Doação de órgãos: por que famílias ainda dizem não

Recusa familiar na doação de órgãos atingiu 45% das entrevistas em 2025, enquanto dúvidas sobre morte encefálica, integridade do corpo e destino dos órgãos ainda pesam nessa decisão

Tempo de Leitura: 6 minutos

Há decisões para as quais quase ninguém se prepara. A doação de órgãos costuma surgir em uma delas: depois da notícia de uma morte, dentro de um hospital, quando a família ainda tenta entender o que aconteceu e precisa decidir se autoriza ou não a retirada de órgãos e tecidos.

No Brasil, essa decisão tem impacto direto sobre o número de transplantes. Em 2025, foram notificados 15.940 potenciais doadores e 4.335 tornaram-se doadores efetivos. Das 9.261 entrevistas familiares, 4.200 terminaram em recusa, o equivalente a 45%. No fim daquele ano, 73.877 pacientes estavam ativos nas listas de espera para órgãos e córneas consideradas pelo Registro Brasileiro de Transplantes.¹

É uma decisão tomada justamente quando a família ainda está sob o impacto da perda. Muitas vezes, ela chega cercada por dúvidas que poderiam ter sido esclarecidas antes.

Morte encefálica e doação de órgãos: quando o coração ainda bate

Poucas situações desafiam tanto a nossa ideia de morte quanto a morte encefálica. O tórax pode continuar se movimentando com o auxílio do ventilador. O coração pode permanecer batendo por algum tempo e o corpo ainda pode estar aquecido. Para quem está diante do leito, esses sinais parecem difíceis de conciliar com a ideia de que aquela pessoa morreu.²

Do ponto de vista médico e legal, morte encefálica significa a perda completa e irreversível das funções do encéfalo e caracteriza a morte da pessoa. Pela Resolução CFM nº 2.173/2017, o diagnóstico exige dois exames clínicos feitos por médicos diferentes e capacitados, além do teste de apneia, que verifica se há esforço espontâneo para respirar, e de um exame complementar. Esse exame deve comprovar ausência de circulação de sangue no encéfalo, de atividade metabólica, que é o funcionamento celular do tecido cerebral, ou de atividade elétrica encefálica.³

Morte encefálica também não deve ser confundida com coma. No coma, a pessoa está viva e mantém funções encefálicas em diferentes graus. Dependendo da causa e da extensão da lesão, pode haver recuperação. Na morte encefálica, essa perda é completa e irreversível.²

Há também uma diferença entre órgãos e tecidos. Após a morte encefálica, podem ser doados órgãos como coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino e rins, além de tecidos. Quando a morte ocorre por parada cardiorrespiratória, podem ser doados tecidos, como córneas, vasos, pele, ossos e tendões.⁴

A dificuldade de compreender esse diagnóstico aparece entre os motivos relatados por famílias que recusam a doação. Em estudo brasileiro publicado na Acta Paulista de Enfermagem, também foram identificados aspectos religiosos, problemas na abordagem profissional, medo de mutilação e a vontade atribuída ao falecido. Os resultados vêm de uma população específica e não podem ser transformados em percentuais nacionais.⁵

Outro receio é imaginar que a condição de potencial doador, ou seja, de uma pessoa que pode vir a doar órgãos se todos os critérios forem atendidos, possa interferir no atendimento. A possibilidade de retirada de órgãos, porém, só surge depois da confirmação da morte encefálica. O Ministério da Saúde estabelece que os esforços para salvar a vida do paciente acontecem antes de qualquer consideração sobre a retirada para transplante.¹⁰

A sequência é clara. Primeiro vêm a assistência ao paciente e todos os esforços terapêuticos indicados. Quando há suspeita de morte encefálica, inicia-se o protocolo para confirmar o diagnóstico, seguindo critérios clínicos e exames definidos nacionalmente.³ Só depois a possibilidade de doação é tratada com a família.

Doação de órgãos depende da autorização da família

Uma pessoa pode dizer durante toda a vida que deseja ser doadora. Ainda assim, no Brasil, a retirada de órgãos e tecidos depois da morte depende da autorização familiar. Não é obrigatório registrar essa intenção em documento ou cartório. Na prática, conversar com a família é a principal forma de garantir que essa vontade seja conhecida.⁶

Desde 2024, existe também a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, Tecidos e Partes do Corpo Humano, a AEDO, instituída pelo Conselho Nacional de Justiça. O documento é facultativo e gratuito e permite formalizar eletronicamente a vontade de ser doador. A AEDO, porém, não dispensa a autorização familiar prevista na legislação brasileira.⁷

Quando os familiares não sabem o que aquela pessoa desejava, precisam decidir sem essa referência. Em uma pesquisa com famílias que haviam negado a doação, desacordo entre parentes e desconhecimento sobre a vontade do falecido apareceram entre os motivos mais frequentes. Mais da metade dos entrevistados afirmou que autorizaria a doação se enfrentasse uma nova situação semelhante.⁸

Uma análise publicada em 2025 no Brazilian Journal of Transplantation, com dados do Rio Grande do Sul e resultados que incluem 2024, identificou a recusa familiar como a principal causa de não efetivação das doações no estado.⁹

O corpo fica deformado após a doação de órgãos?

O medo de mutilação ou de não poder realizar um velório convencional também aparece em pesquisas sobre recusa familiar.⁵

A retirada é feita em centro cirúrgico por equipes autorizadas. Depois, o corpo é recomposto. Segundo o Sistema Nacional de Transplantes, ficam visíveis apenas os pontos do local operado, e o procedimento não impede o velório. No caso de tecidos oculares, musculoesqueléticos ou pele, existem técnicas específicas de reconstrução e recomposição.¹¹

Para quem acabou de perder alguém, a aparência do corpo e os rituais de despedida podem ter grande significado. Saber o que realmente acontece nesse processo ajuda a afastar medos que podem pesar na decisão.

Quem recebe os órgãos doados e como funciona a fila de transplantes?

Na doação após a morte, a família não escolhe o receptor. Os órgãos são destinados a candidatos inscritos nas listas de espera do Sistema Nacional de Transplantes, conhecidas popularmente como fila de transplantes. A posição é definida por critérios como tempo de espera, urgência e compatibilidade sanguínea. Quando necessário, também entram na avaliação a compatibilidade genética, que verifica características biológicas importantes entre doador e receptor, e a compatibilidade antropométrica, que considera medidas corporais relevantes para determinados transplantes.¹²

A Central Estadual de Transplantes usa o sistema informatizado para gerar a lista de receptores compatíveis com o doador.¹² O destino de um órgão segue critérios técnicos e não é definido por negociação entre hospital, família e receptor.

Outro temor é a possibilidade de comércio de órgãos. No Brasil, comprar ou vender órgãos é crime. O Ministério da Saúde informa que nenhum transplante de órgãos é realizado no país sem o conhecimento das Centrais Estaduais de Transplantes.¹³

A desconfiança também aparece nas pesquisas. Um estudo qualitativo publicado em 2025 no Brazilian Journal of Transplantation, com 56 familiares que não autorizaram a doação em diferentes regiões do Brasil, identificou desconfiança no sistema de transplantes em diferentes intensidades entre os participantes. O desconhecimento sobre o funcionamento do sistema também apareceu associado a essa percepção.¹⁴

A forma como essa conversa acontece dentro do hospital também conta. No mesmo estudo, a relação com as equipes assistenciais ajudou a moldar a percepção das famílias.¹⁴

Por que famílias recusam a doação de órgãos

Reduzir a negativa familiar à falta de solidariedade ajuda pouco a compreender o problema. Os estudos mostram uma decisão atravessada por luto, valores pessoais, conhecimento prévio, entendimento da morte encefálica, relação com a equipe de saúde, receios sobre o corpo e pela vontade que a família acredita estar respeitando.⁵,⁸,⁹,¹⁴

Por isso, informação pública sobre doação precisa ir além do pedido para que mais pessoas se declarem doadoras. Entender a morte encefálica, saber que o corpo será recomposto, conhecer as regras de distribuição e conversar sobre o assunto em casa pode reduzir dúvidas antes que elas precisem ser enfrentadas dentro de uma UTI.

Nenhuma informação torna simples uma decisão tomada em meio ao luto. Mas ela pode diminuir a incerteza. Em um sistema no qual a autorização continua nas mãos da família, falar sobre doação com antecedência ajuda a deixar claro o que cada pessoa deseja.⁶,⁷

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Equipe Saúde a Sério

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