Parou a caneta, engorda de novo?

Parte dos quilos perdidos pode voltar após a suspensão de semaglutida e tirzepatida. Entenda também por que o emagrecimento pode chegar a um platô e o que isso significa para a continuidade do tratamento

Tempo de Leitura: 7 minutos

A balança para de cair. Depois de semanas ou meses vendo os números diminuírem, chega um momento em que o ritmo muda. A alimentação segue controlada, a caneta continua sendo usada, mas o resultado já não aparece com a mesma velocidade. Para quem usa as chamadas canetas emagrecedoras, duas dúvidas costumam surgir quase juntas: o medicamento deixou de funcionar? E, se eu parar de usar, vou engordar novamente?

Os ensaios clínicos já ajudam a responder parte da segunda pergunta. Com semaglutida e tirzepatida, participantes que interromperam a medicação voltaram a ganhar peso.¹ ² Isso não permite prever quantos quilos cada pessoa ganhará depois da suspensão, nem significa que todos retornarão ao ponto de partida.

Antes de falar em interrupção, porém, é preciso entender o que acontece quando o emagrecimento desacelera. A endocrinologista Glaucia Carneiro, especialista em obesidade e doença metabólica e professora da pós-graduação da Universidade Federal de São Paulo, explica: “Vai ter um momento que ele vai parar de perder peso. Isso é o corpo se defendendo da perda de peso.”

Platô no emagrecimento: quando o organismo pisa no freio

No começo do emagrecimento, a queda na balança costuma ser mais evidente. Com o passar do tempo, porém, o ritmo pode diminuir até chegar a uma fase em que o peso varia pouco durante várias semanas. Esse período é chamado de platô.

O fenômeno faz parte das adaptações do organismo à perda de peso. Entre elas estão mudanças em mecanismos que regulam a fome e a saciedade e podem dificultar a continuidade do emagrecimento no mesmo ritmo.³

Uma pesquisa publicada no New England Journal of Medicine, em 2011, acompanhou 50 adultos com sobrepeso ou obesidade submetidos a uma dieta de muito baixa caloria. Após a perda de peso, foram identificadas alterações em diferentes hormônios envolvidos no controle do apetite. Um ano depois, várias dessas mudanças ainda estavam presentes, acompanhadas por maior sensação de fome.³

A pesquisa não avaliou pessoas tratadas com semaglutida ou tirzepatida. Ela ajuda a compreender parte das adaptações biológicas que ocorrem depois do emagrecimento, mas não explica, sozinha, o platô durante o uso dessas medicações.³

A estabilização da balança não significa, por si só, que o medicamento deixou de funcionar.

Em uma análise posterior (post hoc) publicada na Clinical Obesity, em 2025, foram avaliados dados de participantes tratados com tirzepatida que aderiram à terapia e haviam eliminado pelo menos 5% do peso inicial. No SURMOUNT-1, o tempo mediano até a estabilização variou de aproximadamente 24 a 36 semanas, conforme o índice de massa corporal inicial. Na semana 72, entre 87,6% e 90,2% dos participantes avaliados já tinham alcançado o critério de platô.⁴

Nessa análise, platô não significava uma balança absolutamente imóvel. A estabilização foi definida como uma variação inferior a 5% ao longo de 12 semanas, desde que esse padrão permanecesse nos períodos seguintes.⁴

Com a semaglutida, a curva segue trajetória parecida. Em um ensaio publicado na Nature Medicine, em 2022, 304 adultos foram acompanhados durante dois anos. O emagrecimento começou a se estabilizar por volta da semana 60 e permaneceu sustentado até a semana 104. Ao final, quem recebeu semaglutida estava, em média, 15,2% mais leve do que no início do estudo. No grupo placebo, a redução média foi de 2,6%.⁵

Em termos concretos, uma pessoa que começasse o acompanhamento com 100 quilos e apresentasse exatamente a redução média observada no grupo da semaglutida estaria com cerca de 84,8 quilos ao final dos dois anos. É apenas um exemplo matemático para facilitar a leitura do percentual, já que a resposta varia de pessoa para pessoa.

O ensaio teve financiamento da indústria farmacêutica, informação relevante para a leitura crítica dos resultados.⁵

O platô descreve uma estabilização da curva, mas não determina, sozinho, uma mudança na estratégia terapêutica. A condução da fase seguinte depende da avaliação clínica, da resposta ao tratamento e dos objetivos de cada paciente.

A balança parou. E agora?

É justamente nessa fase que uma dúvida aparece com frequência no consultório. Glaucia resume: “Cheguei no platô. O que eu faço agora?”

A resposta exige olhar além dos quilos que ainda poderiam ser eliminados. Entram nessa avaliação o resultado alcançado, as condições associadas à obesidade, os efeitos adversos, a alimentação, a atividade física, a composição corporal e os objetivos de cada paciente.

Em uma publicação da Organização Mundial da Saúde no JAMA, em dezembro de 2025, que apresenta a diretriz sobre o uso dessas terapias, a obesidade é descrita como uma condição crônica e recidivante, que pode exigir cuidado ao longo da vida. O documento recomenda, de forma condicional, que terapias baseadas em GLP-1 possam ser utilizadas no longo prazo em adultos com obesidade. A certeza da evidência para essa recomendação foi classificada como moderada.⁶

Ainda há lacunas sobre eficácia e segurança em períodos muito prolongados, além de questões como ajuste de doses e eventual interrupção. A discussão envolve também acesso e custo, fatores capazes de interferir na continuidade da terapia.⁶

Outra pergunta recorrente aparece nesse momento. Glaucia resume: “Até quando eu vou ter que tomar esse remédio?”

Para a endocrinologista, a resposta passa pela natureza da doença. Sobre a duração do tratamento, ela afirma: “A ideia é ser usado no longo prazo.”

O que acontece quando a semaglutida é retirada

Um ensaio clínico publicado no JAMA, em 2021, oferece uma comparação direta.

Ao todo, 902 participantes iniciaram a fase de tratamento com semaglutida. Depois de 20 semanas, os 803 que chegaram à etapa de randomização foram divididos em dois grupos. Desses, 535 permaneceram com a medicação e 268 passaram a receber placebo. A intervenção relacionada ao estilo de vida foi mantida para todos.¹

**Nas 48 semanas seguintes, quem continuou usando semaglutida perdeu mais 7,9% do peso corporal, em média. Entre aqueles que passaram a receber placebo, houve ganho médio de 6,9%.**¹

Esse 6,9% foi calculado sobre o peso corporal no momento da retirada. Depois de uma fase inicial em que todos haviam emagrecido, quem permaneceu com o medicamento continuou perdendo peso, enquanto o grupo placebo começou a ganhar novamente.¹

Há uma limitação importante. Chegaram à fase de comparação participantes que haviam completado as primeiras 20 semanas e alcançado a dose de manutenção. Os resultados não podem, portanto, ser transportados automaticamente para qualquer pessoa que utilize semaglutida.

O ensaio teve financiamento da indústria farmacêutica, que também participou de etapas como desenho do estudo, análise dos dados e preparação do manuscrito.¹

Outro trabalho, publicado em Diabetes, Obesity and Metabolism, em 2022, acompanhou durante um ano uma subamostra de 327 participantes após o fim da terapia. Entre aqueles que haviam recebido semaglutida, a perda média nas primeiras 68 semanas havia sido de 17,3% do peso inicial. Ao término desse período, foram suspensos tanto o fármaco quanto a intervenção estruturada sobre estilo de vida.⁷

**Ao longo dos 12 meses seguintes, houve recuperação média de 11,6 pontos percentuais. Ao final, os participantes ainda estavam, em média, 5,6% abaixo do peso inicial. Em termos proporcionais, cerca de dois terços do emagrecimento alcançado anteriormente haviam sido recuperados.**⁷

Também houve perda de parte dos benefícios cardiometabólicos obtidos durante o uso da semaglutida. Vários indicadores se aproximaram novamente dos valores registrados antes do tratamento.⁷

A extensão também teve financiamento da indústria farmacêutica.⁷

O que acontece após a retirada da tirzepatida?

Um ensaio publicado no JAMA, em 2024, encontrou comportamento semelhante.

Antes da divisão dos grupos, todos os participantes receberam tirzepatida durante 36 semanas. Os 670 adultos que chegaram à etapa seguinte haviam perdido, em média, 20,9% do peso inicial. Depois disso, metade permaneceu com a medicação e a outra metade passou a receber placebo.²

**Nas 52 semanas seguintes, quem continuou usando tirzepatida perdeu mais 5,5%, em média. Entre aqueles que tiveram o medicamento retirado, houve ganho médio de 14% em relação ao peso registrado no momento da divisão dos grupos.**²

Esse 14% incidiu sobre um peso que já havia sido reduzido nas 36 semanas anteriores. Portanto, os participantes não terminaram o estudo 14% mais pesados do que eram antes do tratamento.²

A diferença aparece também na manutenção do emagrecimento. **Ao final do acompanhamento, 89,5% das pessoas que continuaram usando tirzepatida preservaram pelo menos 80% da redução inicial. Entre aquelas que passaram ao placebo, essa proporção foi de 16,6%.**²

Isso corresponde a quase nove em cada dez participantes entre os que permaneceram com a tirzepatida e menos de dois em cada dez entre os que interromperam.²

Também aqui há uma limitação. Antes da randomização, os 670 participantes já haviam completado 36 semanas de tratamento com tirzepatida. Os resultados descrevem pessoas que conseguiram chegar a essa etapa do estudo e não representam automaticamente a experiência de qualquer paciente que inicie o medicamento.²

O ensaio teve financiamento da indústria farmacêutica, com participação do patrocinador em etapas como desenho, coleta, análise e interpretação dos dados e preparação do manuscrito. Alguns autores também tinham vínculos com a empresa patrocinadora.²

Os resultados mostram médias de grupos acompanhados em condições específicas de pesquisa. Não funcionam como previsão individual.

Então, parou a caneta, engorda de novo?

Sobre o que pode acontecer após a suspensão, Glaucia resume: “Se parar o medicamento, pode voltar ao peso.”

O “pode” faz diferença.

Os estudos com semaglutida e tirzepatida mostram que o peso pode voltar a subir depois da retirada, mas a intensidade varia entre as pessoas.¹ ² ⁷ As adaptações biológicas observadas após o emagrecimento ajudam a entender parte desse processo. O estudo de 2011 encontrou alterações persistentes em hormônios ligados à regulação do apetite e maior sensação de fome um ano depois da perda de peso induzida por dieta.³

A recomendação condicional da OMS para o uso prolongado dessas terapias também parte do reconhecimento da obesidade como condição crônica e recidivante.⁶

Atingir determinado número na balança ou deixar de emagrecer no mesmo ritmo dos primeiros meses não determina o fim da terapia.

Ainda há dados limitados sobre titulação, manutenção e descontinuação dessas medicações. A própria diretriz da OMS inclui essas questões entre as áreas que precisam de mais evidências.⁶

Chegar ao platô não funciona como sinal automático para aumentar a dose, reduzir a quantidade aplicada, espaçar as injeções ou abandonar o medicamento.

Sobre a decisão de manter, modificar ou interromper a terapia, Glaucia afirma: “O médico vai decidir se é momento de parar, ou de fazer a manutenção, ou tomar o remédio para sempre. Vai ser individualizada essa conduta.”

Parte do peso perdido pode voltar. Quanto, em quanto tempo e o que ocorrerá com cada paciente não têm uma resposta única. Pesam nessa decisão o resultado alcançado, os benefícios obtidos, a tolerabilidade, o custo e a melhor forma de conduzir o tratamento.

A ciência já descreve com bastante clareza o que acontece durante a fase de perda de peso com esses medicamentos. Ainda faltam respostas sobre como sustentar esse benefício ao longo dos anos, com segurança, acesso e uma estratégia adequada para cada paciente.

¹ Rubino D, Abrahamsson N, Davies M, et al. Effect of Continued Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Placebo on Weight Loss Maintenance in Adults With Overweight or Obesity: The STEP 4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2021;325(14):1414-1425. DOI: 10.1001/jama.2021.3224.
https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2777886

² Aronne LJ, Sattar N, Horn DB, et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024;331(1):38-48. DOI: 10.1001/jama.2023.24945.
https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2812936

³ Sumithran P, Prendergast LA, Delbridge E, et al. Long-Term Persistence of Hormonal Adaptations to Weight Loss. New England Journal of Medicine. 2011;365(17):1597-1604. DOI: 10.1056/NEJMoa1105816.
https://www.nejm.org/doi/abs/10.1056/NEJMoa1105816

⁴ Horn DB, Kahan S, Batterham RL, et al. Time to Weight Plateau With Tirzepatide Treatment in the SURMOUNT-1 and SURMOUNT-4 Clinical Trials. Clinical Obesity. 2025;15(3):e12734. DOI: 10.1111/cob.12734.
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/cob.12734

⁵ Garvey WT, Batterham RL, Bhatta M, et al. Two-year Effects of Semaglutide in Adults With Overweight or Obesity: the STEP 5 Trial. Nature Medicine. 2022;28:2083-2091. DOI: 10.1038/s41591-022-02026-4.
https://www.nature.com/articles/s41591-022-02026-4

⁶ Celletti F, Farrar J, De Regil L. World Health Organization Guideline on the Use and Indications of Glucagon-Like Peptide-1 Therapies for the Treatment of Obesity in Adults. JAMA. Publicado online em 1º de dezembro de 2025; 2026;335(5):434-438. DOI: 10.1001/jama.2025.24288.
https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2842199

⁷ Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Weight Regain and Cardiometabolic Effects After Withdrawal of Semaglutide: The STEP 1 Trial Extension. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2022;24(8):1553-1564. DOI: 10.1111/dom.14725.
https://dom-pubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/dom.14725

Deborah Lima

Jornalusta especializada em saúde

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