Calor na Copa do Mundo: as pausas para hidratação são realmente necessárias?

Evidências científicas mostram que altas temperaturas podem afetar o desempenho e aumentar os riscos à saúde dos atletas durante partidas de futebol

Tempo de Leitura: 5 minutos

Para muitos torcedores, o futebol é um dos poucos esportes que preserva uma dinâmica contínua durante quase toda a partida. Por isso, as pausas para hidratação no futebol frequentemente despertam questionamentos, especialmente em grandes torneios como a Copa do Mundo. Elas seriam realmente necessárias ou representam apenas uma medida excessivamente cautelosa?

A discussão ganhou visibilidade nos últimos anos à medida que grandes competições passaram a ocorrer em locais sujeitos a temperaturas elevadas. Ao mesmo tempo, cresceu o número de estudos avaliando como o calor afeta atletas submetidos a esforços intensos e prolongados. O conjunto das evidências mostra que a exposição a temperaturas elevadas pode comprometer o desempenho esportivo e aumentar o risco de problemas relacionados ao estresse térmico, condição em que o organismo tem dificuldade para dissipar o excesso de calor¹.

Como o calor afeta o corpo durante uma partida de futebol

O corpo humano funciona como um sistema de resfriamento em constante atividade. Durante uma partida de futebol, os músculos produzem calor continuamente e, para evitar o superaquecimento, o organismo precisa dissipar essa energia para o ambiente. Em condições favoráveis, o suor cumpre esse papel com eficiência. Quando a temperatura sobe demais ou a umidade do ar dificulta sua evaporação, esse mecanismo passa a trabalhar sob pressão².

É um processo semelhante ao de um motor que precisa manter sua temperatura dentro de uma faixa segura para continuar funcionando adequadamente. Quanto maior a dificuldade para dissipar calor, maior tende a ser o esforço exigido do organismo para manter o equilíbrio.

Nessas situações, a temperatura corporal pode aumentar progressivamente. Para tentar compensar, o corpo intensifica a produção de suor, elevando a perda de líquidos e eletrólitos. Quando essa reposição não ocorre de forma adequada, o risco de desidratação aumenta³.

Os efeitos da desidratação vão além da sensação de sede. Estudos indicam que a perda significativa de líquidos pode prejudicar funções cognitivas, aumentar a percepção de esforço e reduzir a capacidade de manter o desempenho físico durante exercícios prolongados realizados em ambientes quentes⁴. Em um esporte no qual uma decisão tomada em segundos pode definir o resultado de uma partida, esses efeitos deixam de representar apenas um detalhe fisiológico.

O desafio também vai além da temperatura exibida nos telões dos estádios. Pesquisadores utilizam um indicador chamado Wet Bulb Globe Temperature (WBGT), usado para estimar o impacto combinado da temperatura, da umidade, da radiação solar e da circulação de vento sobre o organismo. Esse indicador considera simultaneamente esses fatores e, por isso, oferece uma visão mais completa da carga de calor à qual o corpo está submetido⁵.

Quando especialistas discutem os impactos do calor no futebol, a preocupação não está relacionada apenas ao conforto dos atletas. O foco está na capacidade do organismo de manter suas funções fisiológicas durante um esforço intenso e prolongado em condições desafiadoras.

O que os estudos mostram sobre calor e Copa do Mundo de 2026

Essa preocupação já se traduziu em evidências concretas sobre o torneio de 2026. Um estudo publicado em 2025 avaliou os potenciais riscos térmicos associados à Copa do Mundo e concluiu que diversas cidades-sede podem apresentar condições capazes de aumentar significativamente a sobrecarga térmica sobre atletas e equipes técnicas⁶.

Esse tema ganhou ainda mais relevância porque a Copa do Mundo de 2026 será a maior da história, reunindo 48 seleções distribuídas em diferentes regiões da América do Norte. A diversidade climática entre as cidades-sede ampliou a atenção de pesquisadores para os possíveis impactos do calor sobre o desempenho e a segurança dos jogadores.

Nem toda partida disputada sob calor intenso representa um risco grave para os atletas. Profissionais de alto rendimento contam com preparação física, acompanhamento médico, estratégias de aclimatação e protocolos específicos para enfrentar essas situações. Ainda assim, existe um limite fisiológico que nenhuma preparação consegue eliminar completamente.

As consequências da exposição excessiva ao calor vão desde queda de rendimento e cãibras relacionadas ao esforço físico até quadros mais graves de exaustão pelo calor e insolação⁷. Embora eventos graves sejam incomuns no esporte profissional, a prevenção continua sendo considerada a estratégia mais eficaz.

As pausas para hidratação no futebol realmente funcionam?

Nesse contexto, as pausas para hidratação representam uma das ferramentas disponíveis para reduzir os efeitos do calor. Além da reposição de líquidos, esses intervalos permitem a adoção de medidas complementares de resfriamento corporal, como bebidas refrigeradas, toalhas frias e alguns minutos de recuperação fisiológica⁸.

Estudos sobre estratégias de resfriamento mostram que intervenções realizadas durante períodos curtos de recuperação podem ajudar a reduzir a sobrecarga térmica e melhorar a tolerância ao exercício em ambientes quentes⁸. Embora os resultados variem conforme as condições climáticas e as características dos atletas, os benefícios tendem a ser mais evidentes em cenários de calor intenso.

Os benefícios também costumam ser mais relevantes quando há combinação de temperaturas elevadas, alta umidade do ar, exposição solar significativa e índices elevados de WBGT. Em condições mais amenas, o impacto dessas pausas tende a ser menor, o que ajuda a explicar por que o tema continua gerando debates entre especialistas, atletas e torcedores.

As pausas para hidratação também não devem ser vistas como uma solução isolada. A literatura científica aponta que a proteção dos atletas depende de um conjunto de medidas que inclui monitoramento ambiental, estratégias de aclimatação, planejamento dos horários de competição, protocolos médicos adequados e acesso rápido a recursos de resfriamento corporal quando necessário⁹.

Boa parte da discussão atual se concentra nesse ponto. Existe amplo consenso científico de que o calor extremo representa um risco para a saúde e para o desempenho esportivo. O debate ocorre em torno de quais medidas oferecem a melhor proteção e em quais situações elas devem ser aplicadas. Diretrizes científicas e organizações esportivas discutem diferentes estratégias para definir quando medidas adicionais de proteção devem ser adotadas em situações de calor intenso⁹.

O tema continua dividindo opiniões. Para quem observa apenas o espetáculo, alguns minutos de interrupção podem parecer um incômodo. Sob a perspectiva da fisiologia e da medicina esportiva, porém, a questão envolve algo mais simples: oferecer ao organismo uma oportunidade de recuperar parte do equilíbrio perdido diante de uma carga térmica elevada.

À medida que competições esportivas passam a conviver com temperaturas mais altas em diferentes regiões do mundo, cresce também a necessidade de adaptar protocolos de segurança. O futebol continuará sendo decidido pela técnica, pela estratégia e pelo talento dos atletas. Preservar as condições para que esse talento possa se expressar plenamente também faz parte do jogo.

A discussão sobre as pausas para hidratação no futebol vai além de uma simples interrupção da partida. Ela reflete um desafio cada vez mais presente no esporte moderno: conciliar desempenho, espetáculo e segurança em um cenário de eventos climáticos mais extremos. A ciência ainda busca respostas para muitas perguntas sobre os efeitos das altas temperaturas no desempenho esportivo, mas as evidências disponíveis já apontam a direção: estratégias de proteção térmica bem definidas serão parte cada vez mais central do planejamento de grandes competições como a Copa do Mundo de 2026.

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¹ Périard JD, Racinais S, Sawka MN. Adaptations and mechanisms of human heat acclimation: applications for competitive athletes and sports. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports. 2015;25(Suppl 1):20-38. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25943654/

² Périard JD, Eijsvogels TMH, Daanen HAM. Exercise under heat stress: thermoregulation, hydration, performance implications and mitigation strategies. Physiological Reviews. 2021;101(4):1873-1979. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33793351/

³ Sawka MN, Montain SJ. Fluid and electrolyte supplementation for exercise heat stress. American Journal of Clinical Nutrition. 2000;72(2 Suppl):564S-572S. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10919961/

⁴ Wittbrodt MT, Millard-Stafford M. Dehydration Impairs Cognitive Performance: A Meta-analysis. Medicine & Science in Sports & Exercise. 2018;50(11):2360-2368. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29933347/

⁵ Budd GM. Wet-bulb globe temperature (WBGT): its history and its limitations. Journal of Science and Medicine in Sport. 2008;11(1):20-32. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17765661/

⁶ Mullan D, Barr I, Brannigan N, Flood N, Gibson OR, Hambly C, Kennedy-Asser AT, Kielt AC, Matthews T, Orr M. Extreme heat risk and the potential implications for the scheduling of football matches at the 2026 FIFA World Cup. International Journal of Biometeorology. 2025;69:753-763. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11947059/

⁷ Leon LR, Bouchama A. Heat stroke. Comprehensive Physiology. 2015;5(2):611-647. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25880507/

⁸ Bongers CCWG, Hopman MTE, Eijsvogels TMH. Cooling interventions for athletes: an overview of effectiveness, physiological mechanisms and practical considerations. Temperature. 2017;4(1):60-78. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5356217/

⁹ Casa DJ, DeMartini JK, Bergeron MF, et al. National Athletic Trainers’ Association Position Statement: Exertional Heat Illnesses. Journal of Athletic Training. 2015;50(9):986-1000. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4639891/

Deborah Lima

Jornalista especializada em saúde

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