
Há algumas décadas, falar em doenças como sarampo, poliomielite ou difteria fazia parte da rotina. Estavam na escola, nas conversas de família, no dia a dia. Hoje, esses nomes parecem distantes, quase esquecidos. E é justamente aí que surge um paradoxo curioso: quando a prevenção funciona bem demais, o risco desaparece do radar. Sem ele, a urgência também vai embora.
É nesse espaço — entre o sucesso da ciência e a percepção das pessoas — que cresce a chamada hesitação vacinal. O efeito já aparece nos números e começa a afetar a cobertura vacinal no Brasil e em outros países.
Para a infectologista Rosana Richtmann, referência em imunização, o termo descreve bem o momento atual. Na prática, não se trata de uma recusa direta. O que se vê com mais frequência é dúvida — e ela não surge do nada.
Hoje, a informação circula em excesso. Nem sempre com qualidade. Some-se a isso o desgaste provocado pela pandemia e um detalhe importante: muita gente simplesmente nunca viu essas doenças de perto. Elas deixaram de fazer parte da experiência cotidiana.
A lógica, nesse caso, é quase inevitável. Se a poliomielite nunca apareceu na vida de alguém, por que ela pareceria uma ameaça real? O problema é que essas doenças não desapareceram. Foram controladas. E continuam assim porque existe vacinação — e porque ela ainda funciona.
A varíola é uma exceção conhecida. Erradicada globalmente, com reconhecimento da Organização Mundial da Saúde¹, deixou de circular no planeta. Mas esse é um caso raro. A maioria das doenças infecciosas continua existindo, ainda que sob controle. O sarampo mostra bem isso: pode desaparecer de um país por um tempo, mas segue circulando em outras regiões².
E basta uma brecha. No caso do sarampo, por exemplo, é preciso que cerca de 95% da população esteja vacinada para impedir a transmissão³. Quando esse nível cai, o vírus encontra caminho de volta.
A hesitação vacinal, nesse contexto, deixa de ser algo individual. Ela se espalha, fragiliza a proteção coletiva e reabre espaço para doenças que pareciam resolvidas. O impacto, cedo ou tarde, aparece — inclusive nos serviços de saúde.
O que a pandemia de COVID-19 mudou na percepção sobre vacinação
A pandemia trouxe um contraste difícil de ignorar. No começo, o risco era evidente. Hospitais cheios, números altos de mortes, uma sensação constante de urgência. A busca por vacina veio quase como um reflexo.
Com o tempo, esse cenário mudou. A vacinação avançou, os casos graves diminuíram e, pouco a pouco, a percepção de risco também caiu. A urgência deixou de ser prioridade. Isso não aconteceu por acaso — acompanha mudanças nas estratégias globais de vacinação⁴.
Hoje, boa parte da população já teve contato com o vírus ou foi vacinada. Isso alterou tanto a dinâmica da doença quanto as recomendações. A vacinação contra COVID-19 passou a funcionar de forma mais próxima à da gripe: focada em grupos específicos, com reforços periódicos e ajustes conforme as variantes em circulação⁵.
É uma espécie de atualização contínua do organismo. O sistema imunológico precisa ser relembrado de como reagir.
Essa lógica ajuda a entender outro ponto que ainda gera dúvidas: a vacinação durante a gestação.
Vacinação na gestação e imunização infantil: proteção que começa antes do nascimento
Durante a gravidez, o corpo da mulher oferece uma camada extra de proteção ao bebê. Anticorpos produzidos pela mãe atravessam a placenta e ajudam a proteger a criança nos primeiros meses de vida — justamente quando ela ainda não pode receber diversas vacinas do calendário vacinal infantil⁶.
É um mecanismo silencioso, mas essencial. Faz parte do que se entende por imunização infantil, ainda antes do nascimento.
Vacinas como influenza, COVID-19 e coqueluche entram nesse contexto. Além de proteger contra infecções, há evidências de que a vacinação na gestação está associada à redução de complicações como parto prematuro e baixo peso ao nascer⁷.
Mesmo assim, é nesse momento que surgem muitas dúvidas. Principalmente quando o assunto envolve a segurança das vacinas.
Segurança das vacinas: o que são eventos adversos e quando se preocupar
Eventos adversos existem. Isso precisa ser dito com clareza. Mas também é importante colocar em perspectiva: na grande maioria dos casos, são leves e passageiros — dor no local da aplicação, febre baixa, mal-estar⁸.
Na prática, são sinais de que o sistema imunológico está reagindo. É como um ensaio antes de um eventual contato com o vírus.
Situações mais graves são raras e costumam estar associadas a condições específicas, como em pessoas com imunidade comprometida⁹. Por isso, a avaliação individual faz diferença. A recomendação não é genérica — ela leva em conta cada caso.
Outro ponto que costuma passar despercebido é o processo por trás das vacinas. Elas não chegam prontas à população. Passam por várias etapas de desenvolvimento, testes rigorosos e continuam sendo monitoradas mesmo depois de aprovadas. Esse acompanhamento é o que permite identificar efeitos raros e ajustar orientações quando necessário⁸.
Vacinas e autismo: o impacto duradouro da desinformação
Mesmo com esse nível de controle, alguns mitos continuam circulando. O mais persistente talvez seja a ideia de que vacinas causam autismo. Essa hipótese surgiu a partir de um estudo publicado em 1998 e depois retirado por fraude¹⁰.
Desde então, uma série de pesquisas — com milhões de crianças — mostrou de forma consistente que não existe relação causal entre vacinação e transtorno do espectro autista¹¹.
Há também equívocos mais comuns. Um deles é a crença de que a vacina da gripe pode causar gripe. O que acontece, na prática, é coincidência de tempo: a vacinação ocorre justamente quando os vírus respiratórios estão mais presentes. Vacinas inativadas não provocam a doença¹².
Vacinas no Brasil: avanços científicos e desafios da cobertura vacinal
Se a desinformação ainda é um obstáculo, o avanço científico segue em ritmo acelerado.
As vacinas de RNA mensageiro, que ganharam destaque durante a pandemia, funcionam como um tipo de instrução temporária para o organismo. Elas ensinam as células a reconhecer um vírus específico. Essa tecnologia já vinha sendo estudada e deve ganhar novas aplicações nos próximos anos, inclusive em áreas como oncologia¹³.
Ao mesmo tempo, outras vacinas continuam evoluindo. Novas versões ampliam a proteção contra bactérias como o pneumococo. A vacinação contra dengue também começa a ganhar espaço, ainda que enfrente desafios importantes, como acesso e adesão.
O ponto central, no entanto, não mudou: avanço científico, sozinho, não resolve. Para ter impacto real, a vacina precisa chegar às pessoas — e ser aceita por elas.
Em um país como o Brasil, isso envolve questões práticas. Logística, desigualdade, acesso. A cobertura vacinal não depende apenas da ciência, mas também dessas variáveis.
No fim, a decisão de se vacinar nunca é isolada. Ela afeta quem está ao redor — crianças pequenas, idosos, pessoas com imunidade reduzida.
Vacinar-se, nesse contexto, é menos um ato individual e mais parte de uma rede de proteção coletiva.
Para quem ainda tem dúvidas, o caminho é conhecido: buscar informação de qualidade, conversar com profissionais de saúde e verificar o calendário vacinal atualizado. Instituições como a Sociedade Brasileira de Imunizações e o Ministério da Saúde reúnem orientações baseadas em evidência.
A ciência fez sua parte. Talvez o desafio agora seja outro: lembrar por que ela foi necessária.
Porque, quando a prevenção deixa de ser percebida, o risco — mais cedo ou mais tarde — volta a aparecer.
Assista ao episódio do Podcast do Saúde a Sério com a Dra Rosana falando mais sobre vacinação
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- World Health Organization. Measles. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/measles
- CDC. Measles (Rubeola). https://www.cdc.gov/measles/hcp/index.html
- WHO. COVID-19 vaccination strategy. https://www.who.int/publications/i/item/WHO-2019-nCoV-Vaccines-Strategy
- CDC. COVID-19 Vaccine Effectiveness. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/vaccines/effectiveness
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