Bebidas acima de 65 °C são ligadas a risco de câncer de esôfago

Estudos avaliam a exposição repetida ao calor ao longo de muitos anos

Tempo de Leitura: 3 minutos

Há bebidas que parecem perder a graça assim que começam a esfriar. O café precisa chegar à mesa soltando vapor. O chá vai direto da chaleira para a xícara. O chimarrão acompanha uma sequência de goles enquanto a água continua quente. Para o esôfago, porém, alguns graus podem fazer diferença.

A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, a IARC, classifica o consumo de bebidas em temperaturas muito elevadas no Grupo 2A, de agentes provavelmente carcinogênicos para humanos. A avaliação encontrou evidência limitada de associação com o carcinoma espinocelular do esôfago, câncer que se desenvolve nas células que revestem o órgão.¹

Na prática, o Grupo 2A indica que há evidências de que essa exposição pode causar câncer, mas sem certeza científica completa. A classificação também não informa a probabilidade de uma pessoa desenvolver a doença.¹

A preocupação está na temperatura, e não simplesmente no consumo de café, chá ou mate. Na mesma avaliação, o mate consumido em temperaturas menos elevadas ficou no Grupo 3, categoria usada quando as evidências disponíveis não permitem determinar seu potencial carcinogênico.¹

A IARC considera muito quentes as bebidas consumidas acima de 65 °C.¹ O que conta é a temperatura no momento do consumo. Uma bebida feita com água próxima da fervura pode chegar à boca bem mais fria depois de alguns minutos. Se ainda estiver desconfortavelmente quente, esperar antes do primeiro gole é uma medida simples.

Um grande estudo realizado no Irã encontrou maior risco de carcinoma espinocelular entre pessoas que bebiam chá a 60 °C ou mais.² Esse valor foi o parâmetro usado na pesquisa e não estabelece uma fronteira exata entre uma bebida segura e outra perigosa.¹ ² O risco também foi maior entre quem combinava maior calor com maior consumo diário.²

Como o calor pode afetar o esôfago

Uma das hipóteses é que a exposição repetida ao calor provoque lesões no revestimento do esôfago. Ao longo dos anos, ciclos sucessivos de dano e reparação podem favorecer alterações celulares envolvidas no desenvolvimento do câncer.¹

Um experimento com animais encontrou danos no esôfago após exposições repetidas ao calor. Quando essa exposição foi combinada a uma substância carcinogênica, lesões pré-malignas apareceram mais cedo e com maior frequência.³

O achado ajuda a explicar um possível mecanismo, mas não prova que o mesmo ocorra da mesma forma em pessoas.³

Estudo com quase 1 milhão de pessoas reforça a associação

Uma análise publicada em 2026 reuniu quase 1 milhão de participantes no Reino Unido e encontrou, entre quem declarava consumir bebidas muito quentes, risco de carcinoma espinocelular mais de três vezes o observado entre aqueles que preferiam bebidas mornas.⁴

O número chama atenção, mas precisa ser colocado em perspectiva. O câncer de esôfago é relativamente pouco frequente na população geral. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer estima 5,31 novos casos para cada 100 mil habitantes por ano entre 2026 e 2028.⁵ O dado reúne todos os tipos de câncer de esôfago e não pode ser aplicado diretamente ao estudo britânico, mas ajuda a dimensionar a frequência da doença.

O estudo também encontrou risco maior entre pessoas que consumiam seis ou mais bebidas quentes por dia.⁴ Uma limitação é que os próprios participantes classificaram as bebidas como mornas, quentes ou muito quentes, sem medição em graus.

Os resultados reforçam a associação entre exposição frequente ao calor e esse tipo de câncer, mas não permitem definir um ponto exato de risco para cada pessoa.⁴

E o que isso significa na prática?

Uma xícara de café tomada muito quente em uma ocasião isolada não permite prever o desenvolvimento de câncer. Os estudos avaliam a exposição repetida ao calor ao longo de muitos anos.² ⁴

O carcinoma espinocelular também tem outros fatores de risco bem estabelecidos, entre eles tabagismo e consumo de álcool, que podem atuar de forma combinada.⁶

Para quem gosta de café, chá ou chimarrão, não há razão para abandonar a bebida. A medida prática é evitar consumi-la ainda excessivamente quente e esperar que esfrie um pouco antes do primeiro gole.¹ ²

alimentação saudável Anvisa atividade física AVC bem-estar cardiologia Ciência e Saúde Câncer de Mama demência dengue desinformação em saúde diabetes tipo 2 diagnóstico precoce doença de Alzheimer doenças cardiovasculares doenças infecciosas envelhecimento saudável FEBRASGO ginecologia imunização Infarto medicina baseada em evidências menopausa Ministério da Saúde obesidade OMS pediatria prevenção cardiovascular Prevenção em saúde Qualidade de Vida Reposição Hormonal Saúde a Sério saúde da mulher saúde da pele saúde do coração saúde infantil Saúde masculina saúde materna saúde mental saúde metabólica saúde pública Terapia Hormonal trombose venosa profunda vacinação infantil vigilância epidemiológica

  • ¹ International Agency for Research on Cancer. Drinking Coffee, Mate, and Very Hot Beverages. IARC Monographs on the Evaluation of Carcinogenic Risks to Humans, Volume 116. Lyon: International Agency for Research on Cancer; 2018.
    https://publications.iarc.fr/566
  • ² Islami F, Poustchi H, Pourshams A, et al. A prospective study of tea drinking temperature and risk of esophageal squamous cell carcinoma. International Journal of Cancer. 2020;146(1):18-25. doi:10.1002/ijc.32220.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30891750/
  • ³ Rapozo DCM, Blanco TCM, Reis BB, et al. Recurrent acute thermal lesion induces esophageal hyperproliferative premalignant lesions in mice esophagus. Experimental and Molecular Pathology. 2016;100(2):325-331. doi:10.1016/j.yexmp.2016.02.005.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26899552/
  • ⁴ Papier K, Gaitskell K, Floud S, Reeves GK. Hot Drinks and Oesophageal Cancer: Prospective Analyses in Around 1 Million UK Adults. International Journal of Cancer. 2026. Online ahead of print. doi:10.1002/ijc.70654.
    https://doi.org/10.1002/ijc.70654
  • ⁵ Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. 2. ed. rev. atual. Rio de Janeiro: INCA; 2026. 168 p.
    https://ninho.inca.gov.br/jspui/handle/123456789/18062
  • ⁶ Steevens J, Schouten LJ, Goldbohm RA, van den Brandt PA. Alcohol consumption, cigarette smoking and risk of subtypes of oesophageal and gastric cancer: a prospective cohort study. Gut. 2010;59(1):39-48. doi:10.1136/gut.2009.191080.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19828467/

Equipe Saúde a Sério

Veja também

Receba nossa Newsletter

Cadastro realizado com sucesso!

Aproveite e visite nossas redes sociais!