Mulheres e álcool: por que elas podem adoecer mais cedo e enfrentam mais barreiras para tratar a dependência

Diferenças na composição corporal e na metabolização do etanol aumentam a vulnerabilidade feminina; maternidade, estigma e falta de serviços específicos também dificultam o tratamento

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O consumo de álcool entre mulheres vem crescendo e reduzindo uma diferença que, historicamente, sempre foi grande em relação aos homens. Dados do Vigitel 2025 mostram que o consumo excessivo entre brasileiras passou de 7,8%, em 2006, para 15,7%. Entre os homens, o consumo continua mais frequente, mas a evolução entre elas chama atenção.

Para a psiquiatra Ana Cecília Marques, doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (ABEAD) e atual integrante do Conselho Consultivo da entidade, essa aproximação já aparece especialmente entre as mais jovens: “O homem ainda ganha na prevalência de todos os tipos de beber, mas a mulher está conseguindo alcançar ele em alguns tipos desse beber.”

O aumento merece atenção porque homens e mulheres não respondem exatamente da mesma maneira ao etanol. Uma das diferenças começa na própria composição corporal. O álcool se distribui principalmente pela água presente no organismo e, em média, mulheres têm proporcionalmente menos água corporal do que homens. Por isso, diante da mesma quantidade de bebida e considerando pessoas de peso semelhante, a concentração de álcool no sangue tende a ser maior nelas. É como diluir a mesma quantidade de uma substância em volumes diferentes de água: quanto menor o volume disponível, maior tende a ser a concentração.

Ana Cecília resume essa diferença de maneira direta: “A mulher tem menos água no corpo, mais gordura. Dilui menos porque tem menos água, intoxica mais. A mesma dose que eu tomar e você tomar, para mim vai intoxicar, para você não.”

A metabolização também apresenta particularidades. Ana Cecília explica: “A mulher tem menos enzimas no estômago e no fígado para metabolizar o etanol, comparada ao homem.”

O organismo feminino pode sofrer consequências mais cedo

A maior vulnerabilidade feminina ao álcool não significa que toda mulher que bebe desenvolverá uma doença. Quantidade, frequência, idade, genética, outras condições de saúde e padrão de consumo interferem no risco. Ainda assim, estudos indicam que mulheres podem apresentar alguns problemas relacionados ao álcool mais cedo e com níveis menores de consumo do que os homens, entre eles doenças hepáticas, cardiovasculares, alterações neurológicas e episódios de perda de memória.

Ana Cecília cita o chamado fenômeno de telescoping, expressão usada na literatura para descrever uma progressão mais rápida entre determinadas etapas do uso problemático de álcool e suas consequências: “A mulher tem um fenômeno que acontece nela, que chama-se telescópio. Ela tem doenças crônicas derivadas do álcool mais cedo.”

A médica exemplifica essa diferença com a doença hepática: “Ela vai ter cirrose 15 anos antes se ela fizer uso crônico.”

O fenômeno de telescoping já foi descrito na literatura científica, especialmente para a progressão entre marcos do transtorno por uso de álcool e o aparecimento de consequências relacionadas ao consumo. A velocidade dessa progressão, porém, varia de acordo com diferentes fatores individuais.

Gravidez acrescenta riscos para o bebê

Durante a gestação, a orientação das autoridades de saúde é objetiva: não há dose de álcool considerada segura para o feto. O consumo em qualquer momento da gravidez, inclusive em pequenas quantidades, pode estar associado a alterações congênitas, deficiência intelectual e problemas neurocomportamentais.

Os transtornos do espectro alcoólico fetal reúnem diferentes alterações físicas, cognitivas e comportamentais relacionadas à exposição ao álcool durante a gestação. Entre elas está a Síndrome Alcoólica Fetal.

Ana Cecília chama atenção também para manifestações que podem ser menos evidentes nos primeiros anos: “A gente fala da SAF, a síndrome alcoólica fetal. Ela tem alterações físicas, deficiência intelectual, tem um monte de problema. Mas vamos falar daquelas coisas mais sutis?”

Dificuldades de aprendizagem podem estar entre essas manifestações. A especialista alerta que algumas delas podem aparecer à medida que a criança se desenvolve: “É com um, dois anos, para aprender, os transtornos de aprendizagem que aparecem e você nem percebe.”

A orientação de evitar completamente o álcool durante a gravidez inclui cerveja, vinho e destilados. Todas essas bebidas contêm etanol e podem representar risco para o desenvolvimento fetal.

Dependência também exige olhar específico para as mulheres

Quando o consumo evolui para dependência, as diferenças biológicas se somam a obstáculos sociais e assistenciais. Para Ana Cecília, a estrutura disponível ainda responde pouco às necessidades específicas desse público: “A gente não tem nem tratamento para mulher.”

A maternidade é um exemplo concreto. Uma mulher que necessita de atendimento intensivo pode ter dificuldade para se afastar dos filhos ou simplesmente não ter com quem deixá-los. A especialista chama atenção para essa realidade: “A menor parte das clínicas tem só para mulheres, minoria. Não tem um tratamento especializado. Ela teria que ter alguém para deixar os filhos ou levar os filhos junto. Olha quanta diferença.”

Esse tipo de barreira é reconhecido também internacionalmente. Documento da Organização Mundial da Saúde aponta que mulheres que usam álcool e outras drogas podem enfrentar falta de serviços adaptados às suas necessidades, além de estigma social, receio de danos à reputação familiar, riscos conjugais e restrições culturais que dificultam a busca por atendimento.

Ana Cecília questiona justamente a aplicação automática de modelos construídos historicamente a partir de uma população predominantemente masculina: “A abordagem é outra. Provavelmente, com as pesquisas em neurociência, a gente vai ver que muitos medicamentos não estão indicados para elas. A gente não tem nada para a mulher. Ela entra no modelito tratamento para os homens.”

Para a psiquiatra, fatores biológicos, sociais e familiares precisam ser considerados em conjunto: “São outros temas, outras histórias, outras repercussões. Ela fica doente antes, tem os filhos, é tudo diferente.”

O estigma pesa de forma diferente

Além dos efeitos sobre a saúde e das dificuldades para acessar tratamento, mulheres que apresentam consumo problemático de álcool convivem com um julgamento social mais intenso. Esse estigma pode contribuir para que algumas delas demorem mais a buscar ajuda.

Ana Cecília reconhece essa diferença sem hesitar: “A mulher que bebe é mais julgada que homem. Verdade. Essa é verdade ainda, inclusive nos países desenvolvidos.”

O contraste aparece com clareza quando alguém perde o controle depois de beber. A médica exemplifica: “A gente vai num bar e vê um monte caindo no chão. Daqui a pouco ele acorda. A mulher, o cara fica estarrecido. Como uma mulher pode perder o controle desse jeito?”

O mesmo comportamento pode receber leituras sociais muito diferentes. Ana Cecília resume: “Pro cara é só um porre e pra mulher é uma vergonha, uma doença.”

O crescimento do consumo entre mulheres torna essa discussão cada vez mais necessária. Conhecer as diferenças biológicas ajuda a compreender por que os efeitos do álcool podem surgir de maneira distinta. Reconhecer as barreiras sociais e assistenciais permite ir além do julgamento e olhar para prevenção, diagnóstico precoce e tratamento de forma mais adequada à realidade feminina.

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A entrevista completa com a psiquiatra Ana Cecília Marques, sobre álcool, outras drogas, dependência, prevenção e tratamento, pode ser assistida no podcast Saúde a Sério. Assista!

Deborah Lima

Jornalista especializada em saúde

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