
Há dores que chamam atenção imediatamente. Outras começam de forma discreta, como um pequeno desconforto ao sentar, caminhar ou vestir uma roupa mais justa. Quando esse incômodo surge na região íntima, muitas mulheres tendem a esperar que passe sozinho. Nem sempre passa.
Em alguns casos, o problema pode ser uma bartolinite, condição relativamente comum entre mulheres em idade reprodutiva e que, apesar de pouco conhecida fora dos consultórios ginecológicos, pode causar dor intensa e interferir significativamente na rotina¹.
A bartolinite ocorre quando há inflamação das glândulas de Bartholin, duas pequenas estruturas localizadas em cada lado da entrada da vagina. Essas glândulas produzem uma secreção que ajuda na lubrificação natural da região genital².
Uma forma simples de entender o problema é imaginar uma torneira funcionando normalmente. Enquanto a passagem está livre, a secreção produzida pela glândula é eliminada sem dificuldade. Quando esse canal fica obstruído, o líquido passa a se acumular. Com o tempo, pode surgir um cisto, conhecido como cisto de Bartholin. Se bactérias encontrarem nesse espaço um ambiente favorável para se multiplicar, o quadro pode evoluir para uma infecção e formar um abscesso doloroso¹.
Sintomas da bartolinite: sinais que merecem atenção
Nem todo cisto da glândula de Bartholin provoca sintomas. Em muitos casos, permanece pequeno e passa despercebido por longos períodos. O cenário muda quando ocorre aumento de volume ou infecção.
Os sinais mais frequentes incluem inchaço em apenas um lado da vulva, dor localizada, vermelhidão, desconforto durante a relação sexual e dificuldade para sentar ou caminhar¹. Quando há formação de abscesso, a dor costuma se tornar mais intensa e pode ser acompanhada por febre e mal-estar geral¹.
A principal causa é a obstrução do ducto da glândula. Esse bloqueio favorece o acúmulo de secreção e cria condições para a multiplicação de microrganismos. Entre as bactérias mais frequentemente associadas ao problema está a Escherichia coli, normalmente presente no trato intestinal¹.
Embora algumas infecções sexualmente transmissíveis possam estar envolvidas em determinados casos, a maioria dos episódios não está relacionada diretamente a esse tipo de transmissão¹.
A bartolinite, por si só, não é classificada como infecção sexualmente transmissível. Entretanto, algumas bactérias associadas a ISTs, como Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis, podem ser identificadas em parte dos casos. Por isso, a investigação complementar pode ser indicada quando houver fatores de risco ou suspeita clínica³.
Como é feito o diagnóstico da bartolinite
O diagnóstico costuma ser clínico, realizado durante a consulta ginecológica por meio da avaliação dos sintomas e do exame físico¹. Em mulheres com mais de 40 anos, o surgimento de uma nova massa na região das glândulas de Bartholin merece investigação mais cuidadosa, já que tumores nessa localização, embora raros, podem ocorrer¹.
O exame clínico costuma ser suficiente para identificar a condição. Em situações específicas, porém, o médico pode solicitar exames complementares para esclarecer o diagnóstico ou investigar outras causas para os sintomas apresentados.
Tratamento da bartolinite depende da gravidade
A escolha do tratamento depende do tamanho da lesão, da intensidade dos sintomas e da presença ou não de infecção.
Cistos pequenos e assintomáticos frequentemente não necessitam de intervenção específica¹. Quando há sintomas leves, banhos de assento com água morna podem ajudar a aliviar o desconforto e favorecer a drenagem espontânea¹.
Nos casos em que há abscesso ou sintomas importantes, procedimentos para drenagem costumam ser necessários. Entre as opções mais utilizadas estão a colocação do cateter de Word e a marsupialização, técnica que cria uma nova abertura permanente para facilitar a drenagem e reduzir recorrências³,⁴.
Antibióticos geralmente são reservados para situações específicas, como presença de celulite, sintomas sistêmicos ou infecções associadas¹.
Embora os tratamentos disponíveis apresentem bons resultados, nenhuma abordagem elimina completamente o risco de recorrência. Na prática, muitos casos têm tratamento eficaz, mas novos episódios podem acontecer, especialmente quando há novas obstruções ou infecções. Por isso, o acompanhamento médico e a avaliação individualizada continuam sendo importantes para definir a estratégia mais adequada em cada caso.
Dor intensa, aumento rápido de volume, dificuldade para realizar atividades cotidianas, febre ou recorrência dos sintomas justificam avaliação médica.
A bartolinite raramente aparece entre os temas mais discutidos quando o assunto é saúde feminina. Ainda assim, pode afetar significativamente a qualidade de vida e gerar sofrimento físico importante. O quadro também ajuda a lembrar que sintomas íntimos não devem ser normalizados nem enfrentados em silêncio. Quanto mais cedo ocorre a avaliação médica, maiores são as chances de um tratamento mais simples, recuperação mais rápida e menor impacto na rotina. Como nem sempre é possível evitar a obstrução da glândula, reconhecer os sintomas da bartolinite e não adiar a avaliação médica faz diferença. A informação continua sendo uma das ferramentas mais importantes para encurtar o caminho entre o surgimento dos sintomas e o tratamento adequado.
- Carlson K, Goldberg J. Bartholin Gland Cyst. StatPearls Publishing. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK532271/
- Quaresma C, Martins J. Anatomy, Abdomen and Pelvis: Bartholin Gland. StatPearls Publishing. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK557803/
- American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Marsupialization of Bartholin Cyst and Abscess. Disponível em: https://www.acog.org/education-and-events/simulations/scog025/module
- Karabük E, Aygün EG. Marsupialization versus Word catheter in the treatment of Bartholin cyst or abscess: retrospective cohort study. Journal of the Turkish-German Gynecological Association. 2022;23(2):71-74. DOI: 10.4274/jtgga.galenos.2022.2022-1-6. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9161003/