Cardiomiopatia hipertrófica: quando o coração cresce em silêncio e a ciência tenta mudar o rumo da doença

Condição genética pode permanecer sem sintomas por décadas e, embora tenha sido associada a casos de morte súbita em atletas jovens, também afeta pessoas sem sinais aparentes

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O coração é um músculo que trabalha sem pausa. Ajusta o ritmo ao esforço físico, reage ao estresse, desacelera no descanso. Em algumas pessoas, porém, esse mecanismo começa a mudar silenciosamente. O músculo cardíaco engrossa aos poucos. O espaço interno diminui. E o órgão passa a funcionar sob maior dificuldade, muitas vezes sem sinais claros no início.

A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença cardíaca genética que provoca o espessamento anormal do músculo cardíaco, especialmente do ventrículo esquerdo, principal câmara responsável por bombear sangue para o corpo.¹ Esse aumento da musculatura, muitas vezes percebido pelo paciente como um “coração aumentado”, não significa necessariamente mais força. Em muitos casos, ocorre justamente o oposto. O coração se torna mais rígido, menos eficiente e mais vulnerável a alterações elétricas potencialmente perigosas.¹

Embora tenha ganhado notoriedade pela relação com casos de morte súbita cardíaca em atletas jovens, a doença está longe de se restringir a esse cenário. Ela pode surgir em qualquer idade, afetar homens e mulheres e permanecer sem sintomas durante décadas.

Estudos populacionais publicados pelos cardiologistas Barry Maron e Martin Maron na revista científica The Lancet, em 2013, apontaram prevalência aproximada de um caso para cada 500 pessoas.² Mesmo assim, nem todos os portadores das alterações genéticas associadas à doença desenvolvem manifestações clínicas relevantes.

A grande dificuldade da cardiomiopatia hipertrófica está justamente na sua variabilidade. Há pacientes que descobrem a condição em exames de rotina e convivem bem com ela por toda a vida. Outros evoluem com sintomas progressivos, arritmias, insuficiência cardíaca ou episódios de desmaio relacionados ao esforço físico. Em alguns casos, a primeira manifestação pode ser um evento cardiovascular grave.³

Cardiomiopatia hipertrófica: sintomas e diagnóstico ainda desafiam pacientes e médicos

Na maioria das vezes, a doença está ligada a mutações em genes associados ao sarcômero, estrutura responsável pela contração das fibras musculares cardíacas. Como a transmissão costuma seguir padrão autossômico dominante, filhos e irmãos de pacientes diagnosticados apresentam maior chance de também carregar alterações associadas à doença.⁴ Por isso, o rastreamento familiar passou a ocupar espaço cada vez maior no acompanhamento desses casos.

Esse movimento também mudou a forma como a cardiologia passou a olhar para prevenção cardiovascular. O histórico familiar deixou de ser apenas uma informação complementar da consulta e ganhou peso como ferramenta para identificação precoce de pessoas sob maior risco.

Os sintomas mais comuns incluem falta de ar, cansaço aos esforços, dor no peito, palpitações e episódios de tontura ou síncope. Nem sempre aparecem juntos. Justamente por serem relativamente inespecíficos, muitos pacientes passam anos associando os sinais ao sedentarismo, à ansiedade, ao envelhecimento ou ao estresse da rotina.¹ Pessoas com histórico familiar da doença, desmaios inexplicados ou palpitações recorrentes durante atividade física costumam merecer investigação cardiológica mais detalhada.

O músculo hipertrofiado também pode dificultar a saída do sangue do coração, criando o que os cardiologistas chamam de obstrução dinâmica. Na prática, o fluxo sanguíneo encontra mais dificuldade para sair do coração durante os batimentos. Esse mecanismo tende a piorar durante exercícios físicos ou situações de aumento da frequência cardíaca. Ao mesmo tempo, o tecido cardíaco se torna mais suscetível a arritmias ventriculares, uma das principais preocupações relacionadas à doença.⁵

O diagnóstico mudou bastante nos últimos anos. O avanço do ecocardiograma e da ressonância magnética cardíaca ampliou a capacidade de identificar alterações estruturais precoces e avaliar fatores associados ao risco de morte súbita cardíaca.⁴ Os exames passaram a mostrar detalhes que antes ficavam escondidos atrás de sintomas vagos ou alterações pouco específicas.

Tratamento da cardiomiopatia hipertrófica amplia possibilidades, mas ainda exige cautela

A estratificação de risco também ficou mais refinada. Hoje, fatores como histórico familiar de morte súbita, episódios prévios de síncope, presença de arritmias ventriculares, espessura importante do músculo cardíaco e sinais específicos na ressonância ajudam a definir quais pacientes podem se beneficiar do implante de um cardiodesfibrilador, dispositivo capaz de interromper arritmias graves automaticamente.⁵ Parte dessas estratégias foi sendo aprimorada ao longo dos anos com a atualização progressiva das diretrizes internacionais.

O tratamento também evoluiu. Betabloqueadores e bloqueadores de canais de cálcio continuam entre as principais opções para controle dos sintomas. Nos últimos anos, porém, terapias direcionadas ao funcionamento molecular do músculo cardíaco começaram a ganhar espaço em pacientes com formas obstrutivas da doença.⁶

Entre elas está o mavacamten, medicamento aprovado pela FDA, agência reguladora norte-americana, para cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva sintomática em adultos.⁷ O medicamento ainda não faz parte da rotina da maior parte dos serviços brasileiros e seu uso permanece mais concentrado em cenários específicos e centros especializados.

Os estudos clínicos mostraram melhora de sintomas e da capacidade funcional em parte dos pacientes tratados.⁶ Ao mesmo tempo, especialistas mantêm cautela. O medicamento exige monitoramento rigoroso da função cardíaca e possui critérios bastante específicos de indicação.⁶

A cardiomiopatia hipertrófica continua sendo uma doença crônica e sem cura definitiva. Mesmo pacientes com boa resposta ao tratamento precisam de acompanhamento contínuo.⁶

O acesso a terapias mais recentes também ainda representa um desafio. Medicamentos de alto custo e necessidade de seguimento especializado acabam limitando a disponibilidade em muitos sistemas de saúde. Por isso, diagnóstico precoce e acompanhamento regular seguem centrais no cuidado desses pacientes.

Em casos selecionados, procedimentos invasivos podem ajudar a reduzir a obstrução causada pelo espessamento do músculo cardíaco. Entre eles estão a miectomia cirúrgica, que remove parte do músculo hipertrofiado, e a ablação septal alcoólica, técnica que reduz esse tecido por meio de um cateter.¹ Ambos os procedimentos já são realizados no Brasil, mas dependem de centros especializados e avaliação bastante criteriosa.

A relação entre cardiomiopatia hipertrófica e atividade física também vem sendo revista nos últimos anos. Durante muito tempo, o receio de arritmias graves levou a restrições amplas para prática esportiva. Hoje, especialistas defendem decisões mais individualizadas, levando em conta o perfil de risco de cada paciente, o tipo de exercício e o acompanhamento cardiológico especializado.⁴ Isso não significa liberação irrestrita para atividades intensas. Significa uma análise mais cuidadosa e personalizada dos riscos envolvidos.

Apesar do estigma historicamente associado à cardiomiopatia hipertrófica, especialistas destacam que o prognóstico mudou bastante nas últimas décadas. A maior parte dos pacientes acompanhados adequadamente apresenta boa sobrevida e consegue manter rotina próxima do normal, desde que exista monitoramento regular e avaliação individualizada do risco cardiovascular.³

A doença, porém, continua levantando discussões importantes sobre rastreamento familiar, genética e prevenção cardiovascular em pessoas jovens aparentemente saudáveis. Muitos casos seguem subdiagnosticados, especialmente entre indivíduos sem sintomas evidentes.

A ciência avançou na compreensão da doença. Os exames ficaram mais precisos. Os tratamentos começaram a se tornar mais individualizados. Ainda assim, boa parte do impacto dessas mudanças depende da capacidade de identificar pacientes antes que os primeiros sinais apareçam de forma mais grave.

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  1. Fernandes F, Arteaga E, Ianni BM, et al. Diretriz Brasileira de Cardiomiopatia Hipertrófica. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2017;109(6 Suppl 1):1-46. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/ZCS9yyxrVK8H7qgFTbn9rvH/
  2. Maron BJ, Maron MS. Hypertrophic Cardiomyopathy. Lancet. 2013;381(9862):242-255. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22874472/
  3. Maron BJ, Rowin EJ, Casey SA, et al. Hypertrophic Cardiomyopathy in Adulthood Associated With Low Cardiovascular Mortality With Contemporary Management Strategies. Journal of the American College of Cardiology. 2015;65(18):1915-1928. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25953744/
  4. Ommen SR, Mital S, Burke MA, et al. 2024 AHA/ACC/AMSSM/HRS/PACES/SCMR Guideline for the Management of Hypertrophic Cardiomyopathy. Circulation. 2024. Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIR.0000000000001250
  5. Elliott PM, Anastasakis A, Borger MA, et al. 2014 ESC Guidelines on Diagnosis and Management of Hypertrophic Cardiomyopathy. European Heart Journal. 2014;35(39):2733-2779. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25173338/
  6. Olivotto I, Oreziak A, Barriales-Villa R, et al. Mavacamten for Treatment of Symptomatic Obstructive Hypertrophic Cardiomyopathy. The Lancet. 2020;396(10253):759-769. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32871100/
  7. U.S. Food and Drug Administration (FDA). FDA approves first cardiac myosin inhibitor for hypertrophic cardiomyopathy. Disponível em: https://www.fda.gov/drugs/news-events-human-drugs/fda-approves-first-cardiac-myosin-inhibitor-hypertrophic-cardiomyopathy

Redação Saúde a Sério

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