A cartilagem do joelho pode mesmo se regenerar?

Células-tronco e outras terapias regenerativas avançam contra a artrose de joelho, mas especialistas recomendam cautela diante das promessas de regeneração

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Basta passar alguns minutos nas redes sociais para encontrar promessas tentadoras. Um vídeo fala em “reconstruir a cartilagem sem cirurgia”. Outro mostra pacientes caminhando sem dor poucos dias depois de uma aplicação. As publicações mencionam células-tronco, fatores de crescimento e medicina regenerativa, termos que sugerem que a solução já está ao alcance de qualquer pessoa. Para quem convive há anos com a dor da artrose de joelho e já ouviu falar em prótese, a ideia de regenerar a cartilagem por meio de uma injeção parece, no mínimo, animadora. A questão é saber até que ponto a ciência acompanha esse discurso.

A dúvida faz sentido. A artrose é a forma mais comum de desgaste das articulações e está entre as principais causas de dor e limitação física em adultos e idosos. Com a progressão da doença, atividades simples, como subir escadas, caminhar ou permanecer muito tempo em pé, podem se tornar cada vez mais difíceis.

Para entender o interesse em torno dessas terapias, vale olhar primeiro para a própria cartilagem. Ela funciona como um revestimento liso nas extremidades dos ossos, permitindo que o joelho se mova com menos atrito. É um tecido peculiar porque não possui vasos sanguíneos. Por isso, recebe oxigênio e nutrientes de forma indireta, por um processo mais lento chamado difusão. Suas células, conhecidas como condrócitos, também têm capacidade limitada de multiplicação na vida adulta¹.

Essa característica ajuda a explicar por que lesões na cartilagem raramente cicatrizam da mesma forma que outros tecidos do corpo. Um corte na pele ou uma fratura costumam ativar mecanismos eficientes de reparo. Com a cartilagem, a história é diferente. Quando o dano é pequeno, o organismo pode formar um tecido de reparação chamado fibrocartilagem, menos resistente do que a cartilagem original. Já nos casos de desgaste mais avançado, como ocorre na artrose, muitas vezes nem esse processo acontece de maneira satisfatória.

Foi justamente essa limitação que impulsionou décadas de pesquisas em medicina regenerativa. Os resultados obtidos até aqui chamam atenção, mas ainda estão longe de permitir falar em cura. Estudos com células-tronco mesenquimais, obtidas da medula óssea, do tecido adiposo ou da membrana que reveste internamente a articulação, mostraram melhora da dor e da função do joelho em alguns grupos de pacientes, além de sinais de aumento da espessura da cartilagem em exames de imagem². Os resultados mais favoráveis costumam aparecer em pessoas com lesões localizadas ou artrose em fases iniciais e intermediárias.

O que os estudos mostram sobre a regeneração da cartilagem

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2025 analisou essa questão e chegou a uma conclusão que exige cautela: entre 60% e 66% da melhora da dor relatada pelos pacientes após a aplicação foi atribuída ao chamado efeito contextual, expressão usada para descrever a influência das expectativas do paciente sobre a percepção dos resultados do tratamento, e não necessariamente à ação específica das células-tronco³.

Na prática, isso significa que sentir menos dor depois do procedimento não é prova de que a cartilagem tenha sido regenerada de forma relevante. Essa é uma das diferenças mais importantes entre melhora dos sintomas e reconstrução efetiva do tecido.

Isso não quer dizer que não existam resultados promissores. Um dos exemplos mais citados na literatura envolve um produto à base de células-tronco alogênicas, provenientes de um doador, associado a uma estrutura biológica que serve de suporte para o crescimento do tecido. Nesse estudo, os pesquisadores observaram a formação de tecido cartilaginoso com características semelhantes às da cartilagem hialina, considerada o padrão saudável da articulação. Os resultados foram mantidos por sete anos de acompanhamento, sem registro de tumores ou rejeição imunológica⁴.

Ainda assim, esse cenário está longe de representar o que se observa na maior parte das pesquisas. Uma análise mais ampla sobre células-tronco para artrose de joelho mostrou que, mesmo em protocolos com doses elevadas, cerca de 61 milhões de células por aplicação, o aumento da espessura da cartilagem após um ano foi discreto, embora a melhora dos sintomas tenha sido relevante⁵. Os próprios autores destacam limitações importantes, como o pequeno número de participantes, períodos relativamente curtos de acompanhamento e diferenças metodológicas significativas entre os estudos. Tudo isso dificulta afirmar que a regeneração da cartilagem possa ser alcançada de maneira previsível por meio de uma simples injeção.

O debate também vai além das células-tronco. Muitas clínicas divulgam tratamentos que incluem plasma rico em plaquetas (PRP), concentrados celulares e outras terapias biológicas reunidas sob o rótulo de medicina regenerativa, ainda que sigam mecanismos de ação e níveis de evidência científica distintos entre si.

O que dizem Anvisa, CFM e FDA sobre essas terapias

É justamente nesse ponto que os estudos científicos e a publicidade nem sempre caminham lado a lado. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária alerta que não existe, até o momento, nenhum produto à base de células-tronco cultivadas aprovado para uso em condições ortopédicas, incluindo artrose e dor no joelho⁶. O órgão também destaca que a oferta desses tratamentos fora de protocolos de pesquisa pode contrariar a legislação sanitária vigente.

O Conselho Federal de Medicina adota entendimento semelhante e considera que terapias celulares desse tipo devem permanecer restritas a pesquisas científicas aprovadas⁷.

Nos Estados Unidos, a FDA afirma que nenhuma terapia regenerativa foi aprovada para tratar osteoartrite, tendinite, dor no joelho ou outras doenças ortopédicas fora de ensaios clínicos. A agência relata ainda casos de infecções graves, formação de tumores e até perda de visão associados ao uso de produtos não aprovados⁸. Em 2019, notificou formalmente uma rede de clínicas que anunciava tratamentos com células-tronco para diversas doenças sem comprovação científica adequada⁹.

Nada disso significa que as pesquisas sejam inúteis ou que os resultados observados até agora devam ser ignorados. O ponto central é que existe uma distância considerável entre o que foi demonstrado em estudos controlados e o que algumas campanhas promocionais acabam sugerindo ao público.

Para quem convive com dor no joelho, a recomendação mais segura continua sendo procurar um ortopedista, avaliar o grau de desgaste da articulação e discutir opções com eficácia já comprovada, como fisioterapia, perda de peso quando indicada, exercícios supervisionados e, em alguns casos, procedimentos cirúrgicos consolidados. Essas medidas continuam sendo a base do tratamento da artrose de joelho.

A medicina regenerativa é uma área de pesquisa em expansão. Ao mesmo tempo, ainda não há respostas definitivas para questões importantes, como quais pacientes tendem a se beneficiar mais dessas terapias, qual é a melhor forma de aplicação, qual dose deve ser utilizada e por quanto tempo os efeitos podem ser mantidos.

Por ora, a regeneração da cartilagem do joelho segue sendo uma fronteira de pesquisa, não um tratamento pronto para consumo. Antes de considerar qualquer injeção anunciada como solução definitiva, vale perguntar ao médico responsável em qual fase de estudo aquele produto se encontra, se existe aprovação regulatória específica para a indicação e quais resultados, de fato, foram documentados em publicações científicas revisadas por pares.

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  1. Generating Cartilage Repair from Pluripotent Stem Cells [Internet]. PMC. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4123466/
  2. Intra-Articular Injection of Stem Cells for the Regeneration of Knee Joint Cartilage: a Therapeutic Option for Knee Osteoarthritis. Biomolecules & Therapeutics. Publicado online em 2024; edição impressa de 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11704397/
  3. Contextual effects of mesenchymal stem cell injections for knee osteoarthritis: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Front Med. 2025. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/medicine/articles/10.3389/fmed.2025.1636181/full
  4. Stem cell-based cartilage regeneration: Biological strategies, engineering innovations, and clinical translation. PMC. 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12476812/
  5. Clinical Trials with Mesenchymal Stem Cell Therapies for Osteoarthritis: Challenges in the Regeneration of Articular Cartilage. PMC. 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10298392/
  6. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Anvisa alerta para riscos do uso de produtos à base de células-tronco sem aprovação [Internet]. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2024/anvisa-alerta-para-riscos-do-uso-de-produtos-a-base-de-celulas-tronco-sem-aprovacao
  7. Conselho Federal de Medicina. Parecer CFM nº 2/2020, Processo-Consulta CFM nº 27/2019 [Internet]. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/pareceres/BR/2020/2_2020.pdf
  8. U.S. Food and Drug Administration. Important Patient and Consumer Information About Regenerative Medicine Therapies [Internet]. Disponível em: https://www.fda.gov/vaccines-blood-biologics/consumers-biologics/important-patient-and-consumer-information-about-regenerative-medicine-therapies
  9. U.S. Food and Drug Administration. FDA puts company on notice for marketing unapproved stem cell products for treating serious conditions [Internet]. 2019. Disponível em: https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-puts-company-notice-marketing-unapproved-stem-cell-products-treating-serious-conditions

Equipe Saúde a Sério

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