Vacinas respiratórias: diferenças entre gripe, covid, pneumonia e mais

Entenda o que cada vacina protege, quem deve tomar e por que elas não se substituem

Tempo de Leitura: 5 minutos

Doenças respiratórias seguem entre as principais causas de hospitalização e morte evitável no Brasil, especialmente entre bebês, idosos e pessoas com doenças crônicas¹. Vírus e bactérias que afetam as vias aéreas continuam pressionando o sistema de saúde e respondem por uma parcela significativa dos casos de síndrome respiratória aguda grave. Influenza, SARS-CoV-2, vírus sincicial respiratório, pneumococo e Bordetella pertussis estão entre os principais agentes envolvidos. As vacinas respiratórias são hoje a principal forma de reduzir esse impacto, desde que se entenda que cada imunizante atua de maneira específica.

Embora afetem o mesmo sistema, gripe, covid-19, pneumonia pneumocócica, coqueluche e infecções pelo vírus sincicial respiratório têm origens diferentes. Cada uma é causada por um agente distinto, com características próprias e comportamento particular no organismo. As vacinas funcionam ao treinar o sistema imunológico para reconhecer esses alvos específicos. Por isso, uma vacina não substitui a outra — e não existe uma proteção única capaz de cobrir todas as doenças respiratórias². A prevenção mais eficaz resulta da combinação adequada de imunizantes ao longo da vida, levando em conta idade, condições de saúde e recomendações científicas atualizadas.

Vacinas contra gripe e covid-19: vírus em constante mudança

A vacinação contra a gripe ajuda a entender bem essa lógica. O vírus influenza sofre mutações frequentes, o que obriga a atualização anual da composição da vacina. Todos os anos, a Organização Mundial da Saúde acompanha quais cepas estão circulando globalmente e orienta a formulação da dose seguinte³. É por isso que a proteção precisa ser renovada a cada temporada.

Mesmo quando a eficácia contra a infecção não é total, estudos observacionais e análises de efetividade em larga escala mostram queda consistente de hospitalizações, complicações e mortes, especialmente entre idosos, gestantes, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas⁴⁻⁶. O foco da vacina da gripe não é impedir todos os casos, mas reduzir os quadros graves e aliviar a pressão sobre o sistema de saúde.

Com a covid-19, o caminho foi outro. O que começou como resposta urgente a uma pandemia acabou incorporado ao calendário regular de vacinação. Ao longo do tempo, ficou claro que a proteção contra infecções leves diminui; ainda assim, a proteção contra desfechos graves, como internações e óbitos, permanece elevada após as doses de reforço⁷.

Por esse motivo, a revacinação periódica segue indicada para grupos de maior risco, como idosos, pessoas imunossuprimidas e portadores de comorbidades. Crianças pequenas, por sua vez, seguem esquemas próprios, definidos a partir de estudos que avaliam segurança e capacidade de gerar resposta imunológica⁸. A aplicação conjunta das vacinas contra gripe e covid-19 é considerada segura e eficaz⁹, o que facilita a adesão e amplia a proteção coletiva.

Vacina pneumocócica: quando a ameaça é bacteriana

Quando o agente causador é uma bactéria, a estratégia muda. A vacina pneumocócica protege contra o Streptococcus pneumoniae, responsável por pneumonias, meningites e outras infecções invasivas que circulam ao longo de todo o ano¹⁰. Ao contrário dos vírus respiratórios sazonais, o pneumococo pode provocar doença grave sempre que encontra um organismo mais vulnerável.

As vacinas conjugadas fazem parte do calendário infantil e estimulam uma resposta imunológica duradoura. Em idosos e pessoas com condições clínicas específicas, versões com maior cobertura de sorotipos reduzem de forma significativa o risco de doença grave¹¹. Não se trata de vacinação anual, mas de esquemas definidos conforme o perfil de risco e o histórico vacinal de cada pessoa.

Coqueluche: proteção que começa antes do nascimento

A coqueluche é um bom exemplo de como a vacinação pode proteger quem ainda não pode ser vacinado. Em recém-nascidos, que não completaram o esquema vacinal, a doença pode evoluir de forma grave. Por isso, a principal estratégia de proteção é a vacinação da gestante com a dTpa a partir da 20ª semana de gravidez.

Os anticorpos produzidos pela mãe atravessam a placenta e ajudam a proteger o bebê nos primeiros meses de vida¹². Estudos observacionais mostram redução consistente das hospitalizações de lactentes após a adoção dessa estratégia¹³. A dose precisa ser repetida a cada gestação, independentemente do intervalo entre elas, para garantir a proteção adequada.

Vírus sincicial respiratório: novas respostas para um velho problema

Durante décadas, o vírus sincicial respiratório representou uma lacuna importante na prevenção de doenças respiratórias. Principal causa de bronquiolite em bebês e fator relevante de internações em idosos, o VSR passou recentemente a contar com novas estratégias de imunização.

Ensaios clínicos demonstraram que vacinas contra o vírus reduzem infecções do trato respiratório inferior e hospitalizações em adultos mais velhos, especialmente aquelas associadas a formas graves da doença¹⁴. Outra abordagem eficaz é a vacinação da gestante, que permite a transferência de anticorpos para o bebê ainda durante a gestação¹⁵.

Entre os grupos mais vulneráveis, como bebês prematuros e crianças com comorbidades, o uso de anticorpos monoclonais de longa duração mostrou redução expressiva das hospitalizações¹⁶. Dados brasileiros indicam que o VSR responde por uma parcela relevante dos casos de síndrome respiratória aguda grave em menores de um ano¹.

Não existe uma única vacina capaz de proteger contra todas as doenças respiratórias. O que existe é um conjunto de vacinas respiratórias sustentadas por evidência científica, organizadas no Programa Nacional de Imunizações — um dos maiores programas públicos de vacinação do mundo¹⁷. Quando utilizadas de forma adequada, essas ferramentas reduzem de maneira significativa o risco de complicações, internações e mortes evitáveis.

Como qualquer intervenção médica, as vacinas podem provocar eventos adversos, em geral leves e passageiros, descritos de forma consistente em estudos de segurança pós-comercialização, como dor no local da aplicação ou febre baixa. Reações graves são raras, e as análises de segurança mostram que os benefícios superam amplamente os riscos²,⁷. Há contraindicações específicas, como histórico de reação alérgica grave a componentes da vacina, e situações em que a aplicação deve ser adiada, como quadros febris agudos. As recomendações podem variar conforme idade, condições clínicas e histórico individual, o que torna a avaliação por um profissional de saúde sempre recomendável.

Manter o calendário de vacinas respiratórias em dia não é apenas uma escolha individual. Quanto maior a cobertura vacinal, menor a circulação de vírus e bactérias na comunidade, protegendo especialmente quem não pode se vacinar por motivos médicos. Ao longo da vida, a vacinação respiratória se consolida como uma estratégia contínua de saúde pública, que combina proteção individual e benefício coletivo — e segue sendo uma das intervenções mais eficazes da medicina moderna.

  1. Ministério da Saúde. Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG): vigilância epidemiológica. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/srag
  2. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Imunizações (PNI). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/pni
  3. World Health Organization (WHO). Recommended composition of influenza virus vaccines for use in the 2025 southern hemisphere influenza season. Disponível em: https://cdn.who.int/media/docs/default-source/vcm-southern-hemisphere-recommendation-2025/sep-2024-sh-recommendations_seasonal_final.pdf
  4. Freitas FTM, Souza LRO, Azziz-Baumgartner E, et al. Efetividade da estratégia brasileira de vacinação contra influenza: revisão sistemática. Revista de Saúde Pública. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsp/a/wwjzQBt3FYTRbFsrhV8s6My/
  5. Ministério da Saúde. A vacina da influenza realmente protege contra a doença? Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-com-ciencia/noticias/2024/agosto/a-vacina-da-influenza-realmente-protege-contra-a-doenca
  6. Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Estudo sobre a eficácia da vacina da gripe no Brasil. Disponível em: https://www.saude.df.gov.br/web/guest/w/df-participa-de-estudo-sobre-eficacia-da-vacina-de-gripe-no-pais
  7. Ministério da Saúde. Vacinação contra a covid-19: esquemas e doses de reforço. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/covid-19
  8. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/calendario
  9. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Co-administration of influenza and COVID-19 vaccines. Disponível em: https://www.cdc.gov/vaccines/covid-19/clinical-considerations/interim-considerations-us.html
  10. Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Vacinas pneumocócicas conjugadas. Disponível em: https://familia.sbim.org.br/vacinas/vacinas-disponiveis/vacinas-pneumococicas-conjugadas
  11. Agência Brasil. Consulta pública sobre vacinação contra pneumococo. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-10/consulta-sobre-vacinacao-contra-pneumococo-vai-ate-11-de-novembro
  12. Ministério da Saúde. Vacina dTpa para gestantes. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/dtpa
  13. Bellei NCJ, Oliveira EHM, Soares LS, et al. Hospitalização por coqueluche antes e após a introdução da dTpa para gestantes. Cadernos de Saúde Coletiva. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cadsc/a/y48ZMwDT8QJdfZjSgw36kxx/
  14. GSK. Anvisa aprova vacina contra o vírus sincicial respiratório para adultos com 60 anos ou mais. Disponível em: https://br.gsk.com/pt-br/midia/sala-de-imprensa/anvisa-aprova-vacina-da-gsk-contra-virus-sincicial-respiratorio-para-adultos-com-60-anos-ou-mais-doenca-pode-causar-complicacoes-graves-em-idosos/
  15. Pfizer. Abrysvo: vacina contra VSR para gestantes e idosos – dados clínicos. Disponível em: https://www.pfizer.com/news/press-release
  16. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Aprovação do nirsevimabe para prevenção do VSR. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa
  17. Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS). PNI: entenda como funciona um dos maiores programas de vacinação do mundo. Disponível em: https://www.unasus.gov.br/noticia/pni-entenda-como-funciona-um-dos-maiores-programas-de-vacinacao-do-mundo

Equipe Saúde a Sério

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