Maternidade após 35 anos: o que a biologia diz,  e aquilo que ela não decide

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Durante muito tempo, ensinamos as mulheres a ouvir o relógio antes de ouvir a própria vida. A medicina, eu preciso reconhecer, ajudou a construir esse relógio: insistiu nos efeitos da idade sobre a fertilidade e, sem perceber, transformou uma janela biológica em ultimato. Mas a vida raramente cabe em um calendário. Ela se faz de formação, de encontros, de hesitações legítimas e de tempo, desse tempo que Hannah Arendt chamaria de natalidade: a capacidade humana de começar, a promessa de que algo novo ainda pode nascer, em nós e a partir de nós.

Hoje, aos 35 anos, muitas mulheres se encontram em um lugar que suas mães e avós não conheceram. A formação se alongou, as carreiras ficaram mais densas, os afetos seguem trajetórias menos retas, e a decisão de ter um filho deixou de ser um gesto automático para se tornar uma escolha seja por desejo, circunstância ou sentido.

É aqui que nasce uma inquietação cada vez mais frequente no meu consultório: afinal, o que a ciência realmente sabe sobre engravidar depois dos 35 anos? Há motivo para receio, ou ainda repetimos mitos sem questioná-los?

Os números explicam por que a conversa se tornou tão urgente. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a idade média em que as brasileiras têm filhos subiu de 25,3 anos, em 2000, para 27,7 anos, em 2020, e as projeções apontam que esse adiamento deve se acentuar nas próximas décadas¹. Não é capricho de uma geração. É uma mudança civilizatória silenciosa.

Como quase tudo em saúde reprodutiva, a resposta honesta mora longe dos extremos. A medicina reúne hoje recursos diagnósticos e terapêuticos que tornaram a gestação mais segura em diferentes idades. A biologia, por sua vez, não pede licença: segue exercendo influência real sobre a fertilidade e sobre alguns riscos da gravidez². Sustentar as duas verdades ao mesmo tempo é o começo da maturidade no tema.

Tecnicamente, gestar depois dos 35 anos recebe o nome de idade materna avançada. O rótulo assusta antes de explicar. Mas não é uma sentença: é uma classificação clínica, criada para identificar quem merece um olhar mais atento no planejamento e no pré-natal²,⁵. Os próprios protocolos brasileiros são claros ao lembrar que o risco gestacional não se mede pela idade isolada, e sim pelo conjunto, pelas condições clínicas e sociais da mulher e pela forma como a gravidez evolui⁵.

Primeiro Ponto: Fertilidade feminina e reserva ovariana após os 35 anos

A raiz da questão está no envelhecimento natural dos ovários. Diferentemente de quase tudo no corpo, aqui não há reposição: as mulheres nascem com um número finito de óvulos, a chamada reserva ovariana, que só diminui com o tempo. E não se trata apenas de quantidade. A partir dos 35 anos, também a qualidade dessas células declina de forma gradual²,³.

Gosto de uma imagem para explicar isso. Pense em uma biblioteca que nunca mais recebe novos títulos: a cada ano o acervo encolhe e algumas obras saem de circulação. Os ovários funcionam assim. A reserva vai sendo consumida ao longo da vida, e isso conversa diretamente com as chances de engravidar.

Essa aritmética silenciosa tem consequências. As chances de gravidez espontânea tendem a cair com os anos, enquanto se tornam mais frequentes as alterações cromossômicas nos embriões, que são mudanças no material genético capazes de comprometer o desenvolvimento e se associam a maior risco de aborto e de algumas condições genéticas²,³. A boa notícia é que o pré-natal não assiste a tudo isso de braços cruzados: exames de rastreamento ajudam a avaliar essas alterações e a desenhar um acompanhamento sob medida².

Ainda assim, sobrevive o mito de que toda gravidez depois dos 35 anos é, automaticamente, de alto risco. A literatura conta uma história mais sóbria e mais generosa: embora alguns riscos aumentem com a idade, a maioria das mulheres nessa faixa terá uma gravidez bem-sucedida, sobretudo quando há bom acompanhamento e saúde preservada³.

Segundo Ponto: Quais os riscos reais da gravidez após os 35 anos e cuidados durante o pré-natal

Seria desonesto, porém, fingir que a idade não pesa. Aliás, a idade pesa para qualquer situação de saúde no ser humano, e isso é inexorável à nossa existência biológica.  A idade materna avançada está associada a maior chance de algumas complicações: hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, prematuridade e maior probabilidade de cesariana²,³. São riscos reais e justamente por isso merecem ser ditos sem dramatização.

A idade, contudo, está longe de ser a única protagonista. Excesso de peso, tabagismo, sedentarismo, doenças pré-existentes e o histórico obstétrico pesam tanto quanto³. Reduzir tudo ao número de velas no bolo de aniversário é uma simplificação que não ajuda ninguém. 

Estudos recentes acrescentam outras nuances: com o avançar da idade materna, tornam-se mais frequentes as complicações ligadas à placenta, a restrição de crescimento fetal e, em alguns casos, a necessidade de cuidados neonatais especializados²,³. Nada disso é destino. O que os dados pedem, com insistência, é acompanhamento, do início ao fim.

É aqui que o pré-natal revela sua verdadeira função: menos um ritual de exames, mais um sistema de navegação. Quanto mais cedo se enxerga um desvio de rota, maiores as chances de corrigi-lo e de proteger mãe e filho². Não por acaso, as diretrizes do Ministério da Saúde insistem na identificação precoce dos fatores de risco e no encaminhamento certo, na hora certa⁵.

E há um capítulo que ganhou peso nos últimos anos: o que vem antes da gravidez. Mulheres que pretendem engravidar depois dos 35 anos podem se beneficiar de uma avaliação pré-concepcional, momento de investigar condições clínicas, revisar medicamentos em uso, atualizar a vacinação e cuidar da saúde antes que ela seja cobrada². Aí está a verdadeira “joia da coroa” de todo este texto ! O impacto na redução de risco quando a mulher se prepara para uma gravidez é sensível, cerca de 60% de redução de algum desfecho negativo, seja ele para a saúde do feto ou da mãe. 

Terceiro Ponto: O Avanço da Ciência e a Nova Janela de Fertilidade Humana 

A medicina reprodutiva ampliou, de fato, o horizonte de quem deseja adiar a maternidade. Técnicas como o congelamento de óvulos e a reprodução assistida abriram caminhos antes impensáveis sem, no entanto, revogar a biologia. O sucesso desses tratamentos continua atado à idade em que os óvulos foram coletados e à reserva ovariana disponível³,⁶.

Um dado da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) ajuda a aterrissar a conversa: aos 38 anos, são necessários, em média, de 25 a 30 óvulos congelados para que uma mulher tenha chance razoável de obter um nascimento a partir deles⁶. O número impressiona porque desfaz uma fantasia confortável.

Poucos assuntos geram tantas ilusões. A tecnologia multiplicou escolhas, mas não suspendeu o tempo. Congelar óvulos pode, sim, ampliar possibilidades futuras, mas jamais funciona como garantia. A própria literatura adverte que os resultados variam conforme fatores individuais, com destaque para a idade em que o procedimento é realizado³,⁶. O parecer da ASRM é desconcertantemente direto: tratar o congelamento como uma “apólice de seguro” da maternidade futura pode gerar uma falsa sensação de segurança, e por isso recomenda que cada paciente conheça, com clareza, as taxas de sucesso esperadas para a sua idade⁶.

A própria discussão amadureceu. Por muito tempo, falar de maternidade tardia era falar apenas de risco. Hoje, pesquisadores e sociedades médicas defendem um olhar mais largo, que reconheça não só a biologia, mas também os aspectos sociais, econômicos e emocionais de decidir ter um filho³,⁴ e inclusive os ganhos, raramente mencionados, de uma maternidade mais madura.

Porque nenhuma mulher é uma média estatística. Cada uma carrega uma biologia, uma história de saúde e uma circunstância de vida próprias. Daí a insistência dos especialistas em uma abordagem individualizada, sustentada por informação de qualidade, planejamento e bom acompanhamento médico².

A ciência nos diz duas coisas ao mesmo tempo, e é preciso coragem para ouvir ambas. A fertilidade feminina muda de modo importante ao longo da vida. E a maternidade depois dos 35 anos deixou de ser exceção para se tornar paisagem comum. O desafio não está em alarmar nem em minimizar: está em compreender os limites da biologia sem desprezar o que a medicina já é capaz de oferecer.

O conceito de idade materna avançada serve para orientar cuidado e monitoramento e não para carimbar destinos. Nenhum rótulo decide o desfecho de uma gestação, porque cada gravidez tem um rosto, um nome e uma história, e nenhuma gestação cabe inteira dentro de uma estatística.

Se há uma convicção que carrego como médico, é esta: informação correta, sem rótulos, entendendo o contexto de cada um que está a minha frente é a forma mais elegante de fazer Medicina e devolver liberdade. Quanto antes as mulheres souberem, sem medo e sem mitos, sobre fertilidade, planejamento reprodutivo e saúde materna, mais soberanas serão as suas escolhas, e assim mais alinhadas aos projetos de vida que só a elas cabe escrever. Talvez seja esse o sentido último de cuidar: não apressar o relógio, mas proteger o tempo de cada uma.

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  1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Projeções da População do Brasil e Unidades da Federação. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41056-populacao-do-pais-vai-parar-de-crescer-em-2041
  2. American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Pregnancy at Age 35 Years or Older. Obstetric Care Consensus No. 11. 2022. Disponível em: https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/obstetric-care-consensus/articles/2022/08/pregnancy-at-age-35-years-or-older
  3. Glick I, Kadish E, Rottenstreich M. Management of Pregnancy in Women of Advanced Maternal Age: Improving Outcomes for Mother and Baby. International Journal of Women’s Health. 2021;13:751-759. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8364335/
  4. Ahmad M, Sechi C, Vismara L. Advanced Maternal Age: A Scoping Review about the Psychological Impact on Mothers, Infants, and Their Relationship. Behavioral Sciences. 2024;14(3):147. Disponível em: https://doi.org/10.3390/bs14030147
  5. Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. 1ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_gestacao_alto_risco.pdf
  6. Ethics Committee of the American Society for Reproductive Medicine (ASRM). Planned Oocyte Cryopreservation to Preserve Future Reproductive Potential: An Ethics Committee Opinion. Fertility and Sterility. 2024;121(4):604-612. Disponível em: https://www.asrm.org/practice-guidance/ethics-opinions/planned-oocyte-cryopreservation/

Dr. Eduardo Cordioli

Médico obstetra com experiência em gestação de alto risco e uma das principais referências em saúde digital no Brasil

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