
Preocupação, tristeza, desânimo e noites mal dormidas fazem parte da vida. O sinal de atenção aparece quando esses sintomas persistem, se repetem ou começam a interferir no trabalho, nos estudos, nas relações e na capacidade de conduzir a rotina. É aí que diferenciar uma reação passageira de um transtorno de ansiedade ou de um quadro depressivo passa a fazer diferença.
Ansiedade e depressão estão entre os transtornos mentais mais frequentes e podem trazer limitações importantes para a vida cotidiana. Em 2025, uma análise internacional com dados de 204 países e territórios mostrou que o transtorno depressivo maior e os transtornos de ansiedade apresentaram as maiores taxas padronizadas de anos de vida ajustados por incapacidade entre 12 grupos de transtornos mentais avaliados.¹ O indicador considera tanto o tempo vivido com prejuízos à saúde quanto a perda de anos de vida.
Para o psiquiatra José Alberto Del Porto, professor titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o fato de esses transtornos serem tão comuns não reduz sua importância clínica. Segundo ele: “Os estados ansiosos e os quadros depressivos estão realmente entre os mais comuns. A prevalência desses quadros na população geral é muito grande”.
Ao compará-los a condições psiquiátricas mais graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar, Del Porto lembra que ansiedade e depressão podem provocar “muitas limitações e muito sofrimento no dia a dia”. Por isso, reforça: “Então eles devem ser encarados com seriedade e tratados convenientemente”.
Durante o Setembro Amarelo, período em que a saúde mental ganha mais espaço no debate público, a discussão chama atenção para sintomas que muitas vezes acabam normalizados ou confundidos com fases passageiras da vida.
Estigma em saúde mental e a procura por ajuda
Ao longo da carreira, Del Porto percebeu uma mudança na relação dos pacientes com a psiquiatria. Parte do preconceito que historicamente cercou a especialidade perdeu força. Procurar atendimento passou a ser visto com mais naturalidade. Segundo ele: “Hoje também é mais fácil para o paciente procurar ajuda sem que ele próprio se sinta pouco à vontade”.
Essa transformação aparece na maneira como a própria psiquiatria passou a ser percebida. Del Porto resume: “Ele passa a tratar a psiquiatria de uma forma mais natural, como uma especialidade médica entre outras”.
A redução do preconceito facilita a procura por atendimento, mas não elimina uma dificuldade importante da saúde mental: chegar ao diagnóstico correto. Em psiquiatria, nem sempre há um exame capaz de dar uma resposta imediata. Muitas vezes, é preciso reconstruir a história dos sintomas.
Por que o diagnóstico de ansiedade e depressão pode exigir tempo
Na maior parte dos transtornos psiquiátricos, duração, intensidade e a forma como os sintomas aparecem, desaparecem ou se repetem fazem parte da investigação.
Del Porto explica uma das razões: “O diagnóstico em psiquiatria talvez seja mais complexo porque, na maioria das vezes, nós não temos marcadores biológicos”.
Na prática, o diagnóstico psiquiátrico muitas vezes se parece menos com uma fotografia e mais com um filme. O que o paciente apresenta naquele dia importa, claro. Também é preciso saber o que aconteceu antes, quando os sintomas começaram e como mudaram ao longo dos meses ou anos.
Essa necessidade de reconstruir uma história ajuda a entender a preocupação com consultas excessivamente rápidas. Del Porto cita situações em que o médico dispõe de cerca de 15 minutos por paciente. Ele lembra que esse problema não se restringe à saúde mental: “Essa questão do atendimento rápido não afeta só a psiquiatria, mas afeta a medicina como um todo”.
Entender esse percurso ajuda a definir a conduta. Sintomas de ansiedade e depressão podem ter intensidades, durações e impactos variados. O tratamento precisa considerar o quadro de cada paciente.
O diagnóstico de ansiedade e depressão interfere no tratamento
Na depressão, há diferentes abordagens terapêuticas. A psicoterapia é uma delas e, em determinadas situações, pode fazer parte do cuidado junto a outras estratégias.
Em 2022, um ensaio clínico randomizado acompanhou 175 adultos com depressão atendidos na atenção primária. Os participantes foram divididos entre o tratamento habitual e uma modalidade de terapia cognitivo-comportamental com apoio computadorizado associada ao tratamento habitual. Ao fim das 12 semanas, 58,4% dos participantes que receberam a terapia apresentaram resposta, contra 33,1% no grupo de cuidado habitual. As taxas de remissão foram de 27,3% e 12%, respectivamente.²
O estudo avaliou uma modalidade específica de psicoterapia e não permite concluir que todas as abordagens produzam os mesmos resultados. Ainda assim, mostra que esse tipo de terapia pode integrar o cuidado de pessoas com depressão na atenção primária.
A resposta clínica é um dos pontos em que a história individual volta a ganhar peso. Não basta escolher uma abordagem. É preciso acompanhar como ansiedade e depressão evoluem com o tempo.
Remissão e recorrência na ansiedade e na depressão
Definir o diagnóstico é uma parte do caminho. Depois, é preciso entender como o transtorno pode evoluir e o que significa, de fato, melhorar.
Depressão e ansiedade podem seguir trajetórias distintas. Há pessoas que apresentam um episódio e melhoram. Outras enfrentam recaídas ou convivem com quadros mais prolongados.
Del Porto afirma: “Existem quadros, evidentemente, que se curam”. Ele também destaca o papel do cuidado na capacidade de reconhecer e manejar sintomas: “Existem quadros que remitem até sem tratamento, mas sobretudo com tratamento, porque a pessoa é instruída a lidar com os sintomas, a reconhecer os sintomas e pode efetivamente melhorar”.
Em termos clínicos, remissão significa, em geral, que os sintomas diminuíram a ponto de ficarem abaixo do limite usado para caracterizar o episódio ou transtorno. Isso não quer dizer que o problema necessariamente nunca voltará.
Um estudo populacional publicado em 2026 acompanhou, durante nove anos, uma amostra de 6.646 adultos na Holanda. Entre as pessoas que apresentavam um transtorno depressivo no início, o percentual de recorrência, incluindo persistência do quadro, foi de 33%. Entre aquelas com transtorno de ansiedade, foi de 31%. Quando depressão e ansiedade estavam presentes ao mesmo tempo, o percentual chegou a 51%.³
O percentual mais alto entre pessoas com os dois transtornos mostra uma associação importante entre comorbidade e maior recorrência ou persistência dos sintomas. O estudo não estabelece, porém, uma relação de causa e efeito para explicar essa diferença.
Os números mostram por que remissão, recuperação e recorrência descrevem momentos distintos. A melhora pode durar, mas o desaparecimento dos sintomas em determinado período não significa que eles nunca mais aparecerão. Pessoas com histórico de episódios repetidos podem precisar de acompanhamento e estratégias para prevenir novas crises.
Antidepressivos: quando fazem efeito e como diferenciar dependência física, adição e descontinuação
Um receio comum no início do tratamento é a ideia de que todo antidepressivo necessariamente piora o quadro antes de começar a funcionar. Del Porto rejeita essa generalização: “Na maioria das vezes não há piora inicial”.
Há situações específicas em que isso pode acontecer. Ele cita pacientes com crises de pânico, que podem apresentar aumento transitório dos sintomas no começo do tratamento. Nesses casos, o médico pode optar por iniciar o medicamento em doses menores.
Na depressão, Del Porto afirma que é preciso esperar pelo menos duas semanas para que os efeitos do antidepressivo comecem a ser percebidos. Esse tempo varia de pessoa para pessoa e entre medicamentos. Em 2021, um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo acompanhou 390 pacientes durante oito semanas. As avaliações ocorreram nas semanas 1, 2, 4, 6 e 8. Os grupos que receberam escitalopram apresentaram redução progressiva dos sintomas, maior do que a observada com placebo.⁴ O achado reforça que a resposta ao escitalopram se desenvolve com o tratamento e nem sempre é percebida de imediato.
Outra dúvida frequente envolve dependência. Del Porto lembra que alguns medicamentos, como os benzodiazepínicos, podem produzir dependência, especialmente após uso prolongado. Em 2022, um estudo realizado na atenção primária acompanhou 66 pessoas com uso crônico e dependência de benzodiazepínicos submetidas a um protocolo de redução gradual. Durante o processo, 31 participantes relataram pelo menos um sintoma de retirada, principalmente insônia e ansiedade.⁵
No caso dos antidepressivos, os conceitos precisam ser separados. Uso prolongado, dependência física, adição e síndrome de descontinuação são situações distintas. A dependência física corresponde a uma adaptação do organismo ao uso contínuo de uma substância. Já a adição envolve perda de controle sobre o uso, comportamento compulsivo e manutenção do consumo apesar dos prejuízos.
A síndrome de descontinuação descreve sintomas que podem surgir depois da redução ou interrupção de determinados antidepressivos, mesmo quando o medicamento foi usado corretamente. Ter esses sintomas, por si só, não significa que a pessoa tenha desenvolvido um padrão de uso compulsivo.
Em 2021, um ensaio clínico randomizado e duplo-cego acompanhou 478 adultos atendidos em 150 serviços de atenção primária no Reino Unido. Essas pessoas se sentiam bem o suficiente para considerar a interrupção do antidepressivo. Os participantes foram divididos entre manutenção do tratamento e redução seguida de interrupção. O grupo que descontinuou os medicamentos apresentou mais sintomas de retirada do que aquele que continuou o tratamento.⁶
Há ainda pessoas que precisam continuar usando antidepressivos porque apresentam depressão recorrente ou persistente. Del Porto explica: “Muitas vezes a pessoa tem uma depressão crônica e se vê na contingência de usar o remédio por mais tempo. Mas, na maioria das vezes, não se trata de dependência gerada pelo remédio”.
Manter um medicamento por mais tempo não significa automaticamente dependência ou adição. Da mesma forma, apresentar sintomas depois de reduzir ou interromper um antidepressivo não permite chegar a essa conclusão isoladamente. É preciso considerar qual medicamento está sendo usado, por quanto tempo, como ocorreu a retirada e qual é o quadro clínico.
Quando o diagnóstico depende da história dos sintomas, tempo de consulta também faz diferença. Os cerca de 15 minutos citados por Del Porto ajudam a dimensionar o problema: avaliar duração, intensidade, recorrência, resposta ao tratamento e uso de medicamentos exige mais do que registrar o que o paciente sente naquele momento. A qualidade dessa avaliação interfere diretamente na escolha da conduta e no acompanhamento posterior.
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- ¹ Fan Y, Fan A, Yang Z, Fan D. Global burden of mental disorders in 204 countries and territories, 1990-2021: results from the global burden of disease study 2021. BMC Psychiatry. 2025;25(1):486. DOI: 10.1186/s12888-025-06932-y. URL: https://doi.org/10.1186/s12888-025-06932-y
- ² Wright JH, Owen J, Eells TD, et al. Effect of Computer-Assisted Cognitive Behavior Therapy vs Usual Care on Depression Among Adults in Primary Care: A Randomized Clinical Trial. JAMA Network Open. 2022;5(2):e2146716. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2021.46716. URL: https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2021.46716
- ³ Ten Have M, Tuithof M, Velek P, et al. The Onset, Course and Co-Occurrence of Depressive and Anxiety Disorders Over a 9-Year Period in the General Population. International Journal of Methods in Psychiatric Research. 2026;35(1):e70054. DOI: 10.1002/mpr.70054. URL: https://doi.org/10.1002/mpr.70054
- ⁴ Wang X, Fan Y, Li G, Li H. The efficacy of escitalopram in major depressive disorder: a multicenter randomized, placebo-controlled double-blind study. International Clinical Psychopharmacology. 2021;36(3):133-139. DOI: 10.1097/YIC.0000000000000350. URL: https://doi.org/10.1097/YIC.0000000000000350
- ⁵ Fernandes M, Neves I, Oliveira J, et al. Discontinuation of chronic benzodiazepine use in primary care: a nonrandomized intervention. Family Practice. 2022;39(2):241-248. DOI: 10.1093/fampra/cmab143. URL: https://doi.org/10.1093/fampra/cmab143
- ⁶ Lewis G, Marston L, Duffy L, et al. Maintenance or Discontinuation of Antidepressants in Primary Care. New England Journal of Medicine. 2021;385(14):1257-1267. DOI: 10.1056/NEJMoa2106356. URL: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2106356