Quem usa canetas emagrecedoras precisa ter mais cuidado na anestesia?

Medicamentos como Ozempic e Mounjaro mudaram protocolos de anestesia e reacenderam discussões sobre jejum, segurança cirúrgica e os mitos que ainda cercam procedimentos anestésicos

Tempo de Leitura: 7 minutos

Para Levar a Sério


• Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro podem retardar o esvaziamento do estômago e aumentar o risco de broncoaspiração durante anestesias gerais.
• Quem usa agonistas de GLP-1 deve sempre informar a equipe médica antes de cirurgias ou procedimentos que envolvam sedação.
• A suspensão dessas medicações antes de uma cirurgia depende de avaliação individual. Em alguns casos, interromper o tratamento pode trazer mais riscos do que benefícios.
• O jejum pré-operatório continua sendo uma medida essencial de segurança, mesmo com protocolos mais modernos e flexíveis.
• O medo de “acordar durante a cirurgia” existe, mas a consciência intraoperatória é considerada rara na anestesiologia moderna.
• A anestesia raquidiana não provoca paralisia de forma rotineira. Complicações neurológicas permanentes são extremamente raras segundo a literatura científica atual.
• Analgesia de parto não significa perda total dos movimentos. As técnicas atuais buscam aliviar a dor preservando a participação ativa da paciente no trabalho de parto.
• A consulta pré-anestésica é parte importante da segurança cirúrgica. É nela que a equipe identifica fatores de risco, histórico clínico e possíveis intercorrências.
• Estrutura hospitalar, monitorização adequada e equipes treinadas continuam sendo fundamentais para reduzir riscos anestésicos e responder rapidamente a emergências.

As chamadas canetas emagrecedoras saíram dos consultórios de endocrinologia e viraram assunto de mesa de jantar, rede social e sala de espera de hospital. Em poucos anos, medicamentos como Ozempic, Wegovy e, mais recentemente, o Mounjaro passaram a fazer parte da rotina de milhões de pessoas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a obesidade global mais que dobrou desde 1990, cenário que ajuda a explicar o crescimento acelerado da procura por tratamentos medicamentosos para perda de peso.¹

Só que essa mudança começou a provocar efeitos em outro lugar: os centros cirúrgicos.

Anestesiologistas passaram a prestar mais atenção em pessoas que usam agonistas de GLP-1, já que essas substâncias retardam o esvaziamento do estômago. Isso interfere diretamente na segurança das vias aéreas durante a indução anestésica. Quanto mais tempo o alimento permanece no estômago, maior a chance de refluxo e aspiração pulmonar enquanto a pessoa está inconsciente. Em casos mais graves, o quadro pode evoluir para inflamação pulmonar e insuficiência respiratória.² ³

“O alimento fica parado mais tempo no estômago. E aí o risco de broncoaspiração numa indução anestésica é muito alto”, explica a anestesiologista Marina Cestari, do Serviço de Anestesia do Hospital e Maternidade Santa Joana.

A preocupação fez entidades internacionais, como a American Society of Anesthesiologists (ASA), publicarem recomendações específicas para quem utiliza essas medicações antes de cirurgias eletivas.² Entre as orientações mais discutidas está a suspensão temporária dos agonistas de GLP-1 antes de alguns procedimentos, principalmente em pessoas com sintomas gastrointestinais importantes, como náuseas, vômitos e sensação constante de estômago cheio.

As diretrizes também reforçam a necessidade de avaliar cada caso individualmente. Em algumas situações, interromper a medicação pode trazer mais prejuízo metabólico do que benefício, sobretudo em pacientes com diabetes descompensado. Por isso, anestesiologistas e equipes cirúrgicas passaram a discutir o tema com mais profundidade durante a avaliação pré-operatória.

Mas essa discussão também trouxe à tona outra questão: mesmo com toda a evolução da anestesiologia, muita gente ainda chega ao hospital carregando medos antigos e informações erradas sobre anestesia.

Poucas situações deixam alguém tão vulnerável quanto entrar numa sala cirúrgica e apagar por algumas horas. O receio de não acordar, despertar durante a cirurgia ou sofrer alguma intercorrência continua forte. Em obstetrícia, onde expectativa e ansiedade caminham juntas, isso costuma aparecer ainda mais.

Para Marina Cestari, boa parte dessa insegurança nasce da falta de informação. “O que protege a gente do medo é o conhecimento”, afirma. Segundo ela, a consulta pré-anestésica ainda é subestimada por muitos pacientes, embora tenha papel central na segurança do procedimento.

Esse encontro com o anestesiologista funciona quase como um planejamento detalhado antes de uma viagem longa. É nesse momento que a equipe revisa doenças pré-existentes, alergias, medicamentos em uso, histórico cirúrgico e fatores capazes de interferir durante a anestesia.

“A anestesia é segura, mas a gente realmente precisa conhecer o nosso paciente para fazer a melhor técnica e ter o melhor resultado”, afirma a anestesiologista Fernanda Cristina Paes, do Hospital e Maternidade Santa Joana.

Não por acaso, a anestesiologia é considerada hoje uma das áreas mais seguras da medicina. Estudos multicêntricos internacionais mostram queda importante nas complicações anestésicas graves nas últimas décadas, resultado atribuído à evolução dos anestésicos, à monitorização contínua e à padronização de protocolos de segurança.⁴

Isso não elimina os riscos. Em medicina, risco zero simplesmente não existe. Parte importante do trabalho do anestesiologista é justamente prever problemas antes que eles aconteçam.

Por que o jejum pré-operatório continua tão importante

O jejum pré-operatório continua sendo um dos pontos que mais geram dúvidas. Em meio à rotina acelerada e à banalização de muitos procedimentos médicos, muita gente ainda encara a recomendação como exagero.

A recomendação existe por um motivo simples.

Hoje, os protocolos são mais flexíveis do que eram anos atrás, embora continuem seguindo critérios rigorosos. Líquidos claros costumam exigir menos tempo de jejum do que refeições gordurosas ou ricas em proteína. O problema é que muita gente não sabe exatamente como classificar o que consumiu antes da cirurgia. E pequenas diferenças podem alterar completamente a segurança do procedimento.

No caso dos agonistas de GLP-1, essa discussão ganhou ainda mais relevância porque os medicamentos alteram o funcionamento normal da digestão. Uma pessoa pode cumprir corretamente o período de jejum e, ainda assim, manter resíduos alimentares no estômago por mais tempo do que o esperado.

Os medicamentos também abriram espaço para outra discussão: o uso indiscriminado e a automedicação.

Especialistas reforçam que essas substâncias têm indicações médicas específicas, exigem acompanhamento profissional e devem sempre ser informadas à equipe cirúrgica antes de qualquer intervenção.

O medo de acordar durante a anestesia

Outro temor clássico envolve a possibilidade de despertar durante a cirurgia. A chamada consciência intraoperatória realmente existe, mas hoje é considerada rara. Estudos realizados nos Estados Unidos e na China estimam incidência entre 0,1% e 0,2% dos casos de anestesia geral, o equivalente a um ou dois episódios a cada mil procedimentos.⁵ ⁶

Segundo Marina Cestari, os monitores atuais conseguem identificar indiretamente o nível de consciência durante a cirurgia, permitindo ajustes contínuos da profundidade anestésica.

O impacto não é apenas físico. Casos de consciência intraoperatória podem gerar ansiedade intensa, alterações do sono e sintomas semelhantes ao estresse pós-traumático.⁷ Isso ajuda a explicar por que a anestesiologia moderna se apoia tanto em protocolos rígidos, monitorização constante e treinamento contínuo.

Anestesia raquidiana pode causar paralisia?

Outro dos mitos mais persistentes envolve a ideia de que a anestesia raquidiana, conhecida popularmente como raqui, pode causar paralisia. O temor ainda aparece com frequência nos consultórios, especialmente entre pessoas que cresceram ouvindo relatos antigos sobre complicações anestésicas.

Mas a prática atual está muito distante desse cenário.

“A agulha não vai no osso e não atinge a medula. Ela passa entre as vértebras. Além disso, as agulhas atuais são muito finas e flexíveis”, explica Marina Cestari.

A evolução dos materiais ajuda a entender essa mudança. Se antes as agulhas eram mais grossas e traumáticas, hoje elas são desenhadas justamente para reduzir dor, lesões e complicações pós-procedimento. Complicações neurológicas permanentes após anestesia neuroaxial são consideradas extremamente raras na literatura médica atual.⁸

Fernanda Cristina Paes acrescenta que a associação entre anestesia e dores crônicas nas costas também costuma ser equivocada. Segundo ela, alterações posturais, ganho de peso, gestação e doenças ortopédicas pré-existentes acabam sendo frequentemente atribuídas à anestesia anos depois, mesmo sem relação causal comprovada. Muitas vezes, a dor aparece muito tempo depois do parto ou da cirurgia, mas o procedimento anestésico acaba virando a principal suspeita porque ficou marcado emocionalmente na memória da pessoa.

Analgesia de parto ainda enfrenta desinformação

Na obstetrícia, a conversa ganha uma dimensão ainda mais delicada. O medo da dor do parto segue sendo uma das principais razões que levam mulheres a optar por cesáreas eletivas, enquanto a analgesia de parto ainda enfrenta resistência alimentada principalmente por informações incorretas que circulam na internet.

“Muitas pacientes não querem o parto normal por medo da dor. Mas existem opções de analgesia seguras e muito satisfatórias”, diz Marina Cestari.

As diretrizes do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) afirmam que o pedido materno é indicação suficiente para analgesia durante o trabalho de parto, desde que não exista contraindicação médica.⁹

As técnicas modernas utilizam doses menores e estratégias que preservam a força muscular da paciente. Na prática, isso significa que muitas mulheres conseguem caminhar, mudar de posição e participar ativamente do trabalho de parto mesmo sem dor intensa.

Fernanda Cristina Paes explica que a analgesia obstétrica evoluiu justamente para permitir mais conforto sem tirar autonomia da paciente durante o parto. Segundo ela, muitas mulheres conseguem participar ativamente de todo o processo sem aquela sensação antiga de perda total dos movimentos.

As especialistas explicam que analgesia não significa ausência completa de movimentos. O objetivo é bloquear principalmente a sensibilidade dolorosa, preservando ao máximo a capacidade motora da paciente. É como diminuir o volume da dor sem desligar completamente o corpo.

Outra preocupação frequente das gestantes envolve o impacto da anestesia sobre o bebê. Segundo Marina Cestari, as doses utilizadas na anestesia raquidiana para cesáreas são extremamente pequenas e têm absorção mínima. “Não passa nada para o bebê. Essa é a resposta”, afirma.

Já nos casos em que a anestesia geral é necessária durante a cesariana, o planejamento da equipe se torna ainda mais delicado. Obstetras, anestesiologistas e pediatras atuam de forma sincronizada para reduzir ao máximo o tempo entre a indução anestésica e o nascimento.

“É uma orquestra”, resume Marina ao descrever a dinâmica das equipes em situações obstétricas de emergência.

O obstetra Eduardo Cordioli, cofundador do portal Saúde a Sério, destaca que o entrosamento entre as equipes faz diferença direta nos desfechos maternos e neonatais. “Quando você trabalha sempre com a mesma equipe, existe uma comunicação que muitas vezes nem precisa ser verbal. Isso é fundamental, principalmente nas situações de alta complexidade”, afirma.

Como a anestesia moderna se tornou mais segura

Apesar da evolução tecnológica, as anestesiologistas fazem um alerta importante sobre a trivialização de intervenções realizadas fora do ambiente hospitalar, especialmente em clínicas sem estrutura adequada para lidar com situações graves.

Via aérea difícil, broncoaspiração, sangramentos e reações inesperadas exigem equipamentos específicos, treinamento constante e equipes preparadas para agir rapidamente. Em anestesia, segundos realmente podem fazer diferença.

Fernanda Cristina Paes destaca que o cuidado anestésico depende de estrutura hospitalar, monitorização adequada e trabalho integrado entre diferentes profissionais. Segundo ela, não se trata apenas da aplicação do anestésico, mas da capacidade da equipe de reconhecer e responder rapidamente a qualquer intercorrência.

O anestesiologista deixou há muito tempo de ser apenas o profissional que “faz o paciente dormir”. Hoje participa do planejamento cirúrgico, monitora funções vitais em tempo real, controla a dor, previne complicações e acompanha o paciente antes, durante e depois do procedimento.

Ao mesmo tempo, a relação das pessoas com a anestesia também começa a mudar. Em uma era marcada por excesso de informação, e muitas vezes por desinformação, entender o que realmente acontece dentro de um centro cirúrgico ajuda a diminuir medos antigos e tornar as decisões médicas mais conscientes.

Assista ao episódio sobre Anestesia no Podcast Saúde a Sério

  1. World Health Organization (WHO). Obesity and overweight. 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight
  2. American Society of Anesthesiologists. Consensus-Based Guidance on Preoperative Management of Patients on GLP-1 Receptor Agonists. 2023. Disponível em: https://www.asahq.org/about-asa/newsroom/news-releases/2023/06/american-society-of-anesthesiologists-consensus-based-guidance-on-preoperative
  3. Mendes FF, et al. Glucagon-Like Peptide-1 agonists in perioperative medicine. Brazilian Journal of Anesthesiology. 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11295559/
  4. Bainbridge D, Martin J, Arango M, Cheng D; EPiCOR Group. Perioperative and anaesthetic-related mortality in developed and developing countries: a systematic review and meta-analysis. Lancet. 2012;380(9847):1075-1081. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22998717/
  5. Sebel PS, Bowdle TA, Ghoneim MM, et al. The incidence of awareness during anesthesia: a multicenter United States study. Anesthesia & Analgesia. 2004;99(3):833-839. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15333419/
  6. Xu L, Wu AS, Yue Y. The incidence of intra-operative awareness during general anesthesia in China: a multi-center observational study. Acta Anaesthesiologica Scandinavica. 2009. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19496761/
  7. American Society of Anesthesiologists. Awareness and Anesthesia. Disponível em: https://madeforthismoment.asahq.org/wp-content/uploads/2021/07/ASA-292-Awareness-and-Anesthesia-mh-1.2.pdf
  8. Hebl JR. Neurologic complications associated with regional anesthesia in obstetrics. Regional Anesthesia and Pain Medicine. 2006;31(5):Suppl 1:52-56. Disponível em: https://rapm.bmj.com/content/31/5/Suppl_1/52
  9. American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Obstetric Analgesia and Anesthesia. Practice Bulletin No. 209. 2019. Disponível em: https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/practice-bulletin/articles/2019/03/obstetric-analgesia-and-anesthesia

Deborah Lima

Jornalista do Saúde a Sério

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