Pedra nos rins: o que é necessário saber para evitar mal-entendidos nas redes sociais

Recentemente artigos científicos publicados trouxeram à tona dúvidas sobre o tratamento clínico e prevenção dos cálculos renais

Tempo de Leitura: 4 minutos

É comum ouvir no consultório os pacientes dizerem frases como “Eu sempre tive cálculos”; “Minha família toda tem”; ou ainda “A cada ano elimino uma pedrinha”. Pensamentos assim podem simplificar ou ainda normalizar um problema que tem impactos negativos para a qualidade de vida e saúde dos rins. Sabe-se que, uma em cada dez pessoas desenvolverá cálculo urinário em algum momento.

Recentemente artigos científicos publicados trouxeram à tona dúvidas sobre o tratamento clínico e prevenção dos cálculos renais. Além disso, algumas novidades cientificas foram publicadas sobre os cálculos renais que trouxeram o assunto às mídias sociais.

O primeiro artigo de metanálise relacionava o aumento significativo do risco de câncer renal em indivíduos com história de cálculo renal recorrente. Este assunto é cientificamente novo, e, portanto, demanda de mais dados para que se comprove sua real importância; porém já denota a obrigação do segmento clínico dos pacientes formadores de pedras renais.

O outro artigo, publicado em um jornal médico renomado, “The Lancet”, avaliou o uso de uma ferramenta eletrônica junto ao tratamento motivacional de apoio (coaching) para disciplinar o paciente a manter ingesta hídrica suficiente para atingir mais de dois litros de diurese por dia. A ferramenta testada auxilia o paciente no controle da ingestão de água.

O estudo não mostrou impacto significativo na redução de eventos clínicos de cálculos no grupo que a usou, quando comparada ao grupo que recebeu “apenas” orientação médica para aumentar ingesta de líquidos, pois ambos os grupos apresentaram aumento da diurese e a diferença deste aumento não impactou nos desfechos do estudo. Porém, decorrente de uma má interpretação, surgiram comentários equivocados em redes sociais de que ingerir líquidos não interfere na prevenção de cálculos renais.

Absolutamente, a ingestão de líquidos em abundância é recomendada, ao passo que se aconselha também diminuir o consumo de sais; priorizar frutas na dieta e manter-se com peso adequado. Além disso, tratar doenças crônicas de forma adequada e urinar mais que dois litros ao dia são medidas cientificamente provadas capazes de reduzir riscos de formação de cálculos.

Importante dizer que, os rins são órgãos vitais, pois exercem funções de controle do balanço hídrico, eletrolítico (sais e minerais) e endocrinológicas mais complexas com grande importância na manutenção da saúde cardiovascular.

No entanto, os rins são amplamente conhecidos pela produção de urina, que carrega para fora do corpo os produtos da filtração do sangue. É fácil notar as variações na coloração de urina durante o dia; essas mudanças são resultantes da concentração de solvente (água) e soluto (sais) que indivíduos normais ingerem ou produzem ao longo de suas atividades.

Quando a urina é muito concentrada (supersaturada), seja por pouca água ou por excesso de sais, pode gerar cristais destes sais e, quando estes cristais se juntam, formam estruturas sólidas chamadas cálculos renais (pedra renal). Podemos formar pedras nos rins se apresentarmos pouco volume urinário e/ou muito sais na urina.

Mas não para por aí, existem alguns fatores intrínsecos aos rins que tentam coibir a formação de cristais, protegendo o indivíduo contra a formação de pedras. O elemento protetor mais conhecido é o citrato urinário. Algumas situações clínicas adquiridas, ou herdadas geneticamente, fazem com que haja deficiência de citrato, aumentando o risco de produção dos cálculos.

Contrariamente ao citrato, há situações clínicas (também hereditárias ou adquiridas) em que a concentração de cálcio na urina seja permanentemente alta, promovendo saturação de sais de cálcio e, portanto, a formação de cálculos. Às vezes, as duas situações (citrato baixo e cálcio alto) ocorrem concomitantemente, acrescentado maior chance de formação de pedras.

O problema dos cálculos urinários é que eles podem obstruir o fluxo de urina e gerar muita dor. Geralmente é descrita como “a pior dor” (ganhando das contrações do parto), de início súbito, geralmente em indivíduos com 40 anos em média e previamente saudáveis. Comumente, há necessidade de controle da dor em ambiente de pronto-atendimento, pois, além de muito intensa, ela vem acompanhada de náuseas e vômitos, definindo a famosa e temida “cólica renal”.

Tratamentos e o que se pode fazer para reduzir a formação das pedras.

Aumentar a ingesta de água, além de diminuir o consumo de sais (sódio, sal de cozinha), proteínas animais e controlar ou tratar doenças crônicas diminuem a incidência de cálculos. Sim, mudanças comportamentais e dietéticas são comprovadamente eficazes. Assim como aumentar o citrato urinário por auxílio medicamentoso e/ou dietético como nas dietas ricas em frutas como: melão, maracujá, laranja, kiwi, dentre outras.

Os cálculos mais comuns são compostos por sais de oxalato de cálcio (CaOx) e perfazem quase 80% dos casos. Há outros tipos de cálculos que podem ser oriundos de situações mais especificas como cálculos de ácido úrico, fosfato de cálcio e estruvita (infecciosos). Portanto, fica clara a importância de se analisar o tipo de cálculo, para direcionar o tratamento preventivo.

Em alguns casos as pedras podem se tornar volumosas demandando cirurgias para fragmentar e retirá-las do trato urinário, quanto maior o cálculo mais complexo será o tratamento. Atualmente, a base do tratamento ativo dos cálculos urinários é fundamentada na endoscopia do trato urinário.

Pequenos endoscópios são introduzidos nas vias urinárias e após localizada a pedra, esta é fragmentada e seus fragmentos retirados ou aspirados. Incisões e internações longas deixaram de ser necessárias, salvo situações específicas. Esse é o tratamento minimamente invasivo. Há também a possibilidade de se fragmentar o cálculo sem invadir o corpo, por via extracorpórea, sendo esse tratamento indicado para casos bem selecionados; neste caso o tratamento ativo passa a ser não invasivo.

A mensagem final é: procure ouvir seu urologista sobre as modalidades de tratamento de seu cálculo renal, lembrando que, quanto mais cedo traçarmos o planejamento terapêutico, menor serão os riscos de intervenções complexas e sofrimento do paciente.

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Dr. Renato Nardi Pedro

Coordenador Departamento de Endourologia e Litíase da Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo.

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