Sociedades médicas voltam a pressionar pela proibição dos chips da beleza

Carta assinada por 12 entidades pede o fim dos implantes hormonais manipulados. Entenda o que ainda pode ser usado no Brasil, quais são as regras da Anvisa e por que o tema voltou ao debate

Tempo de Leitura: 6 minutos

Por algum tempo, o chamado chip da beleza ganhou espaço associado a promessas muito diferentes entre si. Emagrecimento, ganho de massa muscular, melhora da disposição, aumento da libido, alívio de sintomas da menopausa e propostas de antienvelhecimento chegaram a dividir espaço no mesmo discurso.

Chip da beleza é uma denominação popular usada para diferentes tipos de implantes hormonais manipulados, muitas vezes preparados de forma individualizada e com combinações variadas de substâncias. Já os implantes hormonais registrados na Anvisa são medicamentos que passaram por avaliação regulatória específica para determinada indicação, com composição, dose, forma de uso e critérios de segurança definidos.

Do ponto de vista regulatório, são categorias diferentes. A discussão levantada pela Carta do Rio de Janeiro se concentra nos implantes hormonais manipulados, e não nos implantes já registrados e aprovados para usos específicos.

Foi essa amplitude de indicações que voltou a colocar o tema no centro do debate médico. Em outubro de 2026, 12 sociedades científicas nacionais e internacionais divulgaram a Carta do Rio de Janeiro, documento que pede a proibição da manipulação, formação de estoques, comercialização, distribuição, publicidade e uso de implantes hormonais manipulados no Brasil.¹

Entre as signatárias estão a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia e a International Menopause Society, além de entidades das áreas de diabetes, obesidade, urologia, mastologia, reprodução humana, cardiologia e hepatologia.¹

O posicionamento foi elaborado durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, realizado no Rio de Janeiro.¹

A nova manifestação pode causar estranhamento. Afinal, os chamados chips da beleza já não haviam sido alvo de restrições da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa?

Para entender por que o assunto voltou, é preciso olhar para o caminho regulatório percorrido desde 2024.

O que está permitido e proibido hoje pela Anvisa

Em outubro de 2024, a Anvisa suspendeu de forma preventiva a manipulação, comercialização, propaganda e uso de implantes hormonais manipulados. Pouco mais de um mês depois, a medida foi revista e a Agência estabeleceu as regras que permitem novamente a manipulação em determinadas situações terapêuticas.²

Hoje, portanto, os implantes hormonais manipulados não estão proibidos de forma geral no Brasil. Eles podem ser prescritos e manipulados para tratamento quando forem cumpridas as condições estabelecidas pela Anvisa. A farmácia só pode utilizar substâncias que já tenham sido avaliadas pela Agência, e a formulação manipulada deve ser considerada pelo médico apenas quando nenhum medicamento registrado disponível no mercado atender às necessidades específicas daquele paciente.²

Suspensão e proibição têm efeitos diferentes. A suspensão interrompe uma atividade por decisão regulatória e pode ser revista, como aconteceu nesse caso. A proibição estabelece uma vedação expressa, que continua aplicada a determinados usos desses produtos.

Para o tratamento com implante hormonal manipulado, a prescrição exige médico legalmente habilitado, receita de controle especial, identificação da doença pelo CID e termo de responsabilidade assinado pelo prescritor, pelo paciente e pela farmácia. Eventos adversos relacionados ao uso também devem ser notificados à Anvisa.²

Há, porém, proibições claras. Continuam proibidos a comercialização e o uso de implantes hormonais manipulados à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos para finalidade estética, ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo. Também é proibida a propaganda dirigida ao público em geral de qualquer tipo de implante hormonal manipulado.²

Outro ponto importante é que essas regras não alteraram a situação dos implantes hormonais já registrados na Anvisa, como o de etonogestrel usado como método contraceptivo. Esses produtos têm indicação, composição e forma de uso previamente avaliadas pela Agência e não fazem parte da mesma categoria regulatória dos chamados chips da beleza manipulados.²

Esse é o status regulatório atual: implantes hormonais manipulados podem ser utilizados em situações terapêuticas específicas e sob controle sanitário, enquanto determinados usos permanecem expressamente proibidos. É justamente a permanência dessa possibilidade de manipulação para tratamento que a Carta do Rio de Janeiro coloca em discussão.¹

Por que as sociedades médicas querem ampliar as restrições

O documento chama atenção principalmente para formulações contendo testosterona, gestrinona, estradiol e outras substâncias. Segundo as entidades, esses produtos vêm sendo oferecidos para sintomas da menopausa, condições ginecológicas, disfunção sexual, emagrecimento, ganho muscular, melhora da disposição, desempenho físico e propostas de antienvelhecimento.¹

As sociedades argumentam que essas formulações não passaram pelo mesmo conjunto de avaliações exigido para medicamentos registrados, como uniformidade entre lotes, estabilidade, esterilidade, pureza, absorção pelo organismo, velocidade e duração da liberação hormonal e segurança em longo prazo.¹

Nos medicamentos registrados, há um conjunto padronizado de informações sobre qualidade, absorção, dose, duração do efeito, eficácia e segurança. Isso não elimina as diferenças entre pacientes, mas oferece parâmetros mais definidos sobre como o produto tende a se comportar no organismo. Segundo as entidades, esse grau de previsibilidade é menor nos implantes manipulados.¹

A própria via de administração pesa nessa discussão. Depois que o pellet, um pequeno implante colocado sob a pele, é inserido, a exposição ao hormônio pode continuar por meses.

Se surgir uma reação adversa ou a concentração ficar acima do desejado, a dose não pode ser reduzida imediatamente. Comprimidos, géis e adesivos, por exemplo, podem ser suspensos ou ajustados com mais facilidade. Em alguns casos, a retirada do implante também pode ser difícil ou incompleta.¹

Isso ajuda a explicar parte da preocupação com produtos de liberação prolongada, especialmente quando a quantidade absorvida pelo organismo e a duração do efeito são menos previsíveis do que nas formulações registradas.

Testosterona em mulheres está no centro do debate

A testosterona ganhou destaque nessa discussão porque passou a ser associada a objetivos que vão muito além das indicações reconhecidas pelas principais diretrizes.

Um consenso internacional publicado em 2019 e endossado por diversas sociedades médicas concluiu que a única indicação de testosterona em mulheres com evidência suficiente é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres na pós-menopausa, após avaliação clínica e biopsicossocial adequada.³

O documento também afirma que os dados disponíveis não sustentam o uso de testosterona para melhorar cognição, bem-estar geral, composição corporal ou força muscular em mulheres nas doses fisiológicas avaliadas. Preparações que resultem em concentrações do hormônio acima da faixa fisiológica, incluindo pellets e injeções, são desaconselhadas.³

A gestrinona também aparece entre as preocupações da Carta do Rio. Trata-se de um esteroide sintético empregado em alguns implantes manipulados. Segundo as sociedades signatárias, não há indicação estabelecida para seu uso como terapia da menopausa, reposição hormonal, estratégia metabólica ou tratamento antienvelhecimento.¹

O documento menciona ainda implantes contendo substâncias como metformina, ocitocina, tadalafila, oxandrolona e NAD, para as quais as entidades afirmam não haver base suficiente para essa forma de administração.¹

Chips da beleza não são sinônimo de terapia hormonal da menopausa

Uma distinção importante dessa discussão é evitar que a controvérsia em torno dos chamados chips da beleza gere desconfiança em relação a todo tratamento hormonal.

A terapia hormonal da menopausa possui indicações clínicas bem estabelecidas. O posicionamento da então North American Menopause Society, hoje The Menopause Society, publicado em 2022, considera o tratamento a intervenção mais eficaz para os sintomas vasomotores, como as ondas de calor, e para a síndrome geniturinária da menopausa, além de apontar benefício na prevenção da perda óssea e de fraturas.⁴

Isso não significa que toda mulher deva receber hormônios. A indicação depende de fatores como idade, tempo transcorrido desde o início da menopausa, sintomas, condições clínicas, contraindicações e perfil individual de risco. Dose, formulação, via de administração e duração também precisam ser escolhidas caso a caso.⁴

É como ajustar uma lente: o tratamento precisa ser adequado à necessidade de quem está usando. Uma fórmula que funciona para uma pessoa pode não ser apropriada para outra.

A Carta do Rio de Janeiro faz essa separação de forma explícita. A proposta de proibição se dirige aos implantes hormonais manipulados e não à terapia hormonal da menopausa realizada com tratamentos estudados, ajustáveis e monitoráveis.¹

A controvérsia está nesse ponto. Um produto manipulado para uso individual pode ter espaço dentro da regulamentação brasileira atual, mas as sociedades signatárias consideram que a via implantável e a ausência do desenvolvimento clínico e regulatório exigido para medicamentos registrados criam incertezas suficientes para justificar uma restrição mais ampla.¹

O que pode acontecer agora com os implantes hormonais manipulados

A Carta do Rio de Janeiro pede que a Anvisa e outros órgãos públicos avancem além das regras atuais. As entidades também defendem maior fiscalização, fortalecimento da farmacovigilância, notificação de eventos adversos e responsabilização das cadeias comerciais envolvidas.¹

O documento, por si só, não altera a regulamentação vigente.

Até que haja uma nova decisão regulatória, os implantes hormonais manipulados continuam podendo ser prescritos para situações terapêuticas específicas, desde que cumpridas as condições estabelecidas pela Anvisa. Permanecem proibidos os usos estéticos, para ganho de massa muscular ou melhora de desempenho esportivo nos casos previstos pela norma, assim como a propaganda desses produtos ao público em geral.²

Para quem recebe a indicação de um implante hormonal, algumas perguntas ajudam a colocar a decisão em perspectiva: qual substância será utilizada, qual é a indicação clínica, o que se sabe sobre essa finalidade, se a via implantável foi estudada e se existe uma alternativa registrada que permita ajustar ou interromper o tratamento com maior facilidade.

O posicionamento recoloca em discussão se os controles existentes são suficientes ou se a via implantável manipulada deve receber uma restrição maior.

Equipe Saúde a Sério

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