Perimenopausa e menopausa: por que confundir as duas fases pode atrasar o cuidado certo

Fogachos estão entre os sintomas mais conhecidos dessa fase da vida, mas muitas mulheres ainda confundem perimenopausa, menopausa e climatério

Tempo de Leitura: 5 minutos

Há uma confusão comum, e até compreensível, em torno desses dois termos. Muitas pessoas usam perimenopausa e menopausa como sinônimos, mas eles descrevem momentos diferentes da vida reprodutiva da mulher. Essa distinção tem impacto prático em decisões que vão da contracepção à terapia hormonal. Saber em que fase a mulher está ajuda a entender sintomas, expectativas e opções de cuidado.

A ciência que estuda o envelhecimento reprodutivo feminino organiza essa transição em estágios bem definidos. A classificação mais utilizada internacionalmente é o STRAW+10, sistema criado para identificar as diferentes fases da vida reprodutiva feminina.¹ Segundo esse modelo, a menopausa é definida como um marco clínico específico. Sua identificação ocorre retrospectivamente, após 12 meses consecutivos sem menstruação na ausência de outras causas.¹

Antes disso ocorre a perimenopausa, período conhecido como transição para a menopausa. É nessa fase que começam as alterações persistentes do ciclo menstrual e as oscilações hormonais características do envelhecimento reprodutivo. Ela se estende até 12 meses após a última menstruação, quando a menopausa passa a ser oficialmente confirmada.¹

Fogachos podem ser um dos primeiros sinais da perimenopausa

Muitas mulheres começam a perceber essa mudança justamente por causa dos fogachos. As ondas repentinas de calor, geralmente acompanhadas de suor, vermelhidão no rosto e sensação intensa de calor, estão entre os sintomas mais frequentes da perimenopausa. O que muita gente desconhece é que eles costumam surgir anos antes da menopausa propriamente dita.² ³

Nesse período, os ovários passam a funcionar de forma menos previsível. A produção hormonal oscila mais intensamente, o que ajuda a explicar por que os ciclos menstruais se tornam irregulares e os sintomas começam a aparecer.

Durante a perimenopausa, os níveis de estrogênio variam de forma significativa. Essas oscilações ajudam a explicar tanto as alterações menstruais quanto sintomas como fogachos, alterações do sono e mudanças de humor.² A fase pode começar ainda no final dos 30 anos ou início dos 40 e costuma durar vários anos. Embora exista grande variação individual, a menopausa natural ocorre, em média, entre os 51 e 52 anos.³ Isso significa que muitas mulheres convivem por um longo período com sintomas antes da interrupção definitiva da menstruação.

Essas oscilações hormonais também explicam por que a gravidez continua sendo possível durante a perimenopausa. Mesmo com ciclos irregulares, a ovulação pode ocorrer de forma esporádica. Por esse motivo, métodos contraceptivos continuam sendo recomendados até a confirmação da menopausa.²

Fogachos e suores noturnos estão entre os sintomas mais frequentes dessa fase da vida.³ Para algumas mulheres, eles aparecem ocasionalmente. Para outras, podem interferir no sono, na concentração, no trabalho e na qualidade de vida. Os estudos mostram que esses sintomas podem persistir por anos e, em parte das mulheres, continuar mesmo após a menopausa.⁴

Embora sejam amplamente associados à menopausa, os fogachos costumam começar ainda durante a perimenopausa. Por isso, sua presença isoladamente não significa que a menopausa já tenha acontecido.

Outra queixa comum durante a perimenopausa e os primeiros anos após a menopausa é a chamada névoa cerebral, ou brain fog. O termo descreve dificuldades de memória, atenção e concentração relatadas por muitas mulheres nesse período.⁵ Algumas descrevem a sensação como entrar em um cômodo e esquecer o que foram fazer ou perder o raciocínio durante uma conversa. Embora seja uma queixa frequente, as evidências indicam que essas alterações tendem a melhorar com o tempo.⁵ Privação de sono, ansiedade, estresse e alterações de humor também podem contribuir para esses sintomas e precisam ser considerados na avaliação clínica.⁵

Como identificar a perimenopausa e a menopausa

Diante dessas mudanças, muitas mulheres procuram atendimento médico para entender se já entraram na perimenopausa ou se a menopausa ocorreu. Na maioria dos casos, porém, o diagnóstico é clínico. Diretrizes internacionais, como as do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), do Reino Unido, recomendam que a avaliação seja baseada principalmente na idade, nos sintomas e nas alterações menstruais.⁶ Isso acontece porque os níveis hormonais podem variar significativamente durante a perimenopausa e nem sempre refletem com precisão a fase em que a mulher se encontra. A investigação laboratorial costuma ser reservada para situações específicas, como suspeita de insuficiência ovariana prematura ou menopausa precoce.⁶

O termo climatério é usado para descrever todo o período de transição entre a fase reprodutiva e a não reprodutiva da vida da mulher. Ele engloba a perimenopausa, a menopausa e os anos seguintes. Uma diretriz brasileira publicada em 2024 pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, Associação Brasileira de Climatério e Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia reforça que existe uma janela de oportunidade para a terapia hormonal da menopausa. Os benefícios tendem a ser mais consistentes quando o tratamento é iniciado antes dos 60 anos ou nos dez anos seguintes à menopausa, em mulheres adequadamente selecionadas.⁷

Por isso, identificar corretamente o momento em que a menopausa ocorre tem importância prática. A decisão sobre iniciar ou não um tratamento depende de fatores individuais, histórico clínico, intensidade dos sintomas, idade, tempo decorrido desde a menopausa e possíveis contraindicações. A terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para aliviar fogachos e outros sintomas relacionados à queda hormonal em mulheres com indicação adequada, mas não é recomendada para todas as pacientes e exige avaliação médica individualizada.⁷ Também existem alternativas não hormonais e medidas de manejo dos sintomas que podem ser consideradas, especialmente para mulheres que não podem ou não desejam utilizar hormônios.⁷

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o número de mulheres na pós-menopausa continua crescendo globalmente em razão do envelhecimento populacional e do aumento da expectativa de vida.⁸ Como consequência, cada vez mais mulheres passarão uma parcela significativa da vida após o fim do período reprodutivo. Isso amplia a importância do tema para a saúde individual e para o planejamento dos sistemas de saúde.

Entender a diferença entre perimenopausa, menopausa e climatério ajuda a interpretar sintomas de forma mais adequada e a buscar orientação médica no momento certo. Em uma fase da vida cercada por dúvidas, essa distinção oferece algo valioso: contexto. Saber o que está acontecendo com o próprio corpo permite tomar decisões mais informadas e evita que sintomas potencialmente tratáveis sejam encarados apenas como parte inevitável do envelhecimento.

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  1. Harlow SD, Gass M, Hall JE, et al. Executive summary of the Stages of Reproductive Aging Workshop +10: addressing the unfinished agenda of staging reproductive aging. Climacteric. 2012;15(2):105-114. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3340903/
  2. Santoro N. Perimenopause: From Research to Practice. Journal of Women’s Health. 2016;25(4):332-339. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4834516/
  3. Santoro N, Roeca C, Peters BA, Neal-Perry G. The menopause transition and women’s health at midlife: a progress report from the Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN). Obstetrics and Gynecology Clinics of North America. 2019;46(3):419-432. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6784846/
  4. Avis NE, Crawford SL, Greendale G, et al. Duration of Menopausal Vasomotor Symptoms Over the Menopause Transition. JAMA Internal Medicine. 2015;175(4):531-539. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2110996
  5. Maki PM, Joffe H. Brain fog in menopause: a health-care professional’s guide for decision-making and counseling on cognition. Menopause. 2022;29(10):1236-1241. Disponível em: https://journals.lww.com/menopausejournal/fulltext/2022/10000/brain_fog_in_menopause__a_health_care.16.aspx
  6. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Menopause: diagnosis and management (NG23). Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng23
  7. Oliveira GMM, Almeida MCC, Arcelus CMA, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2024;121(7). Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11341215/
  8. World Health Organization. Menopause. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/menopause

Deborah Lima

Jornalista do Saúde a Sério

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