
Leia o resumo da notícia
• O lecanemabe é o primeiro medicamento aprovado no Brasil que atua diretamente em um dos mecanismos biológicos do Alzheimer, e não apenas nos sintomas.
• A indicação é restrita a pessoas nas fases iniciais da doença, com confirmação diagnóstica por exames específicos e critérios genéticos bem definidos.
• Os estudos mostram que o medicamento não reverte o Alzheimer, mas pode desacelerar a progressão da perda cognitiva em parte dos pacientes.
• O tratamento exige acompanhamento especializado, com exames frequentes para monitorar possíveis efeitos adversos no cérebro.
• O acesso ao lecanemabe ainda enfrenta desafios, como custo, disponibilidade de exames e indefinições sobre cobertura no sistema de saúde.
• Apesar das limitações, a aprovação marca uma mudança importante na forma de tratar o Alzheimer e reforça a importância do diagnóstico precoce.
A aprovação de um novo medicamento para a doença de Alzheimer representa um passo importante no tratamento da condição no Brasil. A autorização foi concedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 22 de dezembro de 2025, mas o tema passou a ganhar destaque público agora, em janeiro de 2026, com a divulgação mais ampla da decisão. O aval regulatório permitiu o uso do Leqembi (lecanemabe), a primeira terapia aprovada no país voltada diretamente a um dos mecanismos biológicos associados à progressão da doença.¹ O medicamento é indicado para adultos nas fases iniciais do Alzheimer ou com comprometimento cognitivo leve, desde que exames confirmem a presença de alterações características da doença no cérebro.¹ Trata-se de um avanço relevante do ponto de vista científico, embora cercado por critérios rigorosos de uso e com benefício clínico considerado moderado.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, cerca de 1,2 milhão de pessoas vivem atualmente com Alzheimer no Brasil, e aproximadamente 100 mil novos casos são diagnosticados todos os anos.² Ainda assim, a maioria dos pacientes recebe o diagnóstico quando a doença já está em estágios mais avançados, com perdas cognitivas mais evidentes e menos opções terapêuticas disponíveis. Na prática, isso reduz significativamente o número de pessoas que poderiam se beneficiar do lecanemabe, já que o tratamento exige não apenas diagnóstico precoce, mas também critérios genéticos específicos e acesso a exames que ainda não são amplamente acessíveis, especialmente na rede pública.
A autorização concedida pela Anvisa permite a comercialização do medicamento no país, mas não significa acesso imediato. Até a publicação desta reportagem, não havia informação oficial sobre quando o lecanemabe estará disponível para prescrição e dispensação no Brasil.¹ Após o aval regulatório, ainda dependem de definição aspectos logísticos, comerciais e de preço por parte da fabricante. Também não há, até o momento, decisão sobre cobertura por planos de saúde ou incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), o que indica que, no curto prazo, o acesso tende a permanecer restrito.
Diagnóstico precoce e como o lecanemabe atua no cérebro
Para que o tratamento seja considerado, é essencial confirmar a presença das chamadas placas amiloides, estruturas formadas por uma proteína que se acumula no cérebro de pessoas com Alzheimer e está associada à morte das células nervosas. Esse é um dos principais marcadores biológicos da doença e sua identificação reforça a importância do diagnóstico precoce. Essa confirmação pode ser feita por meio da tomografia por emissão de pósitrons com marcador amiloide (PET-amiloide), um exame de imagem que identifica esses depósitos, ou pela análise do líquido cefalorraquidiano, obtido por punção lombar, que permite detectar alterações típicas do Alzheimer. Ambos exigem infraestrutura especializada e ainda têm acesso limitado no Brasil, o que se tornou um dos principais entraves à ampliação do uso da nova terapia.
Diferentemente dos medicamentos tradicionalmente utilizados no tratamento do Alzheimer, o lecanemabe não atua apenas sobre os sintomas. Ele foi desenvolvido para se ligar a essas placas amiloides e estimular o próprio sistema de defesa do organismo a removê-las do cérebro.³,⁴ A expectativa é que, ao reduzir esse acúmulo, seja possível desacelerar o avanço das lesões cerebrais e, com isso, retardar a piora da memória e de outras funções cognitivas. A proposta, portanto, é interferir no curso da doença, e não apenas aliviar seus sinais clínicos.³,⁴
O que mostram os estudos e como o tratamento se compara aos anteriores
A eficácia do lecanemabe foi avaliada em um grande estudo clínico internacional, publicado no New England Journal of Medicine.³ Ao longo de 18 meses, 1.795 pessoas com Alzheimer em estágio inicial foram acompanhadas. Os resultados indicaram que os pacientes que receberam o medicamento apresentaram uma progressão mais lenta da perda cognitiva e funcional em comparação aos que receberam placebo, medida por uma escala clínica usada para avaliar memória, orientação, raciocínio e capacidade de realizar atividades do dia a dia.
Ao final do acompanhamento, a diferença entre os grupos foi de 0,45 ponto nessa escala. Considerando que pacientes nessa fase costumam apresentar piora progressiva ao longo do tempo, esse resultado corresponde a uma desaceleração aproximada de 27% na progressão dos sintomas ao longo de 18 meses.³ Não se trata de reversão da doença, mas de um avanço mais lento. Para o leitor leigo, isso pode ser entendido como a possibilidade de preservar por mais tempo a autonomia e algumas funções cognitivas, ainda que o impacto percebido varie de pessoa para pessoa.
O lecanemabe faz parte de uma nova geração de medicamentos que atuam sobre esse mesmo mecanismo biológico do Alzheimer. Outro fármaco da mesma classe também foi aprovado no Brasil em 2025.⁵ Embora ambos tenham objetivos semelhantes, os estudos indicam diferenças sutis entre eles em termos de efeito e perfil de segurança. Na prática, a decisão sobre qual tratamento utilizar depende da avaliação médica individual, levando em conta características clínicas, genéticas e os riscos envolvidos.
Até a chegada dessas novas terapias, o tratamento do Alzheimer no Brasil se baseava exclusivamente em medicamentos voltados ao alívio dos sintomas, como os inibidores da colinesterase — donepezila, rivastigmina e galantamina — e a memantina, indicada para fases mais avançadas da doença.⁶ Esses medicamentos podem ajudar temporariamente na memória e no funcionamento diário, mas não interferem no curso da enfermidade.
Administração, riscos e quem pode se beneficiar
O lecanemabe é administrado por infusão intravenosa a cada duas semanas.¹ O tratamento pode se estender por longos períodos, desde que haja benefício clínico e não surjam efeitos adversos que indiquem sua interrupção. Por atuar diretamente no cérebro, seu uso exige acompanhamento rigoroso, com ressonâncias magnéticas periódicas para identificar possíveis alterações conhecidas como ARIA, um termo médico que se refere a pequenas mudanças detectadas nos exames de imagem, como inchaços ou sangramentos microscópicos.
Nos estudos clínicos, essas alterações foram observadas com maior frequência entre os pacientes que receberam o medicamento. A maioria dos casos, no entanto, não causou sintomas. Quando presentes, os sinais mais comuns foram dor de cabeça, confusão mental e tontura.³
A indicação aprovada pela Anvisa é restrita a pessoas nas fases iniciais da doença, quando ainda há autonomia para atividades cotidianas, embora já existam sinais claros de comprometimento cognitivo. Também é obrigatória a realização de um teste genético que identifica a presença de uma variante associada a maior risco de efeitos adversos durante o tratamento. Pessoas com uma cópia dessa variante podem usar o medicamento com acompanhamento mais rigoroso; já aquelas com duas cópias não devem utilizá-lo, devido ao risco elevado de complicações.¹
O tratamento também não é indicado para pessoas que fazem uso contínuo de anticoagulantes, em razão do risco aumentado de sangramentos no cérebro. O uso de outros medicamentos que interferem na coagulação deve ser avaliado caso a caso.¹ Essas restrições ajudam a explicar por que, ao menos neste momento, o impacto da aprovação tende a se concentrar em grupos bastante específicos.
A autorização do lecanemabe inaugura uma nova etapa no manejo da doença de Alzheimer no Brasil, ao introduzir uma terapia que busca interferir diretamente em um dos principais mecanismos da doença. Embora o benefício clínico seja modesto e o acesso ainda enfrente desafios estruturais, diagnósticos e econômicos, o avanço reforça a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento especializado. Para pacientes e familiares, o medicamento não representa uma cura, mas sinaliza uma mudança concreta no rumo da pesquisa e do cuidado, ao abrir caminho para intervenções cada vez mais direcionadas às fases iniciais da doença.
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- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). LEQEMBI (lecanemabe): novo registro. Brasília: Anvisa; 22 dez 2025. Acesso em: 8 jan 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/leqembi-lecanemabe-novo-registro
- Ministério da Saúde (BR). Alzheimer: condição afeta 1,2 milhão de pessoas no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde; out 2023. Acesso em: 8 jan 2026. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202310/alzheimer-condicao-afeta-1-2-milhao-de-pessoas-no-brasil
- van Dyck CH, Swanson CJ, Aisen P, Bateman RJ, Chen C, Gee M, et al. Lecanemab in Early Alzheimer’s Disease. New England Journal of Medicine. 2023;388(1):9–21. doi:10.1056/NEJMoa2212948
- Hampel H, Hardy J, Blennow K, Chen C, Perry G, Kim SH, et al. The amyloid-β pathway in Alzheimer’s disease. Molecular Psychiatry. 2021;26(10):5481–5503. doi:10.1038/s41380-021-01249-0
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa aprova medicamento para retardar avanço do Alzheimer. Brasília: Anvisa; 23 abr 2025. Acesso em: 8 jan 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-04/anvisa-aprova-medicamento-para-retardar-avanco-do-alzheimer
- Ministério da Saúde (BR). Portaria SAS/MS nº 491, de 23 de setembro de 2010. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas – Doença de Alzheimer. Brasília: Ministério da Saúde; 2010. Acesso em: 8 jan 2026. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2010/prt0491_23_09_2010.html