Onde Mora o Excesso: sinais de alerta quando o consumo vira problema

Um olhar sobre a linha tênue que separa o prazer, o hábito e a compulsão

Tempo de Leitura: 5 minutos

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O que define o “sinal de alerta” não é um episódio isolado — é o padrão: repetição, escalada, prejuízo e sofrimento associados.

A fronteira costuma aparecer quando entra em cena a perda de controle: a pessoa quer parar ou reduzir, mas não consegue de forma consistente.

O cenário atual encurta o caminho entre desejo e recompensa (um clique, um scroll, um pedido), e isso pode facilitar ciclos de repetição.

Em diferentes comportamentos, o “objeto” muda, mas o mecanismo pode ser parecido: urgência para aliviar tensão interna, alívio imediato e mal-estar depois.

Compulsão alimentar (TCA): episódios recorrentes de comer muito em pouco tempo com sensação intensa de perda de controle, sem compensações regulares; critérios clínicos incluem frequência semanal por 3 meses e sinais como comer rápido, até desconforto, sem fome física, esconder e sentir culpa/tristeza depois.

Compras compulsivas: comprar vira “atalho” para aliviar angústia/ansiedade/tristeza; sinais incluem preocupação persistente, itens supérfluos/repetidos, esconder compras e prejuízo financeiro; a classificação diagnóstica ainda é debatida.

Uso de substâncias: o excesso é reconhecido como transtorno quando o padrão continua apesar dos prejuízos, com conceitos como tolerância, abstinência e perda de controle.

Telas e internet: nem todo uso intenso é problema; o alerta é quando há conflito com a vida real, irritabilidade/ansiedade offline e tentativas frustradas de reduzir; jogos têm definição específica no ICD-11.

Um critério prático: quando o comportamento vira a principal forma de aliviar a dor interna e o preço aparece em saúde, dinheiro, relações, escola ou trabalho, buscar ajuda é cuidado — psicoterapia e avaliação médica, quando necessária, são portas de entrada.


Uma tela de compras que se atualiza sem parar, um prato que se esvazia em minutos quase sem que se perceba o sabor, ou horas que somem num fluxo infinito de conteúdo digital. Cenas assim, cada vez mais comuns no cotidiano, costumam ser lidas como pequenos exageros — deslizes típicos de um mundo que nos chama ao consumo o tempo todo. Mas até onde isso é só excesso? E em que momento vira sinal de que algo pede atenção?

Raramente dá para responder olhando um episódio isolado. O que importa é o padrão: aquilo que se repete, cresce e começa a cobrar um preço. A fronteira entre um impulso pontual e um quadro de compulsão aparece quando entra em cena a perda de controle e, com ela, o sofrimento.

Quando o excesso deixa de ser exagero e vira compulsão

Também existe um contexto que empurra essa fronteira para mais perto. Hoje, a fricção do “não” é menor: comprar é um clique, comer está sempre à mão e o conteúdo não tem fim. A recompensa vem rápido. O arrependimento, quando vem, chega depois.

É nesse terreno que hábitos diferentes passam a se parecer. Muda o objeto do consumo, mas a urgência é parecida. Vem a tentativa de aliviar uma tensão interna, a dificuldade de parar e a sensação de que, aos poucos, algo escapou do controle.

Compulsão alimentar: quando comer vira perda de controle

Um dos exemplos mais estudados é o Transtorno de Compulsão Alimentar (TCA), também conhecido como binge eating disorder. Ele não envolve, de forma regular, as “compensações” que muita gente associa a transtornos alimentares — como provocar vômito, jejuar ou exagerar no exercício para “anular” o que comeu.¹ A característica central são episódios recorrentes de ingestão de uma quantidade de comida muito maior do que a maioria das pessoas consumiria em um período semelhante, acompanhados por uma sensação intensa de perda de controle.¹²

Na prática clínica e na pesquisa, considera-se o quadro quando esses episódios acontecem ao menos uma vez por semana por, no mínimo, três meses e vêm acompanhados de sinais como comer muito rápido, comer até ficar desconfortavelmente cheio ou comer grandes quantidades sem fome física.¹² Muitas pessoas também relatam comer escondido por vergonha e, depois, serem tomadas por culpa, repulsa, tristeza ou desânimo.¹²

Em estimativas globais, a prevalência mundial para os anos 2018–2020 foi estimada em 0,6%–1,8% em mulheres adultas e 0,3%–0,7% em homens adultos.²

Compras compulsivas: quando comprar vira alívio e depois culpa

O mesmo mecanismo pode aparecer na compra compulsiva, também descrita em parte da literatura como “oniomania” e, em inglês, como compulsive buying. Aqui, comprar deixa de ser só escolha ou desejo por um objeto e vira uma espécie de “atalho” para aliviar angústia, ansiedade ou tristeza. O alívio vem na hora. A conta, quase sempre, chega depois.

Os sinais de alerta incluem preocupação persistente com compras, aquisição de itens supérfluos ou repetidos, o hábito de esconder compras e, inevitavelmente, o descontrole financeiro — que pode virar dívida, conflito e vergonha.³ Assim como na compulsão alimentar, o ciclo tende a se fechar com culpa e arrependimento, sem que isso, por si só, impeça a repetição. A compra compulsiva também é frequentemente associada a quadros como depressão, ansiedade e baixa autoestima.³

As estimativas variam bastante porque os estudos usam métodos e instrumentos diferentes. Um cuidado de rigor é importante: apesar de ser um fenômeno clínico bem descrito, sua classificação diagnóstica ainda é debatida e não aparece como um diagnóstico independente e padronizado em todas as classificações.³⁴

Uso de substâncias e uso problemático de internet: quando o consumo ocupa o lugar da vida

Quando se fala em uso de substâncias, o conceito de excesso como doença fica mais fácil de reconhecer. Esses transtornos são definidos por um padrão que continua apesar dos prejuízos evidentes. Três ideias ajudam a entender o quadro: tolerância, quando a pessoa precisa de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito; abstinência, quando surgem sintomas físicos e psicológicos na ausência da substância; e a perda de controle, isto é, a dificuldade real de parar ou reduzir.⁵

Com as telas, a conversa exige mais nuance. Há um campo de estudo crescente sobre uso problemático de internet e tecnologias digitais — às vezes chamado, nas buscas, de dependência digital ou “vício em telas”. Não é um diagnóstico único e consensual em todas as classificações, mas o padrão descrito na literatura se aproxima do que vemos em outras dependências quando há conflito com outras áreas da vida, irritabilidade e ansiedade ao ficar offline e tentativas frustradas de reduzir o tempo de uso.⁶ No caso específico dos jogos, a Organização Mundial da Saúde define o transtorno do jogo (gaming disorder) no ICD-11.⁷

Aí está o ponto: telas são um ambiente. Nem todo uso intenso é problema. O sinal de alerta aparece quando a vida real perde espaço de forma repetida e mensurável — e quando a pessoa percebe que não consegue reorganizar esse equilíbrio, mesmo querendo.

Se ficar difícil enxergar onde termina o hábito e começa o sofrimento, um critério prático ajuda: quando o comportamento vira a forma principal de aliviar a dor interna, mas o preço cobrado aparece em dívidas, saúde, relações, desempenho escolar ou trabalho, buscar ajuda deixa de ser “drama” e vira cuidado. Psicoterapia e avaliação médica, quando necessária, costumam ser portas de entrada adequadas para entender com calma o que está acontecendo e construir alternativas mais sustentáveis.

No fim, identificar a fronteira entre hábito e compulsão é o primeiro passo. O consumo deixa de ser saudável quando o prazer vira necessidade, a escolha vira impulso e o alívio vira um ciclo de culpa e repetição.

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Eduardo A Amaro

Psicólogo especializado em neurociência e comportamento humano pela PUC-SP, com atuação dedicada à promoção da saúde mental no contexto hospitalar e materno-infantil

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