Passamos mais mal no calor? Como as atuais ondas afetam a saúde

Cansaço, irritação e noites mal dormidas no verão podem ser mais do que desconforto. Entenda o que a ciência diz sobre os efeitos do calor intenso no organismo e por que algumas pessoas são mais vulneráveis

Tempo de Leitura: 5 minutos

Leia o Resumo – Para Levar a Sério
  • O calor intenso não é apenas desconforto: em determinadas condições, ele pode provocar alterações fisiológicas relevantes e aumentar o risco de adoecimento.
  • O corpo reage ao calor ativando mecanismos de termorregulação, como suor e vasodilatação, mas esses recursos têm limite, especialmente em exposições prolongadas.
  • Desidratação e estresse térmico podem surgir mesmo sem sensação clara de sede, sobretudo em crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
  • As ondas de calor estão associadas ao aumento de internações e mortes por causas cardiovasculares, principalmente entre populações mais vulneráveis.
  • Temperaturas elevadas prejudicam o sono, com impacto acumulativo sobre atenção, desempenho físico e saúde metabólica.
  • Atividade física em dias muito quentes e a exposição a ilhas de calor urbanas ampliam o risco de sobrecarga térmica.
  • Gestantes e pessoas com doenças respiratórias tendem a sentir os efeitos do calor de forma mais intensa.
  • Alimentação inadequada, conservação incorreta de alimentos e exposição solar excessiva completam o quadro de riscos associados ao calor.
  • Reconhecer os sinais do corpo e adaptar hábitos com base em evidência científica é parte essencial do cuidado com a saúde em períodos de calor intenso.

Todo verão traz a mesma sensação: cansaço, irritação, noites mal dormidas. A dúvida surge quase automaticamente — isso é apenas desconforto ou o calor pode, de fato, fazer mal à saúde? Em um cenário de temperaturas cada vez mais altas e ondas de calor mais frequentes, essa pergunta deixou de ser trivial. A ciência mostra que, em determinadas condições, o calor intenso vai além do incômodo e pode desencadear alterações importantes no funcionamento do corpo¹.

Quando a temperatura ambiente sobe, o organismo entra em um esforço contínuo para manter o equilíbrio interno, conhecido como homeostase². Para isso, ativa mecanismos de termorregulação, como o aumento do fluxo sanguíneo para a pele e a intensificação do suor. O problema surge quando essas respostas se prolongam ou deixam de dar conta da sobrecarga térmica — situação que se torna frequente durante períodos prolongados de calor intenso, especialmente em ambientes fechados ou pouco ventilados. Nessas circunstâncias, o calor passa a representar um risco concreto à saúde¹.

O que acontece no corpo quando a temperatura sobe

A transpiração é a principal estratégia do corpo para perder calor, mas ela vem acompanhada de uma perda significativa de água e sais minerais, como sódio e potássio³. Sem reposição adequada, surgem sinais que costumam ser banalizados no dia a dia: fadiga intensa, tontura, dor de cabeça, queda da pressão arterial e dificuldade de concentração. Do ponto de vista fisiológico, esses sintomas indicam desidratação e estresse térmico², efeitos bem conhecidos da exposição ao calor intenso.

Confiar apenas na sede, porém, não basta. Estudos mostram que crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas têm maior risco de desidratação mesmo sem sentir sede³. O uso de medicamentos comuns, como diuréticos, anti-hipertensivos e antidepressivos, também pode interferir no controle de líquidos e na resposta cardiovascular, aumentando a vulnerabilidade aos efeitos do calor⁴.

Calor intenso, coração e circulação: um risco bem documentado

Os impactos do calor intenso sobre o sistema cardiovascular estão entre os achados mais consistentes da literatura científica. Para facilitar a perda de calor, o corpo reduz a resistência dos vasos sanguíneos, o que pode levar à queda da pressão arterial e aumentar a sobrecarga sobre o coração. Estudos epidemiológicos mostram aumento de internações e mortes por causas cardiovasculares durante ondas de calor, sobretudo entre idosos e pessoas com doenças cardíacas pré-existentes⁵.

Essas evidências ajudam a entender por que o calor extremo, especialmente quando ocorre de forma repetida ao longo de dias ou semanas, é hoje reconhecido como um problema de saúde pública. A exposição prolongada ao calor intenso tende a esgotar os mecanismos de adaptação do organismo, elevando o risco de descompensações, principalmente entre os mais vulneráveis.

Sono, esforço físico e ambiente urbano agravam os efeitos

O calor intenso também afeta diretamente o sono. Temperaturas elevadas dificultam a queda da temperatura corporal central — etapa necessária para adormecer e manter o sono. Estudos de grande escala indicam que noites mais quentes estão associadas a menos horas de descanso e a um sono mais fragmentado, com efeitos acumulativos sobre a saúde metabólica, cardiovascular e cognitiva⁶. Na prática, isso se traduz em acordar mais cansado e menos atento no dia seguinte.

A prática de atividade física em dias de calor intenso pode intensificar esse quadro. O esforço aumenta a produção de calor interno e acelera a perda de líquidos, elevando o risco de exaustão térmica e colapso circulatório, sobretudo em pessoas que não estão adaptadas a essas condições². Em áreas urbanas, o problema se agrava com as ilhas de calor — regiões com grande concentração de concreto, pouca vegetação e ventilação reduzida, onde as temperaturas permanecem elevadas mesmo à noite¹.

Quem sofre mais com o calor intenso

Alguns grupos, porém, sentem os efeitos do calor intenso de forma ainda mais marcada. Gestantes, por exemplo, já passam por importantes adaptações circulatórias e térmicas, e a exposição prolongada a altas temperaturas está associada a maior risco de parto prematuro e baixo peso ao nascer, especialmente durante ondas de calor⁷.

Quem tem doenças respiratórias crônicas, como asma e DPOC, também pode apresentar piora dos sintomas em períodos de calor intenso. Estudos populacionais indicam que a combinação entre altas temperaturas e maior concentração de poluentes atmosféricos está associada ao aumento de crises respiratórias e da procura por atendimento médico⁵.

A alimentação também tem papel importante, ainda que menos evidente. Dietas muito ricas em gordura aumentam a produção de calor metabólico e podem intensificar o mal-estar térmico. Já alimentos com maior teor de água e micronutrientes contribuem para a hidratação e o equilíbrio do organismo³. Em períodos quentes, há ainda o risco adicional de contaminação dos alimentos, já que temperaturas elevadas favorecem a proliferação de microrganismos⁸.

A exposição solar excessiva completa o quadro. Mesmo sem queimaduras aparentes, a radiação ultravioleta é reconhecida como carcinogênica e está associada ao envelhecimento precoce da pele e ao aumento do risco de câncer cutâneo⁹.

Diante de ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes, a pergunta inicial ganha outra dimensão. Em muitos casos, passamos mais mal no calor porque ele realmente pode adoecer. Reconhecer quando o desconforto deixa de ser apenas sensação e passa a ser um sinal de alerta do corpo é parte fundamental do cuidado com a saúde. Informação baseada em evidências, atenção aos sinais do dia a dia e adaptação de hábitos seguem sendo caminhos essenciais para atravessar períodos de calor intenso com mais segurança e equilíbrio.

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¹ Mora C, Dousset B, Caldwell IR, et al. Global risk of deadly heat. Nature Climate Change. 2017;7:501–506. https://www.nature.com/articles/nclimate3322

² Sawka MN, Wenger CB, Pandolf KB. Thermoregulatory responses to acute exercise-heat stress and heat acclimation. Comprehensive Physiology. 2011;1(4):1883–1928. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23733692/

³ Popkin BM, D’Anci KE, Rosenberg IH. Water, hydration, and health. Nutrition Reviews. 2010;68(8):439–458. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20646222/

⁴ Kenney WL, Craighead DH, Alexander LM. Heat waves, aging, and human cardiovascular health. Medicine & Science in Sports & Exercise. 2014;46(10):1891–1899. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24781806/

⁵ Vicedo-Cabrera AM, Scovronick N, Sera F, et al. The burden of heat-related mortality attributable to recent human-induced climate change. Nature Climate Change. 2021;11:492–500. https://www.nature.com/articles/s41558-021-01058-x

⁶ Minor K, Bjerre-Nielsen A, Jonasdottir SS, et al. Rising temperatures erode human sleep globally. One Earth. 2022;5(5):534–549. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2590332222000919

⁷ Chersich MF, Pham MD, Areal A, et al. Associations between high temperatures in pregnancy and adverse birth outcomes. BMJ. 2020;371:m3811. https://www.bmj.com/content/371/bmj.m3811

⁸ Smith JL, Fratamico PM. Emerging foodborne pathogens and climate change. Annual Review of Food Science and Technology. 2022;13:421–444. https://www.annualreviews.org/doi/10.1146/annurev-food-052720-025728

⁹ International Agency for Research on Cancer (IARC). Solar and ultraviolet radiation. IARC Monographs on the Evaluation of Carcinogenic Risks to Humans, Volume 100D. https://monographs.iarc.who.int/list-of-classifications

Equipe Saúde a Sério

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