Nem toda distração é TDAH: o que realmente caracteriza o transtorno

Vídeos rápidos e listas de sintomas popularizaram o tema nas redes sociais. Distração, excesso de telas e cansaço mental podem se confundir com sinais do transtorno, mas diagnóstico exige avaliação clínica cuidadosa

Tempo de Leitura: 4 minutos

Tem gente saindo de vídeo de 30 segundos convencida de que tem TDAH. Bastou o assunto explodir nas redes sociais para listas de sintomas começarem a circular por toda parte. Distração. Impulsividade. Dificuldade de concentração. Muita gente se reconheceu nisso. O problema é que a linha entre comportamento comum e transtorno ficou cada vez mais confusa.

Esquecer onde deixou a chave, perder o foco numa conversa ou abrir dez abas ao mesmo tempo acontece com praticamente todo mundo. Principalmente numa rotina cheia de notificação, tela e excesso de estímulo. Só que o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade vai além disso.

Estudos estimam que o transtorno afete milhões de pessoas no mundo, incluindo cerca de 2,5% dos adultos.⁵ O diagnóstico, porém, exige avaliação médica cuidadosa. Histórico. Frequência dos sintomas. Impacto real na vida da pessoa.

“O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade é um transtorno. Todo mundo pode apresentar sintomas de desatenção, hiperatividade ou impulsividade ao longo da vida. Isso, sozinho, não significa absolutamente nada”, explica o médico psiquiatra Luiz Dickmann.

Essa discussão ficou mais confusa porque viver distraído virou quase uma experiência coletiva. A atenção está sendo disputada o tempo inteiro. Aplicativo, mensagem, vídeo curto, notificação. O cérebro quase nunca descansa.

No TDAH, porém, a dificuldade deixa de ser pontual. Ela começa a atrapalhar trabalho, estudo, relações pessoais e tarefas simples da rotina.¹

Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), usado internacionalmente em psiquiatria, o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade envolve um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade capaz de comprometer diferentes áreas da vida.¹

Quando os sintomas começam a atrapalhar a vida

O diagnóstico de TDAH não aparece porque alguém se distrai de vez em quando. A diferença costuma surgir quando os sintomas começam a bagunçar a rotina de verdade.

Prazo perdido. Trabalho acumulado. Dificuldade de organização. Sensação constante de estar atrasado para tudo. A pessoa tenta acompanhar. Mas parece que sempre tem alguma coisa escapando.

“Se eu simplesmente olhar os critérios isolados, praticamente todo mundo vai achar que tem TDAH”, afirma Dickmann.

O transtorno também envolve mecanismos cerebrais ligados à atenção e ao controle dos impulsos.

Durante a entrevista, Dickmann comparou o cérebro a um rádio tentando encontrar a estação correta no meio de várias interferências. Neurotransmissores ligados à atenção, como dopamina e noradrenalina, fariam parte desse ajuste fino. Quando esse equilíbrio falha, estímulos externos parecem disputar atenção o tempo inteiro.

Claro que dificuldade de concentração não acontece só no TDAH. Ansiedade, privação de sono, excesso de telas e sobrecarga mental também afetam atenção e memória.²

Parte da identificação com conteúdos sobre o transtorno vem daí. Muita coisa descrita na internet se mistura com efeitos comuns de uma rotina hiperconectada.

Isso também ajuda a explicar outro problema. Durante muito tempo, pessoas com TDAH foram vistas apenas como desorganizadas, preguiçosas ou “avoadas”.³

“Não é falta de caráter, não é falta de educação. É uma característica do funcionamento cerebral que, em alguns indivíduos, gera sofrimento e prejuízo real”, resume o psiquiatra.

O risco da banalização e o problema do subdiagnóstico

O aumento dos diagnósticos abriu um debate legítimo dentro da comunidade científica. Parte dos pesquisadores discute o risco de superdiagnóstico.⁴

Ao mesmo tempo, muita gente continua sem diagnóstico. Principalmente mulheres adultas.⁵

O TDAH pode aparecer de formas diferentes. Meninos costumam chamar mais atenção pela hiperatividade. Já meninas frequentemente apresentam quadros ligados à desatenção silenciosa. São crianças que não causam problemas na escola. Mas esquecem tarefas, vivem distraídas e têm dificuldade de acompanhar a rotina.

“Muitas meninas acabam chegando à vida adulta sem diagnóstico porque não davam trabalho na escola. Elas eram vistas apenas como distraídas ou ‘no mundo da lua’”, afirma Dickmann.

Existe ainda um aspecto que costuma surpreender muita gente: o hiperfoco. Algumas pessoas com TDAH conseguem passar horas concentradas em atividades pelas quais têm muito interesse. O problema aparece quando precisam manter atenção em tarefas repetitivas ou pouco estimulantes.

Redes sociais aceleraram informação e autodiagnóstico

As redes sociais ajudaram muita gente a procurar informação e buscar ajuda médica. Isso teve impacto positivo. Mas também abriu espaço para simplificações exageradas.

Em alguns casos, o autodiagnóstico ganhou força. E junto com ele veio o uso inadequado de medicamentos estimulantes por pessoas sem indicação médica.⁶

“O diagnóstico é clínico. Não depende apenas de marcar sintomas em uma lista”, reforça o psiquiatra.

O tratamento do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade pode incluir medicação, psicoterapia e estratégias de organização da rotina. Os medicamentos estimulantes são considerados tratamento de primeira linha para muitos pacientes com TDAH e podem ajudar bastante quando usados com acompanhamento adequado.⁶

Só que eles passaram a circular nas redes quase como ferramenta de produtividade. E isso distorce completamente a discussão.

Qualquer tratamento médico envolve critério, risco, efeito adverso e acompanhamento profissional.

A ciência avançou muito na compreensão do TDAH nas últimas décadas. Mesmo assim, o diagnóstico continua dependendo de contexto, escuta cuidadosa e avaliação profissional. Transtornos complexos não cabem em teste rápido de internet.

Assista a entrevista completa no Podcast do Saúde a Sério

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  1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5). 5th ed. Washington, DC: American Psychiatric Association; 2013. Disponível em: https://www.psychiatry.org/psychiatrists/practice/dsm
  2. Paulus MP, Squeglia LM, Bagot K, et al. Screen media activity and brain structure in youth: evidence and clinical implications. JAMA Pediatrics. 2019;173(9):861-870. DOI: https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2019.2058
  3. Faraone SV, Asherson P, Banaschewski T, et al. Attention-deficit/hyperactivity disorder. Nature Reviews Disease Primers. 2015;1:15020. DOI: https://doi.org/10.1038/nrdp.2015.20
  4. Kazda L, Bell K, Thomas R, et al. Overdiagnosis of attention-deficit/hyperactivity disorder in children and adolescents: a systematic scoping review. JAMA Network Open. 2021;4(4):e215335. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2778451
  5. Song P, Zha M, Yang Q, Zhang Y, Li X, Rudan I. The prevalence of adult attention-deficit hyperactivity disorder: A global systematic review and meta-analysis. Journal of Global Health. 2021;11:04009. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7916320/
  6. Advokat C. What are the cognitive effects of stimulant medications? Emphasis on adults with attention-deficit/hyperactivity disorder (ADHD). Neuroscience & Biobehavioral Reviews. 2010;34(8):1256-1266. DOI: https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2010.03.006

Deborah Lima

Jornalista do Saúde a Sério

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