
Quando alguém próximo demonstra sofrimento intenso, uma pergunta costuma provocar receio: perguntar diretamente se a pessoa está pensando em suicídio. E se falar sobre o assunto despertar uma ideia que ainda não existia?
Para a psicóloga Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (Abratef), esse medo pode dificultar uma conversa necessária. Sobre a possibilidade de a pergunta estimular um comportamento suicida, ela é direta: “Não, isso é um mito”.
A ciência investiga essa preocupação há mais de duas décadas. Um ensaio randomizado publicado no JAMA em 2005 avaliou 2.342 estudantes de seis escolas de ensino médio do estado de Nova York, nos Estados Unidos. Não houve aumento de sofrimento emocional ou de ideação suicida entre os jovens questionados diretamente sobre pensamentos e comportamentos suicidas. O resultado se manteve entre participantes considerados de maior risco.¹
Cristiane aponta outro problema: “O que acontece é que muitas vezes se pergunta, não quer se ouvir a resposta e se minimiza a resposta”.
Perguntar sobre suicídio: o que mostram os estudos
Outros trabalhos chegaram a resultados semelhantes. Em 2011, uma pesquisa com 443 adultos com sinais de depressão não encontrou aumento significativo de pensamentos suicidas após perguntas sobre o tema.² Em 2026, um estudo com pré-adolescentes de 8 a 12 anos também não encontrou aumento desses pensamentos após avaliações repetidas durante 12 meses.³ No mesmo ano, outro trabalho, com 700 adolescentes norte-americanos, não observou piora no desejo de morrer, no desejo de se machucar ou no humor após uma avaliação de risco de suicídio.⁴
Nenhum desses estudos encontrou efeito prejudicial provocado pelas perguntas nas condições avaliadas. Também não indicam que perguntar, por si só, seja suficiente para proteger alguém. A forma de conduzir a conversa e ouvir a resposta continua sendo central.
Sinais de sofrimento podem passar despercebidos
Cristiane chama atenção para mudanças como isolamento, dificuldade para cumprir tarefas, procrastinação e abandono do autocuidado. Quando elas aparecem, costuma orientar as famílias: “Buscar ajuda a gente não paga pra ver”.
O sofrimento nem sempre é evidente. Uma pessoa pode trabalhar, sair, conversar e sorrir enquanto atravessa uma situação grave. Cristiane resume: “O sorriso não é diagnóstico”.
Ele também pode aparecer de outras formas. Cristiane cita impulsividade, explosividade e agressividade como manifestações que, em alguns quadros, podem acompanhar depressão ou sofrimento psíquico. Sozinhas, não estabelecem diagnóstico, mas merecem atenção quando representam uma mudança importante.
Pedir ajuda também pode ser mais difícil para meninos e homens, segundo Cristiane, por crenças sociais que associam fragilidade à perda de masculinidade. Entre jovens de modo geral, ela também percebe dificuldade em reconhecer o próprio sofrimento.
No consultório, relata famílias que reduzem mudanças importantes a “frescura” ou “coisa de adolescente”. A negação pode funcionar como mecanismo de defesa. Nesses casos, ela defende participação da família e busca de cuidado.
Como terapeuta de família, Cristiane também considera antecedentes familiares por meio do genograma, ferramenta que mapeia relações e acontecimentos ao longo das gerações. Ressalta, porém, que o comportamento suicida é multicausal.
Alguns sinais podem ser discretos. Uma mudança inesperada em uma foto de perfil ou uma postagem fora do padrão, por exemplo, já levou Cristiane a perguntar: “Está tudo bem?”. Uma alteração isolada não significa risco de suicídio, mas pode justificar uma aproximação.
Perguntar exige disposição para ouvir
Para abordar o tema, diz Cristiane, é preciso estar disposto a continuar na conversa diante de uma resposta difícil: “A gente precisa perguntar e entender, aguentar a resposta”.
Não é necessário preparar um discurso. Ela sugere perguntas simples: “Você precisa de ajuda? Eu posso te ajudar? Como é que eu posso te ajudar?”.
Essa disposição pode virar ação. Cristiane relata que já se ofereceu para ajudar a marcar uma consulta ou acompanhar o paciente até o atendimento. Em outro momento, propõe: “Você quer que eu vá contigo no médico?”.
Ela também cita momentos de ruptura, como uma separação, em que o sofrimento pode se intensificar e vir acompanhado de sintomas graves de depressão e pensamentos ou comportamentos suicidas.
A Organização Mundial da Saúde afirma que perguntar se alguém está pensando em suicídio não faz com que essa pessoa passe a agir sobre esses sentimentos. Falar abertamente pode reduzir a ansiedade e favorecer a sensação de ser compreendido.⁵
O Ministério da Saúde orienta que a conversa aconteça em local tranquilo, com escuta atenta e sem julgamento. Também recomenda incentivar a procura por profissionais de saúde e, quando possível, acompanhar a pessoa até o atendimento.⁶
Não minimizar a dor também faz parte do cuidado
Quando alguém revela sofrimento intenso, uma reação comum é tentar convencê-la de que há razões para ficar bem. Cristiane cita frases como “você tem tudo”, “pensa nos seus filhos” ou “tem gente pior” e alerta: “Pode surgir como uma desqualificação da dor do outro”.
A proposta, segundo ela, é reconhecer o peso daquela experiência para quem sofre. Isso vale também para crianças e adolescentes. Um problema na escola ou a sensação de não pertencer a um grupo pode ter um peso maior do que um adulto imagina.
Uma estratégia usada por Cristiane é a escala de zero a dez: quanto aquilo está incomodando? A ideia é ajudar a pessoa a expressar a intensidade do sofrimento e acompanhar mudanças ao longo do tempo.
Para ela, esse diálogo começa antes de uma crise: “Diálogo é treino”.
Família, escola e rede de apoio
Quando o sofrimento envolve crianças e adolescentes, a escola também pode fazer parte da rede de proteção. Se um filho começa a se isolar ou diz que não se sente pertencente, Cristiane orienta os pais a conversar com professores e coordenação.
Terapeuta, família, escola e outros adultos de referência podem ajudar a perceber mudanças e buscar apoio. No atendimento clínico, ela também considera importante manter um contato de emergência registrado.
Perceber sinais não é tarefa exclusiva de especialistas. Uma mudança brusca de comportamento ou uma mensagem incomum pode ser motivo suficiente para perguntar como aquela pessoa está.
O que fazer quando a resposta é “sim”
Se a pessoa disser que está pensando em suicídio, a resposta precisa ser levada a sério. É preciso ajudá-la a buscar avaliação profissional, mesmo quando não parece haver perigo imediato. Ideação suicida e risco de suicídio não são sinônimos. A avaliação considera fatores clínicos e do contexto.
Entre eles estão presença de um plano, intenção de agir, acesso a meios letais, tentativas anteriores, uso de álcool ou outras drogas, alterações do estado mental e prejuízo do autocuidado. O Ministério da Saúde caracteriza o risco iminente pela presença de ideação com plano claramente definido, intenção explícita e acesso imediato a meios letais, ou por uma tentativa em curso ou recente.⁷
Diante de risco iminente, a pessoa não deve ficar sozinha. Quando for possível e seguro, deve-se reduzir o acesso a meios de autoagressão, envolver alguém de confiança e procurar atendimento de urgência.⁷
A rede pública inclui CAPS, Unidades Básicas de Saúde, UPAs, prontos-socorros e hospitais. Em emergências, o SAMU pode ser acionado pelo 192. Para apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida atende pelo telefone 188.⁶
Cristiane recomenda ainda procurar alguém de confiança na escola, no bairro, na comunidade religiosa, entre amigos ou familiares. Sobre reconhecer a necessidade de ajuda, resume: “Pede ajuda quem é forte, quem tem coragem de reconhecer”.
- Gould MS, Marrocco FA, Kleinman M, Thomas JG, Mostkoff K, Cote J, Davies M. Evaluating Iatrogenic Risk of Youth Suicide Screening Programs: A Randomized Controlled Trial. JAMA. 2005;293(13):1635-1643. DOI: 10.1001/jama.293.13.1635.
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https://doi.org/10.1016/j.jaac.2025.03.025
https://doi.org/10.1016/j.jaac.2026.01.019 - McGuire TC, Castro-Ramirez F, Nock MK. Iatrogenic effect of anonymous suicide assessment among adolescents. Psychiatry Research. 2026;359:117042. DOI: 10.1016/j.psychres.2026.117042.
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https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/suicide - Brasil. Ministério da Saúde. Suicídio (Prevenção). Orientações sobre prevenção, acolhimento e rede de atendimento. Acesso em 9 de setembro de 2026.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao/suicidio-prevencao - Brasil. Ministério da Saúde. Guia de acolhimento à crise em saúde mental na Rede de Atenção Psicossocial (Raps). Seção 3.3: Acolhimento em situações de risco de suicídio. Brasília: Ministério da Saúde; 2026.
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_acolhimento_crise_saude_mental.pdf