Enxaqueca: muito além da dor de cabeça e por que a doença ainda é subestimada

A enxaqueca afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, algo em torno de 14% da população global. Mesmo assim, ainda convive com estigma, subdiagnóstico e acesso limitado aos tratamentos mais modernos

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Uma reunião importante marcada. O dia organizado até o último detalhe. Então começa uma crise de enxaqueca. A luz incomoda. O cheiro do café provoca enjoo. O barulho parece mais alto do que realmente é. E tudo o que estava planejado precisa parar.

Quem convive com enxaqueca conhece bem esse roteiro. O problema é que ele se repete em escala global. Segundo dados do estudo Global Burden of Disease 2021, a doença afeta cerca de 14% da população mundial e figura entre as principais causas de incapacidade entre as doenças neurológicas, à frente de condições como epilepsia, doença de Alzheimer e doença de Parkinson.¹

Ainda existe a ideia de que enxaqueca é apenas uma dor de cabeça forte. A realidade é mais complexa. Trata-se de uma doença neurológica incapacitante, frequentemente minimizada, inclusive por quem está ao redor do paciente.

Entender o que acontece no cérebro durante as crises, por que algumas pessoas sofrem mais do que outras e o que mudou no tratamento ajuda a colocar a doença em outra perspectiva.

Sintomas da enxaqueca: por que a doença vai além da dor

A enxaqueca é classificada pela ciência como um transtorno neurovascular complexo.² Em termos simples, isso significa que ela envolve alterações no funcionamento dos neurônios, dos vasos sanguíneos e dos circuitos cerebrais ligados à dor. Não surge apenas por tensão muscular ou estresse, embora fatores emocionais possam funcionar como gatilho em pessoas predispostas.

As crises geralmente acontecem em etapas. Antes da dor propriamente dita, muitas pessoas entram numa fase chamada pródromo, que pode surgir horas ou até dois dias antes da crise. Mudanças de humor, bocejos frequentes, fadiga e vontade intensa de determinados alimentos estão entre os sinais mais comuns.²

Em cerca de 30% dos casos aparece a chamada aura, um conjunto de sintomas neurológicos transitórios. Algumas pessoas enxergam pontos brilhantes, linhas em zigue-zague ou áreas escuras no campo visual. Outras sentem formigamentos ou dificuldade momentânea para falar.²

Depois vem a fase mais conhecida: a dor pulsátil, geralmente concentrada em um lado da cabeça, acompanhada de náusea, vômito e sensibilidade exagerada à luz, aos sons e até aos cheiros.² A crise pode durar de quatro a 72 horas. Quando termina, muita gente ainda relata uma espécie de “ressaca neurológica”, marcada por cansaço intenso, dificuldade de concentração e sensação de lentidão mental.²

O que acontece no cérebro durante a crise de enxaqueca

Durante muito tempo, a enxaqueca foi interpretada principalmente como um problema vascular. A lógica parecia simples: os vasos dilatavam e isso provocava dor. Hoje, a neurociência descreve um cenário bem mais complexo.²

Uma das explicações mais aceitas para a aura é um fenômeno chamado depressão alastrante cortical. Apesar do nome técnico, ele pode ser entendido como uma espécie de “onda elétrica” que percorre áreas do cérebro e altera temporariamente a atividade dos neurônios.² É como se determinados circuitos cerebrais entrassem, por alguns minutos, em um estado de instabilidade.

Esse processo ativa o chamado sistema trigeminovascular, uma rede responsável por transmitir sinais de dor das meninges para o cérebro. A partir daí ocorre uma cascata inflamatória que ajuda a sustentar e amplificar a dor.²

Nesse mecanismo, uma molécula ganhou protagonismo nos últimos anos: o CGRP, sigla para peptídeo relacionado ao gene da calcitonina.³ Ele participa diretamente da transmissão da dor e da dilatação dos vasos sanguíneos. Durante as crises, seus níveis aumentam e tendem a cair quando o tratamento funciona adequadamente.³

A descoberta desse papel abriu caminho para uma nova geração de medicamentos desenvolvidos especificamente para a doença. Algo que simplesmente não existia até poucos anos atrás.

Por que algumas pessoas têm mais crises de enxaqueca

A enxaqueca possui forte componente genético. Estudos identificaram mais de 100 regiões do DNA associadas ao risco aumentado da doença.⁴ Isso ajuda a explicar por que ela frequentemente aparece em diferentes membros da mesma família.

Mas genética não explica tudo. O cérebro da pessoa com enxaqueca parece funcionar como um sistema mais sensível a determinados estímulos. Alterações no sono, jejum prolongado, estresse emocional, mudanças hormonais, excesso de estímulos sensoriais e até variações climáticas podem atuar como gatilhos.⁴

Em um estudo com mais de 1.200 pacientes, cerca de 76% relataram pelo menos um fator desencadeante consistente. O estresse emocional apareceu como o mais frequente.⁵

As mulheres são particularmente afetadas. A prevalência feminina é cerca de três vezes maior do que a masculina.⁶ Grande parte dessa diferença está ligada às oscilações hormonais relacionadas ao estrogênio, que influenciam diretamente a frequência e a intensidade das crises.⁶ Isso ajuda a entender por que muitas mulheres percebem piora no período menstrual, enquanto outras melhoram temporariamente durante a gravidez.

Enxaqueca crônica: quando a dor passa a dominar a rotina

Existe uma diferença importante entre enxaqueca episódica e enxaqueca crônica. A forma episódica ocorre em menos de 15 dias por mês. Já a forma crônica é diagnosticada quando a dor acontece em 15 ou mais dias mensais por mais de três meses consecutivos, com pelo menos oito dias apresentando características típicas de enxaqueca.⁴

Essa transição costuma ter impacto profundo sobre a qualidade de vida. Aos poucos, muita gente passa a organizar a rotina em função da possibilidade de uma nova crise. Trabalho, relações sociais, produtividade e saúde mental acabam sendo afetados.

Um dos fatores mais associados à cronificação é justamente o uso excessivo de medicamentos para dor. Parece contraditório, mas o cérebro pode entrar num ciclo em que o excesso de analgésicos passa a alimentar novas crises.⁴ É a chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos, um problema relativamente comum e frequentemente subestimado.

Há também a demora diagnóstica. Muitos pacientes passam anos ouvindo que têm “estresse”, “sinusite”, “labirintite” ou apenas “dor de cabeça forte”, sem receber diagnóstico adequado. Essa banalização contribui para atraso no tratamento e piora progressiva da qualidade de vida.

Como funciona o tratamento da enxaqueca

O tratamento se divide em duas frentes: controlar a crise aguda e prevenir novos episódios.

Para interromper a crise, as diretrizes mais recentes da International Headache Society recomendam os triptanos como principal opção para crises moderadas a intensas.⁷ Esses medicamentos atuam em receptores específicos ligados à dor da enxaqueca. Anti-inflamatórios e analgésicos continuam tendo papel importante nos casos mais leves.⁷

O momento da medicação faz diferença. Em geral, quanto mais cedo o tratamento é iniciado após os primeiros sinais da crise, melhores tendem a ser os resultados.⁷

A grande mudança dos últimos anos aconteceu na prevenção. Durante muito tempo, neurologistas utilizaram medicamentos originalmente desenvolvidos para outras doenças, como antidepressivos, anticonvulsivantes e betabloqueadores. Muitos pacientes abandonavam o tratamento por causa dos efeitos colaterais ou da eficácia limitada.¹⁰

Esse cenário começou a mudar em 2018, com a chegada dos anticorpos monoclonais anti-CGRP.³ Pela primeira vez, a medicina passou a ter medicamentos criados especificamente para a fisiopatologia da enxaqueca.

Quatro dessas medicações já estão disponíveis em diversos países: erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe e eptinezumabe.⁸ Estudos recentes mostram eficácia sustentada e boa tolerabilidade em parte significativa dos pacientes.⁸ A adesão ao tratamento e a tolerabilidade a longo prazo também vêm sendo avaliadas em estudos mais recentes.⁹

Ainda assim, existem limitações importantes. Esses tratamentos não representam cura definitiva. Nem todos os pacientes respondem da mesma forma. E há uma barreira difícil de ignorar: o custo elevado e a necessidade de uso contínuo. Embora registrados pela Anvisa, os anticorpos monoclonais anti-CGRP ainda não foram incorporados ao Sistema Único de Saúde. Na prática, isso deixa boa parte dos pacientes sem acesso.

Outra novidade promissora são os chamados gepants, medicamentos orais que também atuam na via do CGRP. Diferentemente dos triptanos, eles não promovem vasoconstrição, o que amplia possibilidades para pacientes com contraindicações cardiovasculares.⁷ A disponibilidade, porém, ainda varia conforme o país e os processos regulatórios locais.

O impacto invisível da enxaqueca na qualidade de vida

Talvez um dos aspectos mais difíceis da enxaqueca seja justamente aquilo que não aparece nos exames. Quem olha de fora nem sempre entende por que alguém precisou cancelar compromissos, faltar ao trabalho ou permanecer horas em um quarto escuro.

O estigma ainda acompanha muitos pacientes. Dados do estudo OVERCOME (US) mostram que quase um terço das pessoas com enxaqueca relatam sofrer estigmatização frequente relacionada à doença.¹¹ Esse estigma também se associa a maior incapacidade e pior qualidade de vida.¹¹

Há também um impacto econômico importante. A enxaqueca é considerada uma das principais causas de perda de produtividade em adultos abaixo dos 50 anos.¹ Mesmo assim, continua sendo subdiagnosticada e frequentemente minimizada.

Em parte, isso acontece porque dores invisíveis costumam ser socialmente desacreditadas.

Diagnóstico da enxaqueca: quando procurar ajuda médica

A enxaqueca não aparece em exame de sangue, tomografia ou ressonância magnética. O diagnóstico é clínico, baseado na história do paciente e nos critérios internacionais da International Classification of Headache Disorders.⁴

Por isso, a escuta médica faz tanta diferença. Um diário de crises, registrando frequência, duração, intensidade, gatilhos e resposta aos medicamentos, pode ajudar muito no acompanhamento com neurologista ou especialista em cefaleias.

Também é importante procurar avaliação médica quando as dores mudam de padrão, surgem de forma súbita e intensa, aparecem acompanhadas de sintomas neurológicos persistentes ou começam após os 50 anos. Embora a maioria das dores de cabeça não represente emergência, alguns sinais exigem investigação rápida.

A ciência avançou muito nos últimos anos. Hoje existe uma compreensão maior sobre os mecanismos da doença e opções terapêuticas mais específicas do que havia há apenas uma década.

Mesmo assim, ainda existe uma distância importante entre o que a ciência já descobriu e aquilo que efetivamente chega ao paciente comum.

Enxaqueca continua sendo uma doença crônica. Mas cada vez mais deixa de ser uma sentença inevitável de incapacidade. Para muita gente, o primeiro passo nem é encontrar o medicamento mais moderno. É entender que aquela dor recorrente merece atenção, investigação e tratamento adequado.

Quando uma doença afeta trabalho, relações pessoais, saúde mental e qualidade de vida de milhões de pessoas, tratá-la como “apenas dor de cabeça” ajuda a manter um problema real de saúde pública invisível no cotidiano.

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Deborah Lima

Jornalista do Saúde a Sério

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