Embora a doença celíaca seja uma condição amplamente estudada e com tratamento bem estabelecido, ela ainda é cercada por mitos que dificultam o diagnóstico precoce e o manejo adequado. Estima-se que cerca de 1% da população mundial conviva com a doença. No Brasil, isso representa aproximadamente de 2 a 2,5 milhões de pessoas. O mais preocupante é que grande parte delas sequer sabe que possui a condição.
A doença celíaca é uma enfermidade autoimune desencadeada pela ingestão de glúten, proteína presente no trigo, centeio, cevada e seus derivados. Em indivíduos geneticamente predispostos, o consumo dessa proteína provoca uma reação imunológica que leva à inflamação e ao dano da mucosa do intestino delgado, comprometendo a absorção adequada de nutrientes.
Nas últimas décadas, observamos um aumento expressivo no número de diagnósticos em diferentes países. Esse crescimento está relacionado principalmente à ampliação do conhecimento sobre a doença e ao avanço dos métodos diagnósticos, permitindo a identificação de casos que anteriormente passavam despercebidos.
Muito além da herança genética
Um dos equívocos mais comuns é acreditar que apenas pessoas com histórico familiar podem desenvolver a doença celíaca. Embora a predisposição genética seja um fator importante, a condição pode surgir em indivíduos sem familiares diagnosticados.
Além disso, a doença não é exclusiva da infância. Atualmente, muitos casos são identificados apenas na idade adulta, inclusive em pessoas que passaram anos convivendo com sintomas inespecíficos. As mulheres apresentam maior incidência da condição, e determinadas fases da vida, como gestação e puerpério, podem favorecer o aparecimento ou a intensificação das manifestações clínicas.
Existem ainda grupos considerados de maior risco, como parentes de primeiro grau de pessoas com doença celíaca, indivíduos com diabetes tipo 1, outras doenças autoimunes e pessoas com síndrome de Down. Nesses casos, a atenção aos sinais e o rastreamento adequado são fundamentais.
O glúten precisa ser totalmente excluído da alimentação
Outro mito frequente é a ideia de que apenas reduzir o consumo de glúten seria suficiente para evitar complicações. Na realidade, o único tratamento comprovadamente eficaz para a doença celíaca é a exclusão total e permanente do glúten da dieta.
Mesmo pequenas quantidades da proteína podem desencadear inflamação intestinal e manter o processo de lesão da mucosa, ainda que o paciente não apresente sintomas evidentes. Por isso, além da atenção aos ingredientes, é necessário cuidado com a chamada contaminação cruzada, que ocorre quando alimentos naturalmente sem glúten entram em contato com produtos que contêm a proteína durante o preparo ou armazenamento.
Vale destacar que a retirada do glúten da alimentação não deve ser feita antes da investigação médica. A exclusão precoce pode interferir nos exames e dificultar a confirmação diagnóstica. No Brasil, a Lei nº 10.674/2003 determina que os rótulos dos alimentos informem claramente se o produto contém ou não contém glúten, auxiliando os pacientes na adesão ao tratamento.
Uma doença que afeta muito mais do que o intestino
Apesar de ser conhecida principalmente pelos sintomas gastrointestinais, a doença celíaca pode se manifestar em diversos órgãos e sistemas do organismo.
Entre as possíveis complicações estão anemia por deficiência de ferro, osteopenia e osteoporose, alterações neurológicas, enxaqueca, dermatite herpetiforme, irregularidades menstruais e dificuldades relacionadas à fertilidade. Em muitos casos, esses sintomas aparecem antes mesmo das manifestações digestivas clássicas, o que contribui para o atraso no diagnóstico.
Por essa razão, médicos de diferentes especialidades devem estar atentos à possibilidade da doença diante de quadros persistentes ou de difícil explicação.
Diagnóstico exige investigação criteriosa
Embora existam exames específicos para a doença celíaca, o diagnóstico nem sempre é simples ou rápido. A investigação geralmente envolve exames sorológicos para identificação de anticorpos específicos, testes genéticos em situações selecionadas e, em muitos casos, biópsia do intestino delgado, considerada o padrão ouro para confirmação diagnóstica.
O desafio está justamente na diversidade de apresentações clínicas. Alguns pacientes apresentam diarreia crônica, perda de peso e distensão abdominal, enquanto outros manifestam apenas sintomas extraintestinais ou permanecem assintomáticos por longos períodos.
Por isso, é fundamental ampliar a conscientização tanto entre profissionais de saúde quanto na população em geral sobre as diferentes formas de apresentação da doença.
A relação entre doença celíaca e saúde mental
Nos últimos anos, estudos têm demonstrado uma relação cada vez mais consistente entre a doença celíaca e aspectos da saúde mental.
Pacientes podem apresentar sintomas como ansiedade, depressão, alterações de humor, irritabilidade e dificuldade de concentração. Em alguns casos, também são observadas associações com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e transtorno do espectro autista (TEA).
Embora os mecanismos dessa relação ainda estejam sendo estudados, acredita-se que fatores como inflamação sistêmica, alterações nutricionais decorrentes da má absorção e o impacto emocional de conviver com uma doença crônica contribuam para essas manifestações.
Informação de qualidade salva vidas
A doença celíaca é uma condição séria, mas que pode ser controlada de forma eficaz quando diagnosticada precocemente e tratada adequadamente. O acesso à informação baseada em evidências científicas é uma ferramenta essencial para combater a desinformação e permitir que mais pessoas recebam o diagnóstico correto.
Reconhecer que a doença pode ocorrer em qualquer fase da vida, apresentar sintomas variados e afetar diferentes sistemas do organismo é um passo importante para reduzir o número de casos não diagnosticados e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
- Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG). Instituto Brasileiro para Estudo da Doença Celíaca (IBREDOC). Materiais educativos e científicos sobre doença celíaca.
- World Gastroenterology Organisation (WGO). Celiac Disease Guidelines. Milwaukee: WGO.
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca. Brasília: Ministério da Saúde.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Health Topics: Autoimmune Diseases and Nutrition.
- Sociedade Europeia de Gastroenterologia Pediátrica, Hepatologia e Nutrição (ESPGHAN). Guidelines for Diagnosing Coeliac Disease.
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- Lebwohl B, Sanders DS, Green PHR. Coeliac disease. The Lancet. 2018;391(10115):70-81.
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