldo em evidências confiáveis².
Como a teoria ganhou força em 2024
A circulação da ideia aumentou em junho de 2024, quando três médicos brasileiros publicaram na revista científica IDCases, da Elsevier, um relato clínico de cinco pacientes¹. Relatos desse tipo registram observações, mas não permitem estabelecer relação de causa e efeito². Ainda assim, o artigo propôs a existência de uma nova condição associada à vacinação e apresentou um protocolo composto por substâncias sem eficácia comprovada para covid-19 ou para qualquer reação relacionada a imunizantes².
Em novembro de 2024, após revisão editorial, o periódico decidiu retratar o estudo¹. A retratação é o procedimento formal pelo qual uma revista científica informa que um artigo não atende aos critérios metodológicos exigidos, tornando suas conclusões inválidas como evidência¹. O comunicado destacou a insuficiência dos dados e a impossibilidade de atribuir às vacinas a condição descrita com base em apenas cinco relatos¹.
O tema voltou a ganhar espaço em 2025, quando reportagens revelaram que os autores do estudo continuavam oferecendo cursos e consultas associados à teoria, mesmo após a retratação. A situação levou instituições científicas e o Ministério da Saúde a reforçar orientações sobre o risco de aceitar diagnósticos ou tratamentos sem comprovação².
O que dizem instituições científicas e regulatórias
Ainda em 2024, logo após a publicação do estudo, a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e o Ministério da Saúde divulgaram nota conjunta afirmando que a condição descrita não existe e que não há evidência de que vacinas de mRNA contra a covid-19 causem doenças prolongadas atribuídas à proteína spike². As instituições destacaram ainda que autoridades reguladoras — como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, e a European Medicines Agency (EMA), da União Europeia — não reconhecem a suposta “síndrome pós-spike”².
O que a ciência sabe sobre a proteína spike
A compreensão do funcionamento da proteína spike ajuda a esclarecer por que a hipótese não se sustenta. Trata-se da estrutura usada pelo SARS-CoV-2 para se ligar às células humanas³. As vacinas de mRNA utilizam uma instrução temporária — que se degrada em poucas semanas — para que o organismo produza uma versão inofensiva da spike apenas pelo período necessário à ativação da resposta imune³. Segundo nota técnica publicada pelo Ministério da Saúde em setembro de 2024, o RNA vacinal não permanece no organismo, não altera o DNA humano e não comanda a produção contínua da proteína³.
O conhecimento acumulado desde 2020 reforça essa compreensão. Ensaios clínicos e estudos observacionais revisados por pares, realizados em diferentes países com milhões de pessoas, confirmam o perfil de segurança das vacinas de mRNA³. Documentos técnicos de agências reguladoras também apontam que a spike produzida após a vacinação é transitória e não está associada a doenças³.
Covid longa é real — e causada pelo vírus, não pela vacina
A permanência da teoria costuma se misturar com dúvidas legítimas sobre a covid longa, o que contribui para interpretações equivocadas. A covid longa — reconhecida oficialmente pela OMS desde outubro de 2021⁴ — é uma condição real que pode afetar pessoas que tiveram infecção por SARS-CoV-2 e mantêm sintomas por pelo menos dois meses após três meses do início da doença⁴. Estimativas internacionais indicam que entre 10% e 20% das pessoas infectadas podem desenvolver sintomas prolongados⁴. Estudos publicados em periódicos científicos de referência mostram que pessoas vacinadas têm menor risco de desenvolver covid longa⁴.
Segurança das vacinas de mRNA e monitoramento global
As vacinas de mRNA aplicadas no Brasil — como Pfizer/BioNTech e Moderna — foram aprovadas após avaliação de agências reguladoras como FDA, EMA, OMS e Anvisa⁵. A tecnologia não altera o material genético humano, não permanece no organismo e atua apenas como instrução temporária para o sistema imune⁵. Desde 2020, bilhões de doses foram aplicadas mundialmente, segundo monitoramentos da OMS e de autoridades sanitárias⁵. Esse conjunto de dados não identificou qualquer padrão compatível com a suposta “síndrome pós-spike”⁵.
A persistência de explicações sem respaldo científico alimenta insegurança, reduz a confiança nas vacinas e pode afastar pessoas de cuidados essenciais. As evidências acumuladas ao longo dos últimos anos reforçam que vacinas de mRNA são seguras, eficazes e fundamentais para reduzir casos graves, mortes e sequelas da covid-19⁵.
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- Elsevier/IDCases. RETRACTED: Post spike syndrome (PSS): Simple solution leading to resolving results, five cases report. Novembro de 2024.
- Academia Brasileira de Ciências. Brasil se une contra farsa anticiência que ameaça vacinas e explora a população. Novembro de 2024.
- Ministério da Saúde. O que é a proteína spike? Setembro de 2024.
- Organização Mundial da Saúde. A clinical case definition of post COVID-19 condition. Outubro de 2021.
- Ministério da Saúde. Vacinas da Covid-19 são seguras e não provocam síndrome pós-vacinação. Agosto de 2025.