
Nos últimos dias, publicações recentes em redes sociais e aplicativos de mensagens têm divulgado supostas informações sobre a aprovação de uma vacina contra o HIV nos Estados Unidos. A promessa de um avanço tão significativo na luta contra uma das pandemias mais desafiadoras da história desperta esperança e curiosidade. Mas será que estamos diante de um marco histórico ou de mais uma notícia falsa?
A resposta é direta: não existe vacina aprovada contra o HIV. Nenhuma agência reguladora no mundo, incluindo a Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos, aprovou uma vacina preventiva contra o Vírus da Imunodeficiência Humana. A Organização Mundial da Saúde (OMS), o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) não fizeram qualquer anúncio oficial nesse sentido¹.
Se fosse verdade, estaríamos diante de uma revolução na saúde pública global. Uma vacina eficaz contra o HIV ofereceria uma nova arma para conter a disseminação do vírus, que afeta cerca de 39 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo dados de 2023 do UNAIDS². A realidade científica, porém, é outra: até o momento, nenhuma vacina preventiva contra o HIV obteve aprovação ou eficácia comprovada.
Por que o HIV é um desafio para a ciência
O HIV é um vírus excepcionalmente complexo. Sua alta taxa de mutação dificulta o reconhecimento e o combate pelo sistema imunológico³. Além disso, o vírus consegue integrar seu material genético ao DNA das células hospedeiras, tornando-se praticamente invisível para as defesas do organismo⁴.
Há ainda outro complicador: o HIV ataca justamente as células de defesa do corpo, conhecidas como linfócitos T⁵. Diferente de vírus como o da poliomielite ou do sarampo, que geram uma resposta imune duradoura, o HIV não provoca essa mesma reação protetora⁶ — o que torna o desenvolvimento de uma vacina preventiva contra o HIV um desafio monumental.
Décadas de pesquisa e nenhum imunizante aprovado
A comunidade científica tem investido décadas de estudos e bilhões de dólares na busca por uma vacina eficaz contra o HIV. Desde os anos 1980, mais de 100 candidatas a vacinas foram testadas em ensaios clínicos, mas nenhuma alcançou eficácia suficiente para aprovação comercial, segundo revisão publicada na revista Vaccine⁷.
Foram testadas tecnologias inovadoras — de vacinas baseadas em vírus modificados até as de RNA mensageiro (mRNA), conhecidas por seu sucesso contra a COVID-19⁸. Em 2009, um ensaio clínico na Tailândia chegou a mostrar eficácia de 31% na prevenção da infecção⁹, mas os resultados não se sustentaram.
Mais recentemente, estudos conduzidos pela rede internacional do National Institutes of Health (NIH) entre 2019 e 2023, realizados na África, América Latina e Europa¹¹, foram encerrados por falta de eficácia. Ainda assim, cada tentativa traz aprendizados valiosos para a imunologia e mantém viva a esperança científica.
O que já funciona: tratamento e prevenção
Desde a década de 1990, avanços decisivos transformaram o tratamento do HIV, embora ainda não exista vacina. A Terapia Antirretroviral (TARV) — um conjunto de medicamentos que bloqueiam a multiplicação do vírus — permite que pessoas vivendo com HIV tenham vida longa e saudável¹².
Quando a carga viral se torna indetectável, a pessoa não transmite o vírus sexualmente, conceito conhecido como **Indetectável = Intransmissível (I=I)**¹³. Hoje, cerca de 30 milhões de pessoas no mundo têm acesso à TARV², o que representa um marco histórico no controle da epidemia.
Outra estratégia de prevenção é a **Profilaxia Pré-Exposição (PrEP)**¹⁴. Trata-se de um medicamento tomado regularmente por pessoas sem o vírus, mas em situação de maior risco, capaz de impedir a infecção caso haja exposição. A PrEP é aprovada pela FDA¹⁵ e pela ANVISA¹⁶. Diferente de uma vacina, que estimula o sistema imunológico, a PrEP atua bloqueando a replicação do HIV. Ambas são estratégias complementares, mas com mecanismos distintos.
Medidas eficazes e prevenção contínua
Enquanto a vacina não chega, as formas de prevenção do HIV continuam sendo as mais seguras e acessíveis. O uso correto e consistente de preservativos pode **reduzir o risco de transmissão em até 80%**¹⁸. Em situações de risco recente, existe a **Profilaxia Pós-Exposição (PEP)**¹⁹, que deve ser iniciada nas primeiras duas horas após o contato e, no máximo, em até 72 horas. Além disso, a testagem regular²⁰ é essencial para conhecer o próprio status sorológico e interromper cadeias de transmissão.
A ciência segue avançando. Estudos com vacinas de RNA mensageiro e anticorpos amplamente neutralizantes vêm mostrando resultados promissores em modelos animais²². Ainda em fase experimental, esses projetos alimentam a expectativa de que, no futuro, teremos uma vacina contra o HIV segura e eficaz.
A verdade e a vigilância: aliados contra a desinformação
A luta contra o HIV é também uma batalha contra a desinformação. Notícias falsas sobre vacinas ou curas milagrosas comprometem a confiança na ciência e desviam pessoas de métodos comprovadamente eficazes. Enquanto aguardamos o avanço das pesquisas, é fundamental manter a prevenção, o tratamento contínuo e a informação de qualidade como nossas maiores armas na contenção do vírus.
Anvisa carcinoma basocelular carcinoma espinocelular Ciência e Saúde Câncer de Mama câncer de pele demência frontotemporal desinformação em saúde diabetes tipo 2 diagnóstico precoce Estilo de vida saudável evidências científicas Infarto medicina baseada em evidências menopausa OMS Oncologia prevenção cardiovascular Prevenção em saúde Qualidade de Vida Reposição Hormonal Saúde a Sério Saúde com responsabilidade saúde da mulher saúde da pele saúde do coração Saúde masculina saúde mental saúde pública Terapia Hormonal
- World Health Organization. HIV vaccine development. WHO, 2024. https://www.who.int/teams/health-product-policy-and-standards/standards-and-specifications/vaccines-quality/hiv
- UNAIDS. Global HIV & AIDS statistics — Fact sheet. 2024. https://www.unaids.org/en/resources/fact-sheet
- Shankarappa R, Margolick JB, Gange SJ, et al. Consistent viral evolutionary changes associated with the progression of human immunodeficiency virus type 1 infection. J Virol. 1999;73(12):10489-10502. https://journals.asm.org/doi/10.1128/JVI.73.12.10489-10502.1999
- Chun TW, Carruth L, Finzi D, et al. Quantification of latent tissue reservoirs and total body viral load in HIV-1 infection. Nature. 1997;387(6629):183-188. https://www.nature.com/articles/387183a0
- Douek DC, Roederer M, Koup RA. Emerging concepts in the immunopathogenesis of AIDS. Annu Rev Med. 2009;60:471-484. https://www.annualreviews.org/doi/10.1146/annurev.med.60.041807.123549
- Haynes BF, Gilbert PB, McElrath MJ, et al. Immune-correlates analysis of an HIV-1 vaccine efficacy trial. N Engl J Med. 2012;366(14):1275-1286. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1113425
- Esparza J. A brief history of the global effort to develop a preventive HIV vaccine. Vaccine. 2013;31(35):3502-3518. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0264410X13007330
- Zhang P, Narayanan E, Liu Q, et al. A multiclade env-gag VLP mRNA vaccine elicits tier-2 HIV-1-neutralizing antibodies and reduces the risk of heterologous SHIV infection in macaques. Nat Med. 2021;27(12):2234-2245. https://www.nature.com/articles/s41591-021-01574-5
- Rerks-Ngarm S, Pitisuttithum P, Nitayaphan S, et al. Vaccination with ALVAC and AIDSVAX to prevent HIV-1 infection in Thailand. N Engl J Med. 2009;361(23):2209-2220. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa0908492
- Gray GE, Bekker LG, Laher F, et al. Vaccine efficacy of ALVAC-HIV and bivalent subtype C gp120-MF59 in adults. N Engl J Med. 2021;384(12):1089-1100. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2031499
- National Institutes of Health. Experimental HIV vaccine regimen ineffective in preventing HIV. NIH News Releases, January 18, 2023. https://www.nih.gov/news-events/news-releases/experimental-hiv-vaccine-regimen-ineffective-preventing-hiv
- Palella FJ Jr, Delaney KM, Moorman AC, et al. Declining morbidity and mortality among patients with advanced human immunodeficiency virus infection. N Engl J Med. 1998;338(13):853-860. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM199803263381301
- Cohen MS, Chen YQ, McCauley M, et al. Antiretroviral therapy for the prevention of HIV-1 transmission. N Engl J Med. 2016;375(9):830-839. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1600693
- Grant RM, Lama JR, Anderson PL, et al. Preexposure chemoprophylaxis for HIV prevention in men who have sex with men. N Engl J Med. 2010;363(27):2587-2599. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1011205
- U.S. Food and Drug Administration. FDA approves first drug for reducing the risk of sexually acquired HIV infection. FDA News Release, July 16, 2012. https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-approves-first-drug-reducing-risk-sexually-acquired-hiv-infection
- Ministério da Saúde do Brasil. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de Risco à Infecção pelo HIV. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/2013/hiv-aids/pcdt_prep_22_03_2018_web.pdf
- U.S. Food and Drug Administration. Step 3: Clinical Research. FDA, 2024. https://www.fda.gov/patients/drug-development-process/step-3-clinical-research
- Weller S, Davis K. Condom effectiveness in reducing heterosexual HIV transmission. Cochrane Database Syst Rev. 2002;(1):CD003255. https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD003255/full
- World Health Organization. Guidelines on post-exposure prophylaxis for HIV and the use of co-trimoxazole prophylaxis for HIV-related infections among adults, adolescents and children. WHO, 2014. https://www.who.int/publications/i/item/9789241506830
- Centers for Disease Control and Prevention. HIV Testing. CDC, 2024. https://www.cdc.gov/hiv/basics/testing.html
- Zhang P, Narayanan E, Liu Q, et al. A multiclade env-gag VLP mRNA vaccine elicits tier-2 HIV-1-neutralizing antibodies and reduces the risk of heterologous SHIV infection in macaques. Nat Med. 2021;27(12):2234-2245. https://www.nature.com/articles/s41591-021-01574-5
- Haynes BF, Wiehe K, Borrow P, et al. Strategies for HIV-1 vaccines that induce broadly neutralizing antibodies. Nat Rev Immunol. 2023;23(3):142-158. https://www.nature.com/articles/s41577-022-00753-w