Por que o diabetes ainda mata — e o que essa conta ainda não foi paga

Complicações do diabetes tipo 2, lacunas no diagnóstico e os limites dos novos tratamentos: o que os números mais recentes revelam sobre uma das maiores epidemias silenciosas do mundo

Tempo de Leitura: 8 minutos

Resumo da Notícia

Os rins estão entre os órgãos mais afetados. A doença renal do diabetes compromete entre 20% e 40% dos pacientes e responde por grande parte dos casos de diálise em diversos países.

A visão também está em risco. A retinopatia diabética atinge cerca de um em cada três pacientes, sendo a principal causa de cegueira adquirida em adultos em idade produtiva.

Lesões nervosas podem levar a amputações evitáveis. A neuropatia diabética reduz a sensibilidade nos pés e favorece feridas que evoluem para úlceras graves.

O Brasil já ultrapassa 20 milhões de pessoas vivendo com diabetes, com prevalência próxima de 10% da população adulta.

Os tratamentos evoluíram significativamente nas últimas décadas. Medicamentos como os inibidores de SGLT2 e os agonistas de GLP-1 reduzem complicações cardiovasculares e renais, mas ainda têm acesso desigual e custo elevado.

Prevenção continua sendo uma das estratégias mais eficazes. Intervenções no estilo de vida, com perda de peso e atividade física regular, podem reduzir em até 58% o risco de desenvolver diabetes tipo 2 em pessoas com pré-diabetes.

O diagnóstico precoce ainda é o maior desafio. Um exame simples, a glicemia em jejum, recomendado a partir dos 35 anos ou antes em pessoas com fatores de risco, pode identificar a doença antes que as complicações apareçam.

Em grande parte dos casos, o diabetes não mata por falta de conhecimento científico, mas porque o diagnóstico chega tarde ou o tratamento não alcança quem precisa.

A cada nove segundos, o mundo perde uma pessoa para o diabetes. Não é metáfora. É o ritmo exato registrado pela Federação Internacional de Diabetes na 11ª edição do IDF Diabetes Atlas, publicada em 2025, quando a doença foi responsável por 3,4 milhões de mortes na faixa de 20 a 79 anos — o equivalente a 9,3% de todos os óbitos registrados nessa faixa etária em 2024.1 Um número que, por si só, deveria ocupar manchetes. Mas o diabetes nunca foi uma doença barulhenta. É exatamente essa a sua maldição.

Silenciosa nos sintomas, progressiva nos danos e subestimada na gravidade, a condição avança durante anos sem que a pessoa perceba. Ao contrário do diabetes tipo 1 — de origem autoimune, no qual o próprio sistema imunológico destrói as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina, e que não tem relação com estilo de vida —, os sintomas do diabetes tipo 2, que representa mais de 90% dos casos,2 são inespecíficos, brandos ou inexistentes nos estágios iniciais. O diagnóstico frequentemente só acontece quando uma complicação já instalada — um infarto, um episódio de insuficiência renal, uma perda de visão — revela a doença que estava lá, trabalhando em silêncio. É o tipo de surpresa que não tem nada de surpreendente para quem conhece a biologia da doença, mas que ainda pega a maioria das pessoas completamente desprevenidas.

As complicações do diabetes: coração, rins, olhos e nervos

As complicações do diabetes começam pelo sistema cardiovascular. A doença cardiovascular aterosclerótica — que inclui infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca — é a principal causa de morbimortalidade entre as pessoas com diabetes.3 O processo que leva a ela começa muito antes do diagnóstico clínico. Pessoas com diabetes têm entre duas e cinco vezes mais chances de desenvolver doença cardiovascular do que aquelas sem a condição, e o risco é maior entre os mais jovens, mais acintoso em populações de renda baixa e média, e amplificado quando se somam hipertensão, colesterol elevado e tabagismo — comorbidades que frequentemente acompanham o quadro.

Pense na hiperglicemia — o excesso crônico de glicose no sangue — como água com sal circulando dentro de canos finos: ao longo do tempo, corroi, entope, fragiliza. É exatamente assim que a glicose elevada age sobre os vasos sanguíneos, dos maiores aos mais minúsculos, em todo o organismo. Os rins são um dos primeiros e mais afetados. A doença renal do diabetes compromete entre 20% e 40% dos pacientes e responde por aproximadamente 50% dos novos casos de terapia de substituição renal nos países desenvolvidos.4 No Brasil, dados do Censo Brasileiro de Diálise de 2023, citados na Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2025, indicam que 32% dos casos de doença renal crônica em diálise no país são de pessoas com diabetes.5

Os olhos também pagam o preço. A retinopatia diabética, lesão nos vasos da retina causada pela hiperglicemia prolongada, é a principal causa de cegueira adquirida entre adultos em idade ativa no mundo. Uma análise reunindo dados de 22.896 pessoas com diabetes provenientes de 35 estudos de base populacional mostrou que a prevalência global da retinopatia em indivíduos com diabetes chegava a 34,6%.6 Significa que cerca de um em cada três diabéticos carrega algum grau de comprometimento visual — muitas vezes sem saber, muitas vezes sem nunca ter feito um exame de fundo de olho.

E há ainda as neuropatias — lesões nos nervos periféricos — que deixam os pés insensíveis às feridas como se estivessem permanentemente adormecidos. Uma pedra no sapato, uma frieira mal cuidada, uma bolha que não dói: pequenas ocorrências cotidianas que, no contexto da neuropatia diabética, criam úlceras que não cicatrizam.

Nos casos mais graves, esse processo leva à amputação. Não traumática, como a medicina classifica. Evitável, como a epidemiologia demonstra.

Mortalidade por diabetes: uma dimensão etária invisível

A mortalidade por diabetes também se mede em vidas interrompidas cedo demais. Cerca de 37% das mortes relacionadas ao diabetes em 2024 ocorreram em pessoas com menos de 60 anos, segundo o IDF Diabetes Atlas.1 A OMS confirma que 47% de todos os óbitos por diabetes ocorrem antes dos 70 anos.2 São mortes prematuras, em plena vida produtiva, em muitos casos evitáveis com diagnóstico precoce do diabetes e acesso ao tratamento. Cada um desses números representa uma pessoa que, com outra realidade de acesso, poderia ter chegado à velhice.

O fio que costura todas essas complicações do diabetes é o mesmo: a hiperglicemia não controlada, atuando como um agente corrosivo lento. A pergunta que naturalmente surge — e que médicos e pesquisadores se fazem há décadas — é: por que, com todo o arsenal terapêutico disponível, o diabetes ainda mata tanto?

O diagnóstico precoce do diabetes e a lacuna que ainda mata

O problema começa no diagnóstico. E não termina no tratamento.

Em 2024, a Federação Internacional de Diabetes estimou que 252 milhões de pessoas — mais de 43% de todos os adultos com diabetes no mundo — não sabiam que tinham a doença. Quase 90% dessas pessoas vivem em países de baixa e média renda.1 São mais de um quarto de bilhão de indivíduos acumulando dano silencioso em rins, coração, retina e nervos, sem nenhuma intervenção, sem nenhuma chance de mudar o curso da doença.

O quadro do diabetes no Brasil é igualmente preocupante. O cruzamento de dados do Vigitel — levantamento em amostra representativa conduzido pelo Ministério da Saúde — com o Censo demográfico do IBGE de 2022 indica que o país já ultrapassa 20 milhões de pessoas com a doença, equivalendo a uma prevalência de aproximadamente 10,2% a 10,5% da população adulta.7 O número é expressivo e crescente, e reflete tanto o envelhecimento populacional quanto o avanço do sedentarismo e da obesidade. Brasil grande, problema grande.

A Organização Mundial da Saúde apurou que, em 2022, mais de metade dos adultos vivendo com diabetes — cerca de 59%, o equivalente a 450 milhões de pessoas com 30 anos ou mais — não fazia uso de nenhuma medicação para a doença. Em países de baixa e média renda, essa cifra é ainda maior.2 Trata-se de um abismo entre o conhecimento médico disponível e a realidade do acesso ao cuidado, que a ciência nomeia com precisão: lacuna terapêutica. Traduzindo: a ciência sabe o que fazer. O sistema não chega lá.

Tratamento do diabetes: o que funciona, o que tem limites e o que ainda falta

Quando o tratamento do diabetes chega, ele funciona — e funcionou melhor nas últimas décadas do que em qualquer outro período da história da medicina. As diretrizes da American Diabetes Association de 2025 reafirmam que o controle rigoroso da glicemia, combinado ao manejo da pressão arterial e dos lipídios, reduz significativamente o risco de complicações micro e macrovasculares.8 Novas classes de medicamentos — os inibidores de SGLT2 e os agonistas do receptor de GLP-1 — mudaram o patamar do cuidado ao demonstrar benefícios que vão muito além do controle glicêmico: reduzem eventos cardiovasculares, retardam a progressão da doença renal e, em populações específicas, diminuem a mortalidade.

Mas é preciso ser honesto sobre os limites dessa revolução terapêutica. Os inibidores de SGLT2 e os agonistas de GLP-1 são medicamentos de alto custo, ainda não incorporados integralmente ao SUS para todas as indicações, e com perfis de efeitos colaterais que demandam acompanhamento médico cuidadoso — os GLP-1, por exemplo, podem causar náuseas, vômitos e, em casos raros, pancreatite.

Nenhum deles é cura. São ferramentas poderosas de controle e prevenção de complicações do diabetes, com indicações precisas e populações-alvo bem definidas pelas diretrizes. Fora desse contexto clínico, os benefícios não se aplicam da mesma forma. Dito isso: para quem tem acesso, eles representam um avanço genuinamente importante.

Projeções do IDF Diabetes Atlas apontam que o número de adultos vivendo com diabetes vai subir de 589 milhões em 2024 para 853 milhões em 2050 — um crescimento de 45%, enquanto a população global deve crescer apenas 25% no mesmo período.1 É uma curva que desafia os sistemas de saúde. E é uma curva que pode ser dobrada, ao menos em parte, com a prevenção do diabetes tipo 2 — que, diferentemente do tipo 1, tem fatores de risco modificáveis bem estabelecidos, como sedentarismo, alimentação ultraprocessada e excesso de peso.

O Diabetes Prevention Program, ensaio clínico clássico publicado no New England Journal of Medicine, mostrou que intervenções no estilo de vida — com meta de perda de 7% do peso corporal e 150 minutos semanais de atividade física — reduziram em 58% a incidência de diabetes em pessoas com pré-diabetes — condição em que a glicemia já está elevada, mas ainda abaixo do limiar diagnóstico da doença — ao longo de quase três anos de acompanhamento.9 Não é uma promessa de imunidade, e o estudo tem limites: foi realizado majoritariamente com adultos americanos em condições controladas de intervenção, o que nem sempre se reproduz na vida real e no atendimento público em massa. Mas o princípio é sólido: mudar hábitos funciona, e funciona antes que a doença se instale.

Mas prevenir exige detectar. E detectar exige rastreamento sistemático, políticas públicas de alcance real e uma atenção primária capaz de encontrar as pessoas antes que as complicações as encontrem. No caso do diabetes, esse rastreamento começa com um exame simples: a glicemia em jejum, recomendada para todos os adultos a partir dos 35 anos — ou antes, para quem tem sobrepeso, histórico familiar da doença ou hipertensão. É nessa equação que o gargalo persiste — não na ciência, que avançou, mas na implementação, que ficou para trás.

O diabetes não mata porque é incurável. Mata porque é invisível. Porque chega sem avisar, progride sem dor e só aparece nas estatísticas quando já causou o estrago. Mata, também, porque o sistema de saúde não chega a tempo — e quando chega, nem sempre traz consigo os melhores recursos. A conta do silêncio, cobrada em infarto, em cegueira, em diálise e em morte prematura, continua sendo paga. E enquanto a ciência avança com novos fármacos e tecnologias de monitoramento, o maior avanço possível continua sendo o mais barato e o mais ignorado: encontrar a doença antes que ela encontre o paciente.

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1. International Diabetes Federation. IDF Diabetes Atlas, 11th edition. 2025. Disponível em: https://diabetesatlas.org/resources/idf-diabetes-atlas-2025/

2. World Health Organization. Diabetes. Fact Sheet. Novembro 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/diabetes

3. Siam NH, Snigdha NN, Tabasumma N, Parvin I. Diabetes Mellitus and Cardiovascular Disease: Exploring Epidemiology, Pathophysiology, and Treatment Strategies. Rev Cardiovasc Med. 2024;25(12):436. doi: 10.31083/j.rcm2512436. PMID: 39742220. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39742220/

4. Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz SBD 2025: Avaliação e tratamento da doença renal do diabetes. Disponível em: https://diretriz.diabetes.org.br/avaliacao-e-tratamento-da-doenca-renal-do-diabetes/

5. Nerbass FB, Lima HN, Moura-Neto JA, Lugon JR, Sesso R. Censo Brasileiro de Diálise 2022. Braz J Nephrol. 2024;46(2):e20230062. doi: 10.1590/2175-8239-JBN-2023-0062pt. Disponível em: https://www.bjnephrology.org/article/censo-brasileiro-de-dialise-2022/

6. Yau JWY, Rogers SL, Kawasaki R, et al.; META-EYE Study Group. Global Prevalence and Major Risk Factors of Diabetic Retinopathy. Diabetes Care. 2012;35(3):556-564. doi: 10.2337/dc11-1909. PMID: 22301125. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22301125/

7. Sociedade Brasileira de Diabetes. Brasil já tem cerca de 20 milhões de pessoas com diabetes. Janeiro 2025. Disponível em: https://diabetes.org.br/brasil-ja-tem-cerca-de-20-milhoes-de-pessoas-com-diabetes/

8. American Diabetes Association Professional Practice Committee. Standards of Care in Diabetes — 2025. Diabetes Care. 2025;48(Suppl 1):S1-S321. doi: 10.2337/dc25-SINT. Disponível em: https://diabetesjournals.org/care/issue/48/Supplement_1

9. Knowler WC, Barrett-Connor E, Fowler SE, et al.; Diabetes Prevention Program Research Group. Reduction in the Incidence of Type 2 Diabetes with Lifestyle Intervention or Metformin. N Engl J Med. 2002;346(6):393-403. doi: 10.1056/NEJMoa012512. PMID: 11832527. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11832527/

Equipe Saúde a Sério

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